terça-feira, 28 de setembro de 2010

Ludovico

Pintura de Calder, artista conhecido principalmente por seus mobiles, mas escolhi uma pintura sua, pois creio que os mobiles despertam interesse quando vistos cara-a-cara.

***

Ludovico

“Havia surgido uma nova tecnologia no mercado”, anunciavam. “Algo revolucionário”, declarou o presidente, “A solução para o problema da educação” repetiam em coro as pedagogas. Sua esposa o incomodava para que ele também fizesse parte do programa. Todos estavam fazendo, e o resultado era ótimo, já comentavam no trabalho. Seu chefe já havia feito, ainda era algo caro, por isso poucas pessoas estavam fazendo. O resultado é que a empresa obteve melhores números.

Meses depois chegava em sua casa, com a roupa molhada da chuva, exalando aquele típico cheiro. Jogou seu casaco por sobre o sofá e sentou-se no outro sofá de fronte a televisão. Tirou seus sapatos, pôs os pés por cima da mesa de centro, liga a televisão e começa a trocar repetidamente de canais. Sua esposa já estava em casa, cozinhava uma janta para os dois, era sexta-feira:

- HEI, JÁ VISTE O QUE EU TROUXE PARA QUE TU VEJAS? – Ela berrava da cozinha.

- ah? Não, o que é?

Ludovico ouve os passos de sua esposa vindo da cozinha, e a vê parar bem em frente a televisão e afastar os pés dele de cima da mesa de centro, pegar um folder e lhe colocar no colo:

- Isto, dá uma olhada. – diz a Ludovico logo após jogar o panfleto em seu colo, e apontava para sua pélvis, pois era onde estava o panfleto.

- Vou dar uma olhada – Responde desinteressado, e o coloca ao lado de sua coxa.

Sua esposa termina de cozinhar a janta, era pernil de porco com purê de batatas. Rebeca sempre o importunava para que ele comesse o pernil, mas sempre comia pouco. Comeu praticamente todo o purê de batatas. Mas este já não era tão bom quanto o que comia na casa de sua mãe, porém isto não passava de um detalhe que ficava explícito em cada refeição:

- E o que tu achaste do panfleto que te trouxe? – inquiria sua mulher enquanto levava a boca um naco do pernil.

- Que panfleto?

- Aquele do programa da inteligência.

- Ah, não deu tempo ainda. Mas, o que tem este programa?

- Estão fazendo um bom preço numa clínica aqui perto.

- Oh! Impressionante. – E indiferentemente continuava a comer seu purê e singelos pedaços de pernil.

Rebeca fica a olhar-lhe, com uma cara única de raiva, abaixou a cabeça e continuou a comer. Mexeu com a comida, pôs um tanto do purê em seu garfo, o levou a boca, ficou a arrastar o garfo e a faca em seu prato para conseguir agrupar mais um tanto de purê. E o ergueu até próximo a boca, assoprou na comida e começou a falar:

- Olha, se tu não queres aproveitar esta oportunidade, tudo bem, você é livre para isto, não estou lhe impedindo nem vou lhe incomodar. Não escondo que ficaria feliz se você fizesse este programa. Quem sabe fazendo ele você não conquista aquela promoção que faz tanto tempo estamos esperando? Daí teremos mais dinheiro, poderemos comprar mais coisas, botar uma TV a cabo melhor, não é tu que tanto reclama da programação da TV? Todo mundo está fazendo este programa, é um investimento que vale a pena, é mais rápido que fazer todo um curso que demora não sei quantos anos e ainda tem que fazer uma tese no final, com este programa não precisa nada, só vontade. Mas tu sempre foi preguiçoso mesmo, também não posso fazer nada, tu és livre para seres assim preguiçoso, mas e eu Ludovico, como fico? Me sinto humilhada, o marido de Sara já fez o programa e conseguiu uma promoção, final do ano eles vão para Miami, vão poder comprar um monte de coisas no free shop, enquanto nós temos que ficar aqui. – ela então leva o garfo a boca, que até agora estava fazendo acrobacias já que Rebeca falava, come o purê engole, Ludovico a olhava, ele sabia que ainda viria mais alguma coisa – e não sei, talvez seria uma boa tu fazeres o programa, é na clínica de estética do Dr. Roberto Damião, muito bom médico ele, e por sinal é a mesma clínica onde foi o Roger, o esposo da Sara. Acho que poderíamos pegar um pouco do nosso dinheiro e usar para fazer mais dinheiro, para crescer, evoluir, só isso. Mas eu não quero te pressionar.

- Okay, tudo bem, eu vou dar uma olhada nisto amanhã. Pode ser? Para falar a verdade estou curioso para ver isto, não vou mentir, andava pensando um pouco sobre isso, não muito, não sabia que tu te importavas tanto. – E ao terminar de falar põem a sua mão por cima da de Rebeca que estava por sob a mesa, e a mira ternamente nos olhos. Ela sorri e volta a falar.

- Eu até estava me informando, dá para fazer em vezes e tudo o mais. Tanto no cartão quanto no cheque, aceitam cheque pré, são muito atenciosos pelo que eu fiquei sabendo. Não é que você seja burro, você é inteligente, mas como todo mundo fala bem desse programa, e ele está dando certo para todo mundo, não custaria nada a gente tentar não é mesmo?

- Aham, faremos o seguinte, eu faço o programa primeiro, porque recebo mais no meu trabalho, aí então, depois com o aumento que vou receber e tudo mais, logo que tivermos pagas as minhas parcelas, depois logo em seguida, você também pode fazer, sempre caminhamos juntos, continuaremos seguindo juntos está bem?

Ela consente com a cabeça, sorri e continua a comer seu pernil.

*--*

Todos falavam da clínica de estética Beverly Hills, mesmo com seu visual exagerado, ainda assim era a melhor clínica de estética não só da cidade, como de toda a região. Por sinal era ali que várias personalidades locais fizeram suas cirurgias plásticas, e uma das primeiras do país e ter este novo programa.

Ludovico estava receoso, não sabia o porque, mas o ambiente médico joga com uma dualidade única, ao mesmo tempo algo que lhe acalma, como algo que pode ser desesperador. Graças a todos os remédios geralmente ficava calmo.

Entra na recepção, pega uma senha, espera alguns minutos, enquanto isso pega uma daquelas revistas que tem na capa a manchetes como: “a verdade sobre a maçonaria”, dá uma folhada, e parece que a reportagem falava dos rituais maçons, e a divisão entre os maçons do “bem” e os do “mal”. Tudo aquilo parecia baseado em algum filme, só faltava o santo graal no meio. Nisso sua senha é chamada.

Vai até a cabine onde seria atendido, lá estava uma moça, vestida exageradamente, ela ficava atrás de uma cabina e não havia como um tomar contato com o outro, nem com o ar, para evitar contaminações:

- Boa tarde, o senhor deseja realizar qual procedimento?

- Eu estava interessado neste novo programa que vocês têm que...

- Por qual motivo seria senhor? – a atendente o interrompe como se já soubesse o que ele queria.

- Para quê estas perguntas?

- Para nosso banco de dados, para poder melhor atender o senhor, por qual motivo senhor? – ela repete, dava para sentir o cansaço em sua voz, os nervos cansados, rijos como os músculos de um boxeador após uma luta.

- Bem, basicamente seria para conseguir uma promoção no meu emprego.

- Okay, o senhor prefere pagar à vista ou em 34 vezes sem juros?

- em 34 vezes.

A atendente gera uma nova senha, no papel haviam informações adicionais. Ela lhe entrega o bilhete e pela primeira vez olha para o rosto de Ludovico:

- Entrando na porta a direita senhor. – e ela mostra onde fazendo um gesto com a mão. Ludovico queria perguntar mais algumas coisas, mas desistiu ao perceber que a moça já havia chamado outra senha.

Na porta a direita já havia alguém lhe esperando, lhe perguntam se ele gostaria de assistir o vídeo sobre os benefícios do programa, Ludovico responde que sim. O vídeo contava a história do programa, desenvolvido por espanhóis e alemães, muito popular nos EUA, mostrou as declarações da ONU, repetia constantemente dois jargões; “a solução para a educação” e “melhore sua carreira”. O vídeo demorava em torno de dez minutos, não mais que isso. Logo que ele acabava, aquele mesmo homem levava Ludovico para uma outra sala, lá aparecia um médico, e ele perguntava coisas como; se tinha dislexia, hiperatividade, sonambulismo, diabetes e outras tantas coisas. Novamente Ludovico pergunta o porque de todas estas perguntas, e ouve uma boa justificativa: “para melhor atende-lo e para a sua segurança”. O médico lhe fala que até agora, o único risco que ele poderia correr era a perda total da memória, e que não deveria se preocupar, pois cerca de 10% da sua memória ele iria perder de qualquer forma, mas que isto compensava, pois assim que o programa terminasse, ele teria lembranças mais agradáveis. Assim que o médico vai embora, o mesmo sujeito que o acompanhara até então aparece com um contrato numa prancheta, e pedia ao paciente para assiná-lo, era um termo de compromisso. Ludovico hesita, mas cede a todos os benefícios de que lhe haviam falado, e assina. Tão logo estava indo para uma sala toda metálica, como se fosse um tanque de lavar roupa. Lá havia um biombo, pediram para tirar a roupa, colocar na gaveta que havia na parede e vestir a roupa de paciente. Ele obedece. Pedem para que vá até a mesa no centro, ele obedece. Imaginou que ela estaria gelada, pois a sala era muito fria e a mesa também era metálica como toda a sala. Mas pelo contrário, a mesa estava quente. Provavelmente devido a não parar de ir gente se deitar ali, ou simplesmente era aquecida. Lhe dão uma pílula para dormir, logo ele dorme.

