quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Nada


          Se esforçava e nada. Tentava pensar em milhares de coisas, mas nada. Lhe disseram certa vez que o nada era edificante, pois traz a necessidade de gerar algo. Mas neste caso o que era gerado era um grande nada. O céu nublado, a temperatura amena e sua completa falta de noção do tempo. Sem saber porque, deixando manifestar sua vontade por mexer-se, ele saiu de casa, ouvindo sua música nos fones, parecendo que ele estava numa cápsula. Caminhou até o ponto de ônibus, que logo veio. O percurso de sua casa até o ponto era algo grotesco. Vivia numa clara região de classe-média, boa parte das casas possuíam piscina, todos seus vizinhos sabiam dirigir e tinham carro, graduados na universidade da região. Em questão de cinco minutos estava num loteamento irregular, casas sem reboco, ruas de terra, mais motos do que carros nas garagens, sempre havia um número considerável de crianças, e pelo que já havia percebido, alguns poucos galgavam degraus no ensino superior e isto era novidade. Sabia que aquele moleque que sempre estava em algum lado do ponto de ônibus vendia drogas, mas não esquecia que a maior parte da população dali era trabalhador. Segurança, lojista, linha de produção, motorista, cobrador de ônibus...

           O bonde passava pela via expressa. Não havia muita coisa ali, algo do gênero: “fui passear na via expressa, mas lá não havia nada para ver”. Apenas carros, casas ao fundo, e agora surgiam galpões enormes para comportar supermercados, shoppings e essas coisas, o que iria cobrir ainda mais as casinhas e a floresta que se via ao fundo. Não simpatizava muito com isso, mas admitia que era rápido, logo estava no centro da cidade. Pela energia e movimentação das pessoas dava para saber que era dia de semana. Preferia observar pessoas em dias de semana, parecia mais sincero. Desceu próximo a uma travessa (uma ruela). Alguns prédios antigos haviam sobrevivido, o que era muito bonito, dava um ar bacana pra cidade. Às vezes olhava dentro desses prédios e podia ver a escada de madeira, hoje isso não existe mais, não as escadas, mas a madeira.

           Sempre desviava das pessoas. Sempre há aquelas pessoas petulantes que não desviam. Quando avistava uma dessas, tentava não desviar, elas teriam que, pelo menos naquele momento, exercer um pouco de modéstia e desviar, e ao final, no último instante, ele sempre desviava não havia como. O curioso da rua são seus personagens de sempre: “oh tio, me vê uma moeda pra comprar um pastel”, “Ooooolha a trimania, trimania, trimania”. Dentre estes havia um sujeito que parecia ter parado na década de 1970. Pouco importava o clima, ele quase sempre estava de calça de veludo boca de sino, uma lã amarela manga de gola alta, corrente de ouro (provavelmente imitação) no pescoço, cabelo delicadamente penteado para traz, deixando aparecer suas costeletas e o