*--*

Acorda numa cama. O colchão era macio, confortável, a coberta era boa também. Haviam algumas camas ali, mas só a de Ludovico estava ocupada. Olhou o relógio, e viu que já havia passado algumas horas, perto de 5 horas desde quando havia se deitado naquela cama metálica. Ainda estava bem sonolento, mas o sono passava conforme ficava acordado. Logo veio uma enfermeira, ela trouxe um copo com água e duas pílulas. Enquanto toma Ludovico pergunta para que eram; “Por causa das dores de cabeça que dão no primeiro dia”. Fazia todo sentido. Sem falar que dores de cabeça são terríveis e remédios uma benção! Ela o espera tomar os dois comprimidos, o faz realizar exercícios de respiração, depois de cinco minutos fazendo o exercício ela o levanta e começam a fazer um exercício de alongamento, estica as pernas, o braço, as costas. Então ela o leva até uma sala onde suas roupas estavam e lhe disse que podia se vestir e que o aguardava do lado de fora. Se veste rápido, queria ir embora logo. Quando sai a enfermeira o leva até um escritório, lá Ludovico recebeu uma receita do remédio para dor de cabeça e um atestado para quatro dias. A enfermeira lhe dá algumas informações do que acontece após a operação e lhe informava alguns cuidados que deveria ter: “deve ficar três dias em repouso, procurar não fazer grande esforço mental por uma semana, nada de ler livros, jogar xadrez, sudoku e outros, procure comer alimentos saudáveis, não se assuste caso deixe de lembrar de algo, isto é um bom sinal, significa que o programa deu certo e procure não sair de casa sozinho no primeiro mês, pois algumas pessoas esquecem o caminho para casa, falando nisso já chamamos um táxi para levar o senhor para casa”. Logo o pegam pelo ombro e delicada e calmamente o levam até a entrada da clínica. Em dois minutos aparece o táxi, a enfermeira o guia até o carro e antes de fechar a porta avisa “Senhor não esqueça, o seu boleto virá pelo correio”, ele faz um sinal de positivo com a cara e ela fecha a porta. O táxi já tinha o endereço da casa de Ludovico, e o que lhe deixou tranqüilo era que lembrava de todo o caminho até sua casa.

*--*

Era seu primeiro dia de trabalho depois de ter feito o programa. Se sentia cansado para ir trabalhar, mas acreditava ser um pouco da moleza que dá depois de alguns dias em casa sem fazer muito mais do que assistir TV. Sua esposa estava orgulhosa por ele ter feito o programa, até o levaria de carro para o trabalho e havia prometido o buscar quando ele saísse. Por sinal levava um bolo para comemorar no trabalho dela, dizia Rebeca que era uma espécie de tradição no escritório dela. Ludovico chega no trabalho. Pega o elevador e encontra Bruno, um colega seu que nunca conversava com ele, praticamente o ignorava, nem se cumprimentar eles faziam, mas neste dia ele o parabeniza: “Parabéns Ludovico, que atitude que tomasse para sua vida hein?”, Ludovico surpreso lhe pergunta “Parabéns porque?”, “Ora, você fez o programa, sabe que vai ser promovido” Bruno lhe dá um tapinha nas costas, chega perto de seu ouvido e lhe fala “Bem, não fiz o programa pois no momento estou sem dinheiro, você fez a coisa certa” e termina lhe jogando uma piscada de olho. Chegam no andar do escritório. Ludovico senta em sua mesa como sempre e começa a trabalhar, e percebe que a cada vez que alguém por ali passava lhe cumprimentava, seja com um abano de mão ou uma piscada de olho. Respondia a todos com um sorriso forçado. Depois de uma hora sentado na frente de seu computador alguém lhe avisa que o chefe queria falar com ele. Ludovico fica nervoso, mas pelo sorriso na cara da secretária dele, não era nada demais, talvez ele só quisesse lhe parabenizar ou algo assim, já que era o que todos estavam fazendo. Vai até a sala do chefe. Assim que entra o chefe faz sinal para aguardar um pouco, ele estava no telefone. Não demora muito desliga o telefone se levanta e vai dar um aperto de mão em Ludovico “Parabéns meu rapaz, soube hoje pela manhã que você fez o programa, fico muito contente por isso, quero deixar claro que vejo isto tudo como um belo investimento em sua carreira e uma demonstração clara de suas ambições”, então seu chefe faz um gesto com a mão para que Ludovico se sente, ele se senta, a secretária traz um café para o dois, e o seu patrão começa a falar:

- Bem Ludovico, vamos ser diretos pois todo meu tempo é precioso. Estou precisando de uma nova equipe de consultoria, trabalharão principalmente com a parte de publicidade e motivação para o escritório, terão esta função dupla. E bem, estou fechando a equipe hoje mesmo e como você fez o programa acredito que pode ser uma boa hora para lhe dar este privilégio, o que você acha?

- Acho muito interessante, e gostaria de saber quanto de aumento eu vou receber senhor?

Seu patrão da uma risadinha aponta o dedo para o rosto de Ludovico e lhe diz com um sorriso de orelha e orelha:

- Já vi que você não gosta de perder tempo – ele ri mais um pouco fazendo o mesmo gesto de antes com seu dedo – bem seu salário praticamente dobra, é um pouco menos mais é quase isso.

Ludovico fica bem feliz, dá um sorriso naturalmente e logo que terminam de acertar alguns detalhes fica tomada e sacralizada a decisão, “Não esqueça de me trazer seu certificado amanhã, pois amanhã você começa com o pessoal”. E Ludovico volta para o seu computador e seu trabalho, tinha que arrumar uma tabela no computador.

Quando sai do trabalho e sua esposa o busca pergunta se ela não quer ir comer alguma coisa em algum lugar legal. Ela sorri já imaginando o que seria. Vão até um belo restaurante de comida russa. Assim que pedem o prato que queriam Ludovico conta a novidade para a esposa, “Fui promovido hoje” ela fica super feliz o abraça e lhe dá um beijo, e começa a ficar excitada com a promoção do marido:

- Agora vamos poder trocar nosso carro e quem sabe fazer uma viajem, daí quando formos viajar podemos ir no freeshop e comprar algumas coisas para nós, o que você acha? E também posso fazer uma cozinha nova, e se tudo der certo e economizarmos direito podemos nos mudar para uma casa com piscina e um belo quintal. Podemos comprar umas roupas novas e uns sapatos novos. Vamos comprar roupas este final de semana, pois você não pode ir assim para o seu emprego agora que fostes promovido.

E assim seguiu a conversa até o fim da noite. Sem falar que sua esposa ficou constantemente lhe dizendo que havia o avisado para realizar o programa desde sempre.

*--*

Três dias depois e já com roupas novas, Ludovico estava na reunião com seus outros cinco colegas, dos quais somente um não havia feito o programa. Iriam dividir as tarefas da equipe “e como sabem, no primeiro mês vamos deixar Ludovico com uma carga menor devido a ele ter realizado o programa recentemente”, disse o líder da equipe. Após isto ele mostra uma apresentação de slides sobre o que é ser um líder e um empreendedor. Palavras como atitude, dedicação, liderança, autonomia, confiança e outras do gênero. A segunda pauta eram medidas para aumentar a produtividade. E assim se seguiu a reunião. Depois fizeram uma pausa para um lanche. Ludovico percebe que o lanche que ganhava agora era melhor que o que ganhava antes e isso realmente o animou desde que havia feito o programa. Depois foi dado a cada um uma prancheta com uma tabela e foram pelos setores colher dados para poderem futuramente aumentar a produtividade. Depois foram almoçar e combinaram que quem ainda não havia colhido dados suficientes poderia colher mais alguns e todos se encontrariam 14:45H para trocarem os dados do levantamento. Depois as três tiveram outra reunião que foi até o fim do expediente.

O expediente acaba e logo que saia do escritório o vizinho de biombo de Ludovico antes da promoção o encontra e o chama, “Hei Ludovico, porque não te vejo mais, fiquei sabendo que foi promovido, fez o programa é?”, “Sim faz uma semana mais o menos”, “Pô cara, então temos que comemorar!”. Seu antigo vizinho de biombo chama mais um colega e vão até o bar perto do prédio da empresa.

Sentam na mesa, pedem uma cerveja e três copos. O antigo vizinho começa a falar:

- cara que bacana, fizesse aquele programa novo então?

- sim, isso mesmo, estava pensando em investir em mim sabe?

- Sei, muito bacana. E como é ser promovido? Anda muito puxado? – pergunta o vizinho.

- Olha, tem suas vantagens e suas desvantagens. – Responde Ludovico quase que automaticamente, pois não tinha uma opinião formada, apenas dizia isto para não ficar calado.

E bebem mais, pedem uma porção pequena de batatas fritas, bebem mais e já havia escurecido. O lugar estava agora cheio pois passava um jogo de futebol na TV. Ludovico estava atento ao jogo enquanto o antigo vizinho e o colega discutiam sobre algumas políticas para que os jogadores joguem melhor. Cada um defendia sua opinião: “jogadores daqui não podem ir jogar em clubes no estrangeiro, tem que acabar com essa palhaçada, é injusto os melhores jogadores irem para fora”, “Não, os times devem continuar a investir em categorias de base para continuarmos a revelar grandes astros”, “Mas eles tem que ter mais amor a camisa, ou melhor nosso povo deveria ter mais amor a camisa, a pátria. Viu a copa?” e por aí iam os argumentos, constantemente mudando e transitando pela confusão. Até que então o antigo vizinho de Ludovico o olha na cara e pergunta: “Não é verdade que eles precisam ser mais patriotas, e não só o jogadores como os torcedores também?”, “como?”, “mais patriotas, não usar só a camiseta da nossa seleção durante a copa, torcer somente para times nacionais, pendurar a bandeira não só durante a copa ou as olimpíadas, tem que ter amor a pátria!”. Ludovico fica parado tentando entender o que seu colega estava falando, olha a comanda e viu que já haviam ido sete cervejas e que já estava escuro, precisava ir para casa logo ou teria problemas em casa com sua mulher, “é, não dá para brincar em serviço mesmo Nachbar”. Nachbar olha para o colega e diz, “viu como eu tava certo, quem disse isso não foi eu foi o Ludovico!” e ambos levantam os ombros e as mãos fazendo sinal de quem aceita um veredicto.

Racham o dinheiro da comanda e vai cada um para sua casa, antes de irem Nachbar conta uma piada e cada um vai para o seu canto. Ludovico vai até seu carro, tem dificuldade para colocar a chave na fechadura e a deixa cair no chão. A ajunta e olha ao redor do estacionamento certificando-se de que não havia mais ninguém ali, e na parede atrás de seu carro lê uma pichação onde estava escrito: “Deixei de amar meu país e aprendi a amar o mundo”, e lembrara-se de toda a discussão que haviam acabado de ter Nachbar e o colega e o veredicto dado por Ludovico que nada sabia sobre o que falavam e praticamente havia dado aquela resposta sem nem olhar para a cara de qualquer um deles. Em casa sua mulher não brigou pro chegar tarde e havia dado sorte tamanha que a comida já estava pronta. Comeu e terminou bem sua noite. Estava cansado, todo o trabalho mais a cerveja o deixavam com um sono praticamente impossível de conter. Se entregou a Morfeu e descansara.

*--*

O trabalho continuava o mesmo, procuravam métodos de aumentar a produção e a produção estava realmente aumentando, aumentava pouco, mas aumentava.

Ludovico sempre era consultado fora do seu emprego, dava veredictos onde todos aceitavam muito bem. Vez por outra lia alguma revista ou o jornal, pois era uma das recomendações do programa manter-se com a mente ativa e ler revistas ou jornais já era o suficiente. Num belo dia enquanto assistia ao jornal na TV depois de ter chego em casa, vê a notícia de misteriosas pichações feitas num clínica estética que havia em sua cidade. Chama sua esposa para ver aquilo, ela assiste até o final e diz que “essa gente não tinha mais o que fazer, deve ter sido aquela gente pobre, sem educação, em vez de estudar ou ler um livro, tão ai incomodando”, “é, mas pelo que eu li das pichações só me pareceu serem contra a clínica, porque será?”, “é ainda bem que eles vão botar câmeras agora na clínica, é sempre assim esperam acontecer para depois se precaver”, concluiu sua esposa em referência a reportagem, onde terminava noticiando a instalação de câmeras na clínica.

Apesar de tudo Ludovico ficou extremamente curioso para saber ao menos quem eram as pessoas que haviam pichado aqueles escritos na clínica e se possível porque!

Na outra semana Ludovico pegou uma manhã de folga pois precisava realizar sua última etapa do programa e pegar seu certificado. A Beverly Hills agora era cercada por câmeras, os pintores estavam terminando de pintar e havia uma guarita com um segurança do lado de fora. Foi abrir a porta e ela estava trancada, olhou o horário de atendimento e viu que já era horário de atendimento e percebe que abaixo da placa havia uma campainha. Tocou-a e então a porta se abre. No saguão de espera havia outro segurança que ficava ao lado da senha. Ludovico pega uma senha e vai se sentar numa cadeira perto do final da fileira. Antes que seu lugar posso começar a esquentar o segurança vem até ele “o senhor poderia por favor se sentar na ordem da fila para seu conforto”. Foi aí então que Ludovico percebe que estavam sentados em fila e conforme alguém saia a fila andava mas todos continuavam sentados.Chega a vez de Ludovico e ele é atendido por uma daquelas cabines “Vim para concluir a última etapa e pegar meu certificado” ela gera uma nova senha e ele é levado para uma outra sala. Lá espera mais um pouco, haviam revistas para ler, ele pega uma e começa a ler, mas aí percebe que a TV estava ligada e isto atrapalhava a sua leitura, por isso desiste logo dela. Sua senha logo é chamada, entra novamente naquela sala metálica, usa novamente aquele modelo de avental que agora tinha o slogan da clínica. Deita-se sobre a mesa que continuava quente em vez de fria (apesar de metálica).

Quando termina o processo e acorda algum tempo depois, vai até a sala do médico chefe da clínica, em sua sala haviam inúmeros títulos pendurados na parede. Ele olha para Ludovico, tira uma foto dele com a câmera do computador, preenche alguns dados no computador e lhe entrega o certificado “agora tenho a garantia de que tenho o programa realizado em mim não é mesmo?” pergunta Ludovico com relativo alívio, “bem, na verdade este certificado apenas garante que você fez o programa conosco, não que ele foi efetivo em você”, “quer dizer que pode ser que o programa não tenha dado certo em mim?”, “é... para ser sincero poucas pessoas atingem os 100% de eficiência, é difícil, algumas pessoas conseguem mas é difícil, a maioria tem um aumento considerável já, o que é bem claro. Bem também começamos a levantar dados recentemente e o próprio programa é recente. Mas então, seria isso, o senhor gostaria de mais alguma coisa?” encerra a conversa o médico chefe já estendendo a mão para cumprimentar Ludovico. Perguntas e dúvidas ele tinha algumas, mas devido a algum motivo ele estende a mão e vai embora. Nunca mais viu aquele médico.

*--*

Como o programa que Ludovico havia feito lhe cobrava certas práticas culturais vez por outra procurava algo na seção de cultura no jornal. Como levava muito a sério todo o investimento que havia feito e não queria desperdiçar aquele dinheiro constantemente procurava por atividades culturais na cidade. Viu que teria uma semana de cinema. Começaria na terça-feira e iria até o domingo, viu que era intinerante e que por isso logo iria embora de sua cidade e perderia esta chance de assistir aqueles filmes. O bom é que era num horário após seu expediente e próximo ao seu trabalho, poderia ir a pé e dava tempo de parar num café.

Dá o horário do fim do expediente e tranquilamente vai até o elevador, no caminho encontra Nachbar seu antigo vizinho de biombo e o convida para ir junto com ele. Nachbar aceita e vão juntos. Descem pelo elevador que a esta hora estava lotado, cheio de gente. Ludovico vai direto para o saída do prédio e Nachbar pergunta:

- Hei Ludovico você não vai pegar o carro?

- Não precisa é aqui perto e quero comer algo antes.

- é aonde mesmo?

- Perto do café Bäckarei.

- Tem certeza que não queres ir de carro?

- Não vamos caminhar um pouco.

E Nachbar aceita ir caminhando até o café Bäckarei. Como era horário de fim de expediente o trânsito estava uma loucura, apesar de engarrafado havia espaços “livres” como se fossem bolsões de vácuo e ali nestes espaços os carros corriam muito rápido, disputavam lugar na fila:

- Quando eu era pequeno vinha com minha mãe no centro, daí comprávamos alguma coisa, as vezes eu ganhava algo bobo sabe, um gibi, um lego, um carrinho algo assim e depois íamos eu e ela tomar um café no Bäckarei, eu adorava o sonho que havia lá e o café deles é bom também. Você também fazia isso quando pequeno? – pergunta Ludovico para Nachbar.

- Não lembro muito bem, acho que fui algumas poucas vezes com a minha mãe no lugar.

Vão no café, Ludovico pega um salgado, um sonho e um café e sugere o mesmo para Nachbar. Escolhem uma mesa se sentam e começam a conversar:

- Sobre o que são estes filmes? – pergunta Nachbar.

- Parece ser uma mostra de filmes culturais.

- Não têm filme nacional? Olha a maioria é uma porcaria.

- É pode até ser que tenha algum. Na verdade vi no jornal e não explicava muito bem, é uma amostra de cinema intinerante realizada por um grupo de cineastas daqui e eles vão passando filmes arte. Era isso que tinha no jornal, ah e que era de terça até domingo e começa a tempo de sair do trabalho e ainda tomar um café. Quando vi o horário só pensava nisto!

Nachbar dá uma risadinha.

Terminam o café e vão assistir ao filme. Chegam algum tempo antes do filme começar e podem conversar um pouco. Ganham um folheto com uma pequena sinopse e outras informações sobre o filme. O que seria exibido naquele dia não era nacional, na verdade eles intercalaram um filme estrangeiro com um nacional. O daquele dia seria um filme feito na Polônia e tratava sobre um sujeito que começa a fazer filmes e se transforma em cineasta.

Quando o filme acaba os organizadores fazem um pequeno bate-papo com o público e respondem algumas perguntas. Logo tudo acaba e Ludovico e Nachbar voltam até o escritório para pegarem seus carros. A rua já estava bem mais tranqüila. No caminho conversam um pouco, “e o que você achou do filme Nachbar”, “Achei um saco, muito tedioso, ta na cara que aquilo ali é ficção, desde quando um operário ignorante vai virar cineasta, eles não devem saber nem segurar uma câmera, muito menos entender de algo artístico como o cinema” lhe responde seu antigo vizinho, “mas o filme me pareceu muito bom, antes de mais nada é uma boa história. E pelo que foi conversado depois do filme o roteiro é baseado na vida do cineasta mesmo, então aquilo ali não é tão sonhador assim”, “eles disseram isso é? Bem, não quis dizer que é uma mentira, mas ele deve ter feito assim para ficar uma história bonita também”. Não conversam mais sobre o filme. Cada um pegou seu carro e foi para sua casa, no outro dia teriam que trabalhar e Ludovico teria que pensar em algo para Nachbar e outros como ele produzirem mais sem a empresa gastar mais por isso.

*--*

Ludovico havia gostado tanto do filme e Nachbar não havia dado a mínima. Ele se sentiu culpado e se sentiu de certa forma culpado por poder ser alguém que não entendia nada de cinema ou arte, pensou se este programa que havia feito havia adiantado para alguma coisa, pois se sentia naquele momento tão insuficiente e debilitado quanto antes. O cansaço lhe atacava. Em casa pensava sobre isto o tempo todo, mas preferiu não comentar nada com sua esposa, pois isso seria uma discussão sobre um problema e poderia terminar em alguma discussão com ela, talvez pior do que quando se negara a realizar o programa.

Assim que chega no trabalho vai até a sua sala e 15 minutos depois é convocada uma nova reunião, era referente aos dados levantados. Ludovico logo se apronta e chega junto com Pablo, um dos membros da equipe que também havia feito o programa e era o segundo em comando. Ele elogia Ludovico por ter sido o primeiro a chegar depois dele. Isto o deixou confiante. Conversam um pouco sobre o final de semana e alguns programas que passaram na TV. Os outros colegas vão chegando e o assunto vai mudando, Fabiana fala da viagem que está programando com seu marido. Vão para um lugar tropical, paradisíaco, ele começa falando da viajem e termina com todos a seu redor conversando e debatendo sobre os free shops que tem nos aeroportos. Faltando alguns poucos minutos chega William o único membro da equipe que não havia passado pelo programa novo. Nisto Pablo faz um comentário a respeito das pessoas que não passam pelo programa e seu baixo Q.I. e capacidade, Ludovico lembra de Nachbar e dá uma risadinha junto com Pablo. A reunião começa e debatem sobre os dados. Pensam em várias políticas de produtividade e publicidade.

Após o final da reunião Ludovico convida Pablo para ir assistir o filme que passaria hoje no festival, “não sei se vai dar, pois estou com pouco dinheiro hoje aqui comigo e esqueci o cartão em casa”, “Mas é de graça, não precisa pagar para ir assistir” responde Ludovico, que após este ótimo argumento convence quase que de instantâneo Pablo.

Terminam o expediente e vão juntos até o pequeno festival. Comem algo antes e vão assistir o filme. O lugar tinha aproximadamente o mesmo tanto de gente que no outro dia. Depois teve aquela fala dos organizadores e as perguntas feitas pelos espectadores. Tudo termina e Ludovico e Pablo vão voltando para o escritório pegar seus carros:

- O que você achou do filme Pablo?

- é legal até, mas achei ele meio parado.

- É eu vi você piscando os olhos de sono. Mas gostasse do filme?

- Prefiro aqueles que passam no cinema normal, precisa pagar, mas eu gosto mais deles, então vale mais a pena, sem falar que já seleciona o público, porque ali tinha algumas pessoas esquisitas, não fui com a cara delas.

Ludovico novamente desiste de insistir sobre o filme, cada um vai para sua casa, pois no outro dia teriam que trabalhar.

*--*

Aperta o botão do elevador. Enquanto aguarda Nachbar aparece, “bom dia” dizem um para o outro. Nada de novo apenas mais um dia no trabalho, tudo seguia normal. O típico “bom dia”, mesmo recebido por aquela pessoa que lhe odeia e te inveja, e você diz o mesmo para quem você odeia e inveja.

Pela manhã tiveram outra reunião, publicidade, produtividade, metas... normal. Na hora do almoço todos saíram para ir com algum colega a algum lugar, enquanto Ludovico foi sozinho até um pequeno café, escondido, e parecia ser novo, pois ali não fervilhava de gente. O bom daquilo tudo é que tinha uma boa janela por onde se conseguia ver o rio. Mesmo ele sendo poluído era bom olhar para ele. Nunca talvez havia se sentido assim tão sozinho, fazia tempo que não sentia tamanha solidão. Lembra de sua infância quando ainda não ia a escola e ficava em casa a olhar o céu azul, os pássaros e a água da chuva quando chovia. Tudo isto lhe lembrava a profunda solidão de anos que havia passado e de seu atual casamento que era algo sem cor desde o dia em que a conhecera. Havia feito um programa que lhe ajudaria no emprego o prepararia para o mercado de trabalho, mas descobriu que aquilo não lhe dava garantia nenhuma de que o programa havia sido eficaz, mesmo assim tinha um certificado, pois lhe era dado devido ao alto valor pago. Não sabia se agora era um melhor funcionário ou alguém mais esperto, ainda rastejava para o trabalho da mesma forma que antes. E mesmo entre as pessoas que haviam feito o programa não encontrava pares, por onde ia ninguém lhe agradava e ele tão pouco conseguia agradar alguém. Só algo em tanto tempo, desde antes ou depois de ter feito o programa, que havia o tocado, aqueles dois filmes que havia assistido, em especial o primeiro sobre um operário que se torna cineasta. Parecia que falavam sobre ele, sobre a solidão que sentia. Parecia ser ignorado por toda aquela gente, por toda gente que via, principalmente as que nele esbarravam e mesmo assim seguiam seu caminho como se não fosse nada, sem nem olhar para trás e pedir desculpas. Ou dar algum outro tipo de atenção...

Ao fim de seu expediente pega seu carro e vai até aquele festival queria assistir a mais um filme, mas não queria que alguém soubesse, pois simplesmente não queria e não sabia o porque, se sentia mal toda vez que lhe diziam que não gostavam em nada daquele filme que tanto lhe havia apaixonado. Neste dia era um documentário, falava sobre os griots que existem na África, sujeitos que tem toda a história de um grupo gravada em sua memória e que repassam novamente adiante de forma oral. E que historiadores profissionais sempre consultam o griot, um sujeito que por vezes é analfabeto e sabe falar somente aquele idioma de seu grupo e dorme no chão, e nele que vão buscar as fontes para seu trabalho. A comparação com os farmacêuticos que vão da mesma forma falar com as mesmas pessoas para descobrir de onde inventar um novo remédio. É dessa gente que os espanta por não terem relógios, carros ou energia elétrica, eles que tanto querem educar, são por essência a maior fonte de humanidade para aqueles cientistas que lá vão pesquisar, mesmo o griot podendo ser um analfabeto, o renomado historiador não começa sem antes conversar com ele.

FIM

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Garoto da Manhã

Pintura de Otto Dix, mais conhecido por suas pinturas referentes a 1ª guerra mundial.

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Garoto da manhã

Porque eu não fazia parte da massa? Porque eu não conhecia nada mas achava que sabia tudo? Porque eu não era como aquelas pessoas burras, que acham que para ser inteligente, deve-se nascer inteligente? Puta merda, acho que nunca vou descobrir.

Eu já havia tentado a minha vida de várias maneiras, como músico por muito tempo. Toquei guitarra, contrabaixo elétrico, violão, teclados e cantei. Cantar foi o mais fácil de todas as coisas que eu fiz numa banda, era só chegar e cantar a musica que você mesmo escreveu, se esquecer a letra ou errar só é preciso manter a rima, são capaz de pensar que é de propósito ainda. Quase fiz um certo sucesso cantando, e olha que eu cantava tão mal quanto o Johnny Rotten.

Agora estava aqui, sentado na varanda de um apartamento, da garota que conheci noite passada. Eu era sustentado pelas mulheres, elas pagavam então não iria negar isso para elas. Não sei se eram meus olhos, minha cara de anjo ou meu corpo nem magro nem gordo, só sei que elas me adoravam. Mas nunca fiquei com nenhuma delas muito mais que um ou dois meses, eu devo ser um tremendo de um chato, ou minha pegada é muito enjoativa, uma péssima mesmo.

A garota se chamava... droga, como era mesmo a porra do nome? Heloísa, eu acho! Uma boa garota, pais ricos, corpo bonito e bem queridinha, tudo isso pelo menos por enquanto. Tinha um corpo escultural, seios na medida certa e uma bunda muito redonda, perfeita para variar posições. Ela me trazia um café agora, e eu nem precisei me levantar da cadeira da varanda da casa dela.

- Bom dia! – Falei com todo ar de alegria possível, ela estava me sustentando, tinha que ser um doce, nada difícil com essa coisa linda que tenho ai.

- Bom dia, dormiu bem? – me perguntou Heloísa alegre.

- Sendo bem sincero Heloísa, contigo foi ainda melhor!

Sempre usando essas bajulações baratas que eu adoro fazer, e elas mais ainda de ouvir. Era ótimo, estava tão bom que hoje eu nem iria trabalhar, eles que me demitissem, estava cansado de trabalhar como caixa do posto perto do shopping da cidade, me pagavam apenas R$456 por mês, isso trabalhando 8 horas. Tem um amigo meu que está ganhando 780 contos por mês, mais 120 reais de vale alimentação, e ainda por cima trabalha 6 horas! Vou falar com ele qualquer hora.

Ela me serviu um café muito bom, café com creme e canela e para comer um mamão com granolas e mel. Essa pelo menos não era louca. Havíamos transado ontem três vezes. Estava muito bem ontem, ainda mais tomando todas aquelas anfetaminas.

Terminei de comer e precisava ir embora:

- Heloísa, preciso ir para casa, tenho que resolver alguns problemas.

- Tu já vai? Não vai nem me dar um tchau de verdade antes?

Essa garota realmente havia gostado de mim, com tanto que sentou no meu colo e me deu aquele beijo. Passei a minha mão pelos seus seios e o corpo inteiro. Entramos de volta para dentro de sua casa e transamos no sofá da sala mais uma vez antes de eu ter que ir embora. E então eu fui.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Esquizofrenia - Uniprevidencia bom dia! (conto curto)

Pintura de Ravi Varma



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Esquizofrenia - Uniprevidencia bom dia!

O telefone toca: Triiinnn! Jorge atende:

- Uniprevidencia bom dia!

- Jorge sou eu, seu melhor amigo, o Bruno!

- O senhor não consta nos nossos cadastros, escolha uma opção no teclado numérico de seu aparelho.

- Jorge, é o Bruno está lembrado, nos conhecemos a mais de 15 anos!

- Esta opção não conta em nosso sistema. O senhor deseja que eu lhe envie uma ficha para cadastro especial pelo correio, você receberá na sua casa, sem nenhum custo adicional.

- Porra Jorge tu ficou louco mesmo, vai toma no cú!

E Bruno desliga o telefone na cara de Jorge.

A enfermeira entra para tratar Jorge, ele mal conseguia se alimentar direito, na verdade se babava todo. Uniprevidencia bom dia! Estava surtando, pirado mesmo, tentava comer tão rápido que metade da comida caia sobre sua cama de hospício.

Entra Fabiola, sua enfermeira com sua refeição matinal:

- Olá Jorge, tudo bem, vamos tomar seu desjejum?

- Uniprevidencia bom dia!

- Hoje ta caprichado, tem café, mamão, suco e aquela geléia que você gosta.

- Aguarde um momentinho por favor...

O silêncio toma conta da sala, ninguém fala nada, muito menos se move. Ficam as moscas.

De repente Jorge tenta atacar a comida encima da bandeja da enfermeira, não vai dar certo. Pula da cama, afastando seus lençóis rapidamente, e Fabiola, como toda boa enfermeira procura se proteger. E Jorge quer cada vez mais a comida que está na bandeja. Isso não vai terminar bem. Ficam por um tempo nessa luta sem saber quem vai vencer. Por fim Fabiola se irrita e desiste in continenti de alimentar Jorge:

- Esse doido que se suje todo! – disse Fabiola que joga a comida toda encima de Jorge.

A cama de Jorge fica cheia de comida, comida por tudo. A geléia, o suco, café, mamão, tudo fica espalhado pela cama. Mesmo assim Jorge tem que comer toda essa comida, e ele a come.

Depois que termina de comer cai em profundo sono.

Jorge estava louco, havia trabalhado demais. Pobre coitado, só queria um insignificante tênis com ar. Uniprevidencia bom dia!

***

Faz algum tempo tentei escrever coisas que tratam da loucura, textos com total ilógica, irracionais, pois falam da loucura, e como "título da série" seriam todos esquizofrenia (alguma coisa).

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A volta

Pintura do Argentino Xul Solar.
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A volta (conto)

Havia acabado de voltar de uma viajem que havia feito. Queria muito dar um tempo na minha vivência naquela cidade, por isso a viajem. Uma cidadezinha no Sul do Brasil, que fazia um calor infernal no verão e frio no inverno, um frio gostoso, para se usar pantufas, comer pinhão e ficar em volta da fogueira. Quando havia voltado minha família fez um jantar para mim. Comi todas aquelas coisas de casa, boa comida. Isso foi à cinco dias atrás, eu acho. Bem, e que importa? O que importa é que como faz algum tempo que eu voltei, todos puderam ir passear e fazer compras, não sei porque resolveram ir fazer compras. Só sei que estava frio. Havia conversado com um amigo, ele disse que era para ir na casa dele, conversarmos. Fui.

Sua casa ficava num bairro tão residencial classe média quanto o de meus pais. Seus pais assim como os meus não estavam em casa, “foram passar o final de semana em Lages”, ele me disse. Perguntou-me como foi ficar um ano fora. Disse que fora legal, conheci algumas pessoas. Ele pergunta se eu transei com alguém. Disse que sim, mas era mentira, quase não sai lá, foi como um retiro espiritual, mas um pouco forçado, barreiras da linguagem. Bem sempre havia sido uma pessoa muito reclusa. Ele disse que chegariam uns amigos seus. Enquanto isso tomamos um gole do vinho que ali tinha, vinho bom, chileno, da adega de seus pais, que por sinal eram mais ricos que os meus. Não demora eles chegam, gente que não conhecia, pessoas comuns sabe? Que usam lã sintética no inverno. Todos se cumprimentam. Vamos para um lugar da casa mais propício para pessoas conversarem. Sentamos numa mesa. Do lado direito senta um cara, de barba negra, do lado esquerdo uma garota, cabelos negros também, pele morena. No começo cada pessoa tinha seu espaço, após o segundo copo de vinho e a sétima piada seguida, todos já se encostavam:

- é verdade que você esteve fora por um tempo? – a garota a minha esquerda me pergunta.

- sim, um ano.

- nossa, e como foi?

Conto para ela todas aquelas coisas de sempre, muito legal, bacana, novas experiências, lá é diferente daqui, e tudo o mais. Não sei se por falha minha ou desinteresse dela, paramos de conversar. As pessoas vão saindo, só ficam o anfitrião, eu e as duas pessoas ao meu lado. Sinto uma mão na minha perna. Discretamente olho para baixo, era uma mão peluda, olho de onde ela vem; do cara do meu lado. Vou para o lado oposto, mais perto da garota, ela sorri de canto. Tomo um gole do vinho e finjo prestar atenção na conversa entre este cara e meu amigo. Sinto o calor vindo das pernas da garota ao meu lado, encho seu copo com vinho e em seguida encho todos os copos da mesa. Não demora eu terminar de encher os copos, o cara põem a mão na minha perna de novo. Dessa vez empurro discretamente com a mão. Bem que me disseram uma vez que gola alta nem sempre fica bem.

Volto a conversar com a garota. Ela era simpática, sorridente. “Estou com frio”, ela diz se encostando em mim. A abraço, e digo que também sinto frio. Acho que isso é a coisa mais legal do inverno, pretexto para as pessoas ficarem se abraçando. Fazia tempo que eu não sentia um corpo quente junto ao meu. Conheci algumas pessoas no exterior, mas como já sabem, não me deitei com ninguém. Nada passou de uns amassos. Queria muito beijar a barriga, a nuca, apertar as coxas, beijar os seios. Ela era de uma delicadeza e beleza ímpar, como toda mulher é. Olhava sempre para a bunda e os seios, um deles sempre deveria me agradar, nela, os dois me agradavam. O rosto, apesar de estar maquilado, e geralmente eu não gostar de mulher usando maquilagem, me agradava também. Deito minha cabeça no seu ombro. Fico assim nem um minuto, e dou um beijo em sua bochecha. Ela sorri, e me beija. Nos beijamos, rápido, haviam pessoas olhando. Todos sabiam o que se passava, mas nunca pode ficar na cara, sabe como é, há uma explicação histórica para isso. É só dar uma olhada, no que foi feito a respeito do sexo na idade média, com essa coisa do cristianismo que está marcada em nossa pele. Não quer dizer que antes faziam mais sexo, só quer dizer que a forma de fazer sexo mudou. Ela sussurra em meu ouvido, “me encontra na cozinha, mas não vai agora”. Sorri, tomei um gole de vinho enquanto via suas nádegas indo embora. E imaginar que reconheceria ela também pelas nádegas... engraçado, mas faz todo o sentido. Tomo o resto do vinho em meu copo. O cara parece que havia desistido de pegar na minha perna. Vi que voltava alguém, esperei esse alguém se sentar. Tomei mais um pouco de vinho. E me levantei. Percebi nessa hora que a tontura do vinho era um pouco maior do que eu imaginava.

Ela estava na cozinha, tomando vinho. Vou direto até ela, e a beijo. Dessa vez um beijo longo, a aperto contra meu corpo. Ela envolve seus braços ao redor do meu pescoço. Sinto meu pinto ficar duro, aos poucos, crescendo dentro da calça jeans apertada, isso machucava um pouco. Ela passa a mão pela marcação que fazia na calça. Acaricia a cabeça. Vamos pelo corredor, descemos para o porão. Lá havia uma saleta, com livros e filmes. Estava tudo escuro, fomos até um canto, num sofá. Deitamos, ela abre meu zíper, levanta a sua blusa, e tira seu sutiã, tiro a minha blusa. Beijo, ela beija, nos beijamos, beijamos muito. Tiro as calças, minha e dela, fico só de cueca, ela só de calcinha. Beijo seu umbigo, e tiro sua calcinha. Passo a mão. Ela ri, baixinho, para ninguém ouvir. Eu rio baixo, mas da situação engraçada. Tiro minha cueca, procuro rápido na minha calça a carteira, acho a carteira, da carteira tiro uma camisinha. Ela põem a camisa de Vênus, senta encima de mim, e se mexe. Cada vez mais concentrada. Envolve minha nuca com seus braços, e vai para frente e para trás, vejo e sinto seus seios pressionando o meu peito, mais forte, menos forte. Sinto seu corpo quente, sua vagina quente. Sinto algo na minha cabeça, uma espécie de calorão, meu corpo prestes a ficar mole, e sai tudo, como um jato, um jorro. Ela para, estávamos começando a ficar suados, na verdade já estávamos um pouco suados. Nos olhamos, sorrimos. Pegamos nossas roupas, nos vestimos e subimos as escadas, de fininho para ninguém ouvir. Ela volta para a sala onde todos estavam novamente, menos nós. Fico na cozinha, tomo água. Sempre dá sede, sempre sinto sede.

Volto, converso mais um pouco. Contamos piadas. Sento do lado dela, nos abraçamos, mas só um pouco, seria só aquela noite. Depois de algum tempo, já era madrugada, queria ir para casa, o sono me vencia. O sono começava a incomodar a todos. Mal nos despedimos, eu e ela. Simplesmente vamos cada um para sua casa.

Em minha casa minha família já havia voltado. Havia feito esta viajem de um ano sob o pretexto de pensar sobre a minha vida, mas agora eu voltei à praticamente uma semana, e estou em dúvida sobre o que eu vou fazer amanhã... Será que eu ligo para ela? Será que eu quero tanto assim ficar com ela de novo? Precisava fazer algo, eu era obrigado.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Entrevista com Antoine Pettit (!)

Pintura de Jackson Pollock.

Esta é uma entrevista com Antoine Pettit que encontrei num blog algum tempo atrás, acredito que ela vale a pena se publicada. Retirado de (http://docedepandora.blogspot.com/2010/06/entrevista-com-antoine-pettit.html)

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MARIE BOURDEAUX: Antoine, em seu último livro você fala de um sujeito que lê escrito num muro a frase de Nietzsche “Deus está morto”, e partindo do choque que ele sofreu ao ler essa frase, ele muda sua forma de pensar e entra em contato com a intelectualidade. Muitas pessoas viram nisso uma apologia ao vandalismo, como se pichar fosse algo bom.

ANTOINE PETTIT: Bem, nunca disse que pichar fosse algo bom, se utilizei a frase de alguém tão famoso como Nietzsche, é porque gosto dele, e como já devem ter percebido, não trabalho com a lógica de bem e mal. Nem por isso acho que pichar um muro seja o fim do mundo, veja bem, fazem alguns meses que alguns manifestantes escreviam algo num túnel de Porto alegre. Como de praxe a polícia veio para intervir. Quando chegaram lá perceberam que o que eles faziam era simplesmente limpar com escovões e vassouras a fuligem grudada na parede do túnel. Agora eu lhe pergunto, qual é o grande vandalismo, pintar uma cidade com fuligem, e vez ou outra passar uma tinta de cal para dizer que está branco e limpo, ou alguém buscando espaço para se expressar. Quais locais públicos você pode se expressar sem se curvar a alguém como a mídia por exemplo, que por sinal é o que estou fazendo agora? Já tive livros censurados! Para mim estas coisas podem ser um tipo maior de vandalismo.

MB: Alguns grupos fizeram duras criticas ao seu livro, pois nele seu personagem esnoba várias vezes as outras pessoas por não lerem.

AP:Não sei até onde você leu meu último livro, mas se você perceber bem, o que tentei passar é que todo esse papo de intelectuais, pode soar fascista muitas vezes, excludente demais. Por exemplo, você como jornalista tem um status muito mais válido para vir me entrevistar, e eu como escritor tenho um status válido para falar, e o mais importante, ser ouvido. Meu personagem se torna um grande idiota quando percebe que “está mais inteligente que os outros”, se é que você consegue me entender. Não quis passar a idéia de que ele se torna alguém melhor ao ler livros. Quis passar um pouco a idéia de que ele se utiliza de alguns livros, conversas e experiências, a pichação por exemplo, para pensar sobre si, que tudo aquilo refletia diretamente nele, e ele estava ligado, independente de sua vontade, com o que o cercava. Nisso ele não deveria ter tido as atitudes estúpidas que teve, mas por um lado precisou delas para perceber que era estúpido.

MB: Muitos grupos religiosos o proibiram de ser lido, o acusando principalmente por querer matar Deus, e por sua literatura ter um cunho ateísta.

AP: Nunca disse que Deus não existe, e acredito que nem Nietzsche. Deveriam ler a segunda parte da famosa frase dele.

MB: Há um desgosto da crítica em relação a sua obra, principalmente nos contos, onde eles sempre “estão mais para contos sexuais...”

AP: “...do que literários”, essa eu ouvi falar. Imaginava que uma hora iriam soltar uma dessas. Bukowski por um lado passou por isso, e muitos contos seus realmente eram para publicações pornô. Eu como, não deveria revelar minhas fontes pois assim perco a aura de criatividade, como grande fã dele, nesse ponto acabo falando de sexo. Bem, não é de forma séria como Freud talvez, mas você chama Freud de pornô? Ninguém o chama assim. O lêem, e o lêem sério, eu mesmo já li e as vezes leio. Acabam não me levando a sério talvez por não usar um linguajar mais rebuscado, ele é simples, escrevo como falo, e falo como eu converso. Se eu e você começássemos a tomar um vinho agora, e conversarmos, e depois de algumas taças falarmos sobre sexo, falaríamos como? Não sei talvez eu tenha um problema sério com sexo, penso muito em sexo, em compensação muitas vezes não dou a mínima para sexo. Além do mais, as pessoas gostam de sexo, querem saber sobre sexo, querem falar sobre sexo, desde o discurso aceito, que passa por Freud e a anatomia, até mesmo pela subliteratura, filmes pornôs. Uma vez houve um ciclo de debates em minha cidadezinha, tiveram algumas conversas, a que mais chamou atenção foi justamente a sobre filmes pornôs, não foi a sobre o corpo na educação, na arte, o corpo disciplinado, queriam ver o corpo pornografado. Ainda estou montando minhas peças a respeito disso tudo também, e talvez por isso mesmo, o sexo ocupe uma grande fração de meus temas.

MB: você falou agora a pouco sobre não revelar suas fontes, antes de citar Bukowski como grande influência, o que você quis dizer com isso e qual o papel de Bukowski na sua escrita?

AP: Bem, depois que você lê Fante, querendo ou não Bukowski deixa de ser tão original, mas ainda assim há nele algo de especial que não há em Fante. Li mais Bukowski do que Fante, e Bukowski parece ser mais rufião, indomável e Fante soa mais desesperador. Você já leu 1933 foi um ano ruim de Fante? Dá vontade de chorar, de correr, de fugir. É melancólico. Bukowski nesse ponto não foge muito, se você já teve seus 17 anos, não tinha emprego, não estudava nada, e leu misto-quente, bem, o livro me ajudou muito. As vezes esquecemos que um artista não brota do nada, não saímos por ai fazendo “arte”. Podemos por acidente fazer algo muito legal, mas para se ter consciência, sentar e fazer algo premeditado, isso necessita uma bagagem, e muitas vezes saber o que vem nessa mala, pode parecer como um esvazio de ar num balão. Bukowski é um grande escritor, mas não me baseio só por ele, há escritores teóricos que nunca me são perguntados a respeito por exemplo.

MB: E quais seriam esses escritores teóricos?

AP: Bem, sou influenciado por tudo ao meu redor, as coisas se colam em mim e formam o meu eu. É assim que formamos nossa identidade. Porque perguntamos que pessoas influenciaram, e nunca o que, ou melhor, que sensações. Nunca conversei com Dostoievski ou James Joyce, mas eles estão ali. Agora porque eles me influenciam mais que Robert Louis Steverson? Acredito que é devido as sensações que eles me passaram, as sensações ao ler o livro, ao terminá-lo. As sensações derivadas do que ficou martelando em minha cabeça, do que eu fiquei pensando depois de ler o livro. Meu último livro tenta falar disso quando o personagem lê a pichação, quando conversa com as pessoas, quando observa o cotidiano, e nisso ele vai chegando a lugares. Baudeleire se utiliza dessas trivialidades para escrever sua obra, porque a passante de seu poema não ficou famosa por o ter influenciado, sem ela ele nunca escreveria aquele poema, assim como sem os livros que lera, e as discussões que tivera. Você já viu irmãos gêmeos? Por mais parecidos, semelhantes, eles nunca são iguais, e não falo só da parte física, ele pensam diferente, agem diferente, cada um deles teve suas sensações, passaram por experiências diferentes. Isso tudo vai nos marcando. Acredito que mesmo se eu nascesse novamente, na mesma família tempo, espaço e tudo igual ao meu primeiro nascimento, eu chegaria a algum lugar diferente, pois em algum momento algo diferente aconteceria, como acontece agora. E mesmo se não ocorresse nada, o tédio me ocorria, e aí já é algo que me ocorreu. Bem, mas você ainda quer saber a respeito de quais são esses autores teóricos. Como sabe passei pela universidade, pretendi durante um tempo seguir carreira, mas acabei desistindo por vários motivos, entre eles o fato de ter conseguido caminhos mais interessantes. Talvez pela minha fala, você identifique certos autores, desde os literários que já citei e os teóricos. Estudei durante um tempo o idioma do alemão, do qual não domino muito bem, mas o que importa é que estudei este idioma tão difícil e nada bonito como o português ou o francês, devido a minha fixação pela filosofia alemã. Principalmente Heidegger e Nietzsche. Também há algo interessante em Kant, mas ele é mais monótono, mesmo assim gosto dele. E não pense que por isso sou um grande conhecedor desses pensadores. Há um pensador francês que se utiliza em alguma medida desses três autores que citei. Não que ele seja um discípulo deles, mas ele se investiga sobre a esteira deixada por eles, que no caso seria Michel Foucault, este para mim é um dos maiores pensadores, por vários motivos, mas nem por isso tiro o mérito dos outros, e também procuro tomar certo cuidado com essa minha fixação. Em certa medida outro alemão, Marx, mas não tanto quanto se gostaria. Não me vejo como um Marxista ou Marxiano, me vejo bem longe disso. Poderia citar uma infinidade, como Roger Chartier, as leituras de Chartier foram importantes para mim, percebe-se algo dele toda vez que falo sobre livros. Me utilizo muito da história para escrever minhas obras, e nisso as reflexões abertas pela escola de annales são fundamentais. Mas não só de livros, a minha concepção estética e visual é muito influenciada pela Bauhaus, o diretor polonês Kieslowski também consegue me desafiar... vários autores, poderia citar um infinidade, mas talvez por esses me virem a mente imediatamente, sejam os mais marcados em mim.

MB: algumas pessoas lhe vêm como um cronista, outros como um contista, pois consideram seus romances insuficientes, outros já um romancista, alguns conhecem seus poucos poemas e dizem que você é um poeta nato, outros dizem que você simplesmente não é intelectual algum. Como você se define?

AP: Como um escritor. Eu simplesmente escrevo, não é o fato de eu saber que aquilo é um conto ou um romance ou crônica ou prosa, não vou sentar e pensar “quero escrever uma prosa”, e ai então escreverei uma prosa. Sento e escrevo, apenas isso. E quanto a imagem do intelectual, como um grande conhecedor, não me agrada muito, geralmente converso com pessoas sem diploma e tenho conversas maravilhosas, outras vezes o sujeito é professor universitário e fala besteiras terríveis!

MB: Durante seu tempo na universidade, como foi para você esta experiência?

AP: Há algo que eu não suporto em instituições de ensino, o problema do comte-údo, de Auguste Comte mesmo. Você ter que ser obrigado a estudar algo. Já é terrível cobrarem nota, depois diploma e todo esse ciclo sem fim. Me incomoda esse problema, sempre. Não por acaso que chegamos em dado momento de nossa vida, e não sabemos o que pensar, o que fazer, de tanto tempo acostumados a ouvir alguém falar para nós o que devemos fazer, ficamos desorientados ao não ouvirmos ordens. Isso é de uma violência tremenda, por isso acredito que vivemos em tempo de apatia e não de paz.

MB: Você é a favor da guerra?

AP: Sou contra a violência, sou um sujeito muito pacífico. Esquecemos que vivemos em um tempo seguro como nunca, e mesmo assim achamos que está tudo violentíssimo. Por exemplo, ao assistirmos um dos vídeos de Hitler ou Mussolini discursando, ficamos assustados, igual como quando eu era pequeno e ficava com os do Enéias. O que esquecemos é que na época de Hitler, seu discurso convencia a todos, fazia a platéia se emocionar. Era uma boa oratória na época, hoje se eu aumentar o tom de voz, já me chamam de violento. Mas não nos preocupamos com as prisões que cometem a violência de isolar as pessoas, as deixar a pão e água, as escolas que obrigam a uma criança que nada pode fazer contra, a ficar parada, e não se mexer, a obedecer. Não nos preocupamos com pessoas uniformizadas e armadas e treinadas para matar e machucar, a polícia ou exército, ou os seguranças em algum lugar. As câmeras nos filmando o tempo todo. A poluição que soltamos na terra, que é muita. Isso tudo é de uma violência incrível. Poderia citar mais outros tantos exemplos, tudo isso é aceito, e talvez por isso sejam coisas tão violentas. A maior violência dessas coisas é o fato de elas serem aceitas, e pedidas. Acho incrível como se investe em prisões mesmo sabendo que elas não surtem o efeito discursado como desejado. Neste ponto deveriam aprender com o empresariado, se você investe num setor que não lhe dá algo que você quer, você para de investir nele não é mesmo? Ou será que eles sabem muito bem como a prisão funciona e a mantém, justamente porque querem ela exatamente como ela é, eles têm assim um ambiente cheio de “argumentos” para justificar a presença daqueles homens armados entre nós? A guerra é a política por outros meios, ou a política é a guerra por outros meios... isso me parece tão complexo quanto a questão do sexo.

MB: E como é o seu lado político?

AP: Basicamente falei do meu lado político até agora.

MB: Algumas vezes grupos feministas o acusam como um machista e sabe-se que o público feminino não é grande fã seu, mas como você se define?

AP: Nunca quis ser machista. Porém há um problema que me incomoda muito, fui criado num mundo machista e para ser machista. Por mais que eu tente há marcas no me corpo que indicam isso, e vez por outra elas podem se refletir em algum lugar. Porém também não podemos forçar nossa vista para utilizar alguns óculos, os livros são isso. Talvez pessoas não gostam do que eu escrevo, mas forçam em me ler por algum motivo, e ficam bravas e interpretam da forma que eu não gostaria. Por enquanto não é um grande problema, ninguém me bateu na rua por exemplo. Também prefiro que entendam como quiser o que eu escrevo, não esquecendo que essa é sua interpretação e que quero dizer algo. As vezes também não quero dizer nada, só quero fazer uma história legal o suficiente para ser lida. Não concordo com a idéia das coisas terem sentido o tempo todo. Quanto ao público feminino, não sei porque não me lêem, talvez pelo fato de vivermos numa sociedade tal que divide as coisas entre as de menino e as de menina. Não nego diferenças entre os dois sexos, mas até onde isso não é construído? Porque também quando uma autora é famosa por seu público feminino este tipo de pergunta não surge? Fico abismado com o movimento histórico que ocorreu devido principalmente as duas grandes guerras. Como se sabe os maridos iam para o front enquanto as mulheres e crianças ficaram. Como a maior parte dos homens estava se arrebentando e morrendo nos campos de batalha, alguém tinha que produzir as munições, comidas, roupas, já que não paramos de consumir estas coisas devido a uma guerra. Nisso as mulheres puderam ocupar massiçamente o mercado de trabalho. Seu numero só foi aumentando, descobriram até mesmo vantagens em se ter mulheres trabalhando, além do fato de aceitarem trabalhar por menos. Okay, acho muito legal tudo isso, hoje é normal mulheres saberem ler e escrever, até mesmo podem fazer faculdade. Mas ainda devem cuidar da casa, ter filho, casar... e todas essas coisas ditas “de mulher”. Pouco se fala desse tipo de machismo.

Charles Stehl: Nós só queremos agradecer o tempo cedido, e lhe dizer que foi uma ótima entrevista.

AP: Vão me mandar uma cópia depois? Quero ver o que vão fazer com o que vou falar.

CS: Sim enviaremos, e não se preocupe, será publicado a entrevista integral.

AP: Até mesmo agora que estamos conversando?

MB: Se você quiser sim.

AP: Quero!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Copa do Mundo (não é sobre futebol)

Algumas idéias para se fazer durante os jogos do Brasil na Copa caso você não goste de futebol, hahaha. Apenas uma idéia que ficava em minha cabeça, que para deixar de me atormentar, precisei escrever. Agora aqui deixo para a posteridade. E também um bom motivo para publicar esta foto linda da Marilyn Monroe, que tem um karma de charme inegável.
***

Copa do mundo

Me ligaram e deram o sinal verde, “as quatro da tarde, entendeu?”, queriam ele morto as quatro. Ligaram cedo, acordei com o barulho do telefone. Queria dormir, mas não conseguia, toda vez que tinha que matar alguém minha cabeça ficava terrível, mas fazer o que, era só isso que eu sabia fazer. Nem sei quem me ligou, mas eles e eu sabemos como funciona. Eles depositam a grana na minha conta, eu mato o sujeito, e fica tudo bem. Se eu não fizer o serviço, eles mandam outro igual a mim ou pior, para fazer comigo o que eu não quis fazer com outro, lei da selva. Comi uma comida sem gosto no almoço. Arroz com caldo, não sei cozinhar muito bem mesmo. O arroz parecia purê de batata, mas o gosto era de arroz. Dava para sentir a meleca grudar no céu da boca, mas o gosto ainda era de arroz, arroz molhado, grudento, mas arroz.

Escolho a minha arma, pego uma beretta, ela daria conta do serviço. Uma faca, sempre é bom ter uma faca, nunca se sabe quando vai precisar dela, é como no filme do Rambo, de repente a faca aparece e corta a cabeça de alguém. Odeio o Rambo, não é daquele jeito que se briga. Não é o meu jeito pelo menos. Pego a beretta e coloco atrás na calça e a cubro com o casaco. A faca vai na cintura mesmo, a calça esconde a ponta e o casaco o cabo dela, assim eu sei onde ela está, meus inimigos não. Dou um teco antes de sair, para ficar alerta, não posso ser pego desprevenido, ainda não.

A grana nem era tão alta assim, não é pouca, mas não é muita, não gosto disso, as vezes penso que a vida de um homem deveria valer mais. O morro aqui é pobre, já foi pior, antes nem geladeira ou fogão a gás o pessoal tinha, lembro quando eu era criança, lembro da polícia, que só aparecia para incomodar, ou quando ninguém precisava mais dela. Lembro da vez que o prefeito subiu o morro para se reeleger, e conseguiu. Depois esqueceu da gente de novo. Foi indo aos poucos, agora todo mundo tem televisão, fogão a gás, geladeira, som. Eu também, não tinha nada antes, agora tenho minhas coisas, meu canto, pena que não sei cozinhar.

Depois do almoço fica todo mundo tranquilo, acho melhor para dirigir a minha moto. Terminei de pagar ela mês passado. Vejo os moleques jogando bola no campo de terra, eu joguei naquele campo de terra, agora estou aqui passando com a minha moto. Paro no primeiro caixa eletrônico que eu acho, verifico se recebi. A grana está lá, sempre é bom dar uma verificada, pois se queimar por nada, não vale a pena. Tinha a conta no banco e ainda pagava aposentadoria como autônomo, vez ou outra arranjava um emprego de carteira assinada, mas geralmente é isto mesmo o que eu faço, matar pessoas.

O sujeito morava num desses prédios legais, era mais bonito que a minha casa. Acho legal esses prédios com poucos andares, chato é que eles nunca têm elevador, daí tenho que subir de escada, e geralmente as encomendas moram no último andar, nunca no primeiro, e este não era exceção. Tinha uma bandeira do Brasil enorme numa das janelas do último andar, pelo numero do apartamento, deve ser o dele. O prédio todo tinha bandeiras, mas aquela se destacava, cobria a janela do sujeito. Ainda faltava tempo. Não ia entrar agora, pediram para as 16 horas porque tinha jogo do Brasil, copa do mundo. Eu prefiro assim, melhor perder o jogo que o couro. Era a semi final. Todo mundo ia para casa assistir o jogo, até quem não gosta de futebol. Olho a estrutura do prédio, por onde eu poderia fugir, caso preciso. Nunca precisei na verdade. O lugar tinha boas ruas, dava para ir embora por todos os lados, isso sempre era bom.

As ruas já estavam vazias, o jogo já tinha começado. Dava para ouvir os televisores sincronizados, emitindo o mesmo som. Subo, degrau por degrau, até o último andar. Vou até a porta com o numero que me passaram, pego a beretta e bato na porta para ele abrir para mim. O hino já tinha acabado e a bola estava rolando. Ele abre, pergunta quem é, não respondo, empurro a porta na cara dele e dou uma coronhada no ombro. Fecho a porta rápido enquanto ele está caído no chão. O mando ficar quieto. Me falaram que ele era solteiro, mas poderia ter alguém na casa. Olho rápido por todos os cômodos, e não vejo ninguém. Ele já se levantava, o empurro para o sofá, para assistir o jogo, o mando ficar calado. Pego uma fralda e amarro sua boca, para que ele não pudesse fazer som algum. O coloco sentado para ver o jogo, mantenho a arma apontada para ele. Pego uma cadeira da sala e me sento do lado do televisor, com a arma apontada para ele. O suor escorria de sua cabeça, saia catarro de seu nariz, e sangue, mas só um pouco. Ele estava agonizado, gemendo e babando toda a fralda, tentando falar algo. Olho para ele e pergunto se está torcendo pelo Brasil. Ele faz que sim com a cabeça. Olho para aquela bandeira enorme que ele tinha na janela, era do apartamento dele mesmo. “Vou atirar em você no primeiro gol que o Brasil marcar”, ele entende no ato. Com toda a barulheira que acontece quando o Brasil faz gol, ninguém perceberia que ele levou um tiro, soltam foguetes e mais foguetes. Meu tiro seria só mais um barulho.

O Brasil jogava forte, mas a outra seleção não era brincadeira, estavam dando trabalho, vários chutes a gol dos dois lados, mas chutes imprecisos, difíceis. Mesmo assim, estava nítido que sairia gol em algum momento. O primeiro tempo já estava acabando, ele estava encharcado: suor, catarro e a saliva que deixava a fralda molhada. O sangue tinha para de escorrer já. O primeiro tempo acaba, olho para ele e disse que isso não mudava as coisas, era só mais sofrimento para ele, “é melhor torcer pro Brasil”.

O segundo tempo começa, o Brasil entra com tudo. O narrador estava animado, conforme o narrador ficava animado, ele ficava cada vez mais angustiado. Deve ser terrível mesmo. O narrador berrava a plenos pulmões, como se isso muda-se algo. O jogador entra na grande área, toca para o colega a esquerda, manda para o que estava livre no meio ele chuta e a bola entra no gol. O narrador se desespera em alegria, os jogadores correm para todos os lados, pegam a bola, correm para a câmera para comemorar o gol, é uma festa. A encomenda começa a chorar, lágrimas não param de escorrer de seus olhos, peço desculpas, sei que isso não adianta, ele preferia que eu o enchesse de porrada, podia até mesmo o queimar com ferro quente, não adiantava pedir desculpas para o que eu ia fazer. Ponho a beretta na cabeça dele, na boca. Seu corpo tremia, eu esperava apenas o primeiro foguete. Por completa sorte minha e azar dele, seu vizinho do lado solta um foguete, eu sorrio ele chora mais ainda. Atiro. O sangue jorra na parede, espero o próximo foguete, atiro de novo, e mais um na barriga. Algumas pessoas balançavam a bandeira do Brasil na janela, outras assopravam as trombetas. Tão logo tudo parou, vejo o replay na tela. Foi um gol bonito, jogada ensaiada, acho jogadas ensaiadas bonitas. Abro a porta, no corredor tem uma menininha, de menos de 8 anos, toda vestida a caráter de seleção. Ela me olha séria, percebe o cabo da minha faca, que ficou a mostra por causa da ação. Fica séria, mando um beijo para ela, um beijo deixado no ar, ela sorri e volta correndo para o seu apartamento.

Desço as escadas, pego minha moto e volto para casa. As ruas estavam vazias, passo na frente do posto policial e todos estavam do olho no jogo. O Brasil ganha e todo mundo fica feliz, quase todo mundo. Termino de ver o jogo em casa, ganhamos por 1x0, mas ganhamos, estávamos na final.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O Escritor

Imagem de Lucian Freud.

Bem, este como vários outros escritos têm o triste fato de acabarem sem chegar a lugar algum. Isso tira a grande graça de minhas histórias. Porém, quem disse que precisa ter sentido constante? E aquela velha questão de que tudo pode acabar do nada... mas ainda assim, essa falta de conclusão é um problema.
*****

O Escritor

Ele batia seus dedos na tecla. Fazia um esforço mínimo, desde a escola que não escrevia alguma estória, era o último ano na faculdade. Fazia três anos que só lia teorias. Ainda não sabia o porque escrevia aquilo.

Desprezava muito os textos literários, os considerava vazios, burros e se deveria ler muito para aprender pouco! Mesmo assim, sem mal entender, escreveu cinco páginas de um conto. Assim que terminou o leu, achou bom. Pegou o papel e foi mostrar para um amigo, na verdade conhecido se, que trabalhava como operador de digitalização na editora local, que era ali próxima:

- Então, você acha que daria para publicar? – pergunta ao cara da editora.

- Olha é bom, mas não tudo aquilo, mas é bom.

Um silêncio chocante fica entre os dois.

- Tem um sujeito – o operador rompe o silêncio – Rico até, que está montando um livro de contos...

- Quer novos talentos ou se auto promover?

- Sinceramente eu não sei, mas ele pode talvez te ajudar, muito mais do que eu – e levanta as mãos até a altura dos ombros indicando que está de mãos atadas.

Sem mais uma palavra pega seu escrito e volta para casa.

Passa uma semana, e ele volta a ler o que escreveu, parecia melhor ainda. Sentiu-se poderoso, um gênio. Pega seu telefone e liga para aquele conhecido da editora:

- Alô? – atende o operador.

- Oi, sou eu... lembra que um dia desses passei ai com um escrito meu e você havia falado sobre um homem rico que estava montando um livro...

- Você – interrompeu o operador- quer algum contato com ele, é isso?

- perfeitamente.

E o operador lhe passa o endereço “ele estará em casa, pegou férias para se dedicar ao livro”, disse a ele Desligou o telefone e foi para a cama. Rolou de um lado para o outro e não conseguia dormir. Levantou-se, foi a cozinha e tomou um copo d’água. Voltou ao quarto, sentou-se na sua escrivaninha e começou uma nova história. Esta lhe parecia tão boa quanto a outra. Acabou indo dormir tarde.

Para a sua sorte era sábado e podia acordar mais tarde, sorte sua na verdade que não trabalhava no sábado. Comeu uma maçã apresado, e foi até a casa daquele homem. A casa era num bairro nobre da cidade, próximo ao centro, todas as ruas asfaltadas, seguro e até a coleta seletiva da cidade passava lá. A casa do sujeitoque queria editar o livro fazia jus ao bairro. Percebia-se que era um pouco antiga (uns 20 anos no máximo) mas tudo do maior bom gosto e qualidade, o que faz parecer sempre “atual”.

Toca a campainha, dois cães da raça mastim napolitano vem o receber a latidos, debaixo de um flamboyant estava o dono de tudo. Descalço, com uma bermuda, camiseta de botão e um livro fino na mão, ele o recepciona:

- Pode entrar, eles são grandes mas bem mansos – dizia enquanto com uma mão o cumprimentava e a outra fazia carinho nos cachorros – aposto que viesse aqui para falar comigo sobre o livro, estou certo?

- Sim, isso mesmo.

- te disseram que era só vir, pois eu estaria de férias para me dedicar ao livro?

- Isso mesmo, exatamente.

O dono da casa faz um gesto com a mão o chamando para dentro da casa.

- Você já tomou um café da manhã hoje? – pergunta o anfitrião.

- Sim... um pouco, uma maçã.

- venha – e repetiu o gesto com a mão.

Ele tinha uma sala que fazia jus a casa também. Os dois se sentaram, frente a frente, cada qual em uma poltrona, separados por uma mesa de centro:

- Bem garoto, você veio até mim. Aposto que o Sasha – o operador, um dos poucos descendentes de ucranianos da cidade- me indicou para lhe ajudar com algum texto. Ele te contou do meu projeto, o meu livro?

- Sim, um livro de contos não é mesmo?

- É, você tem o texto em mãos para que eu possa ler?

Ele entrega as duas cópias, “este eu escrevi noite passada” disse apontando para o tal. O homem rico lê apenas a primeira página de cada, os coloca de lado e fala:

- A vida toda eu quis agradar meus pais, por isso assumi a empresa de meu pai, como desejavam. Ao assumir a empresa quis agradar a sociedade, tive uma grande paixão com uma ex-colega de faculdade, mas me casei com uma mulher mais rica que eu, como toda a sociedade e principalmente meus pais queriam. Faz cinco anos que eu me cansei dela e ela mais ainda de mim, moramos em casas separadas. Tive um filho, ele ganha a vida como músico na Grécia. Fiz tudo como queriam. Faz cinco anos que passo meu tempo livre só, isso me fez com que pudesse pensar e ler o suficiente para perceber a porcaria que era a minha vida. Mudei muito nesses cinco anos. Comecei a viver da forma mais simples que eu conseguia. Faz um mês que dei minha empresa a meu sobrinho, em troca pedi apenas uma porcentagem dos lucros, assim posso ter muito tempo livre. Como vê, eu não possuo televisão, na verdade há uma, mas apenas para ver filmes. Passo meus dias me dedicando a mim, cuidar de si, entende?

Guardei um dinheiro no passado, com ele poderei lançar o livro. A minha idéia era pegar vários textos de vários escritores, e publicar. Lógico alguns serão meus.

Subitamente a conversa ficou no ar. Ele só pensava se aquele homem rico falava a verdade, era metido a artista ou passava por uma crise. Os dois se encaravam, o dono da casa parecia feliz:

- E algum dos meus contos vale a pena? – ele perguntara sem medo.

- Bem, eles são bons. Mas eu não gostei do jeito que você escreve... Mas, veja bem! Se Sasha te enviou até mim é porque não é ruim. Pois eu pedi para ele só me enviar quem era bom.

O homem rico deu um sorriso berrando à compaixão, e colocou a mão no ombro dele:

- Garoto, vou ser sincero. Não publico seus escritos unicamente porque estou montando este livro para mim, talvez numa próxima, tudo bem?

Sem dizer uma palavra, ele se levanta do sofá. Cumprimentam-se em sinal de Adeus. O anfitrião o leva até o portão, ele sai um pouco depois de ouvir o portão fechar ouve:

- Qualquer coisa sabe onde me encontrar!

Levanta a mão esquerda e faz um aceno.

Todo aquele papo o havia deixado com sono, iria para casa dormir, perecia o melhor negócio para se fazer naquele momento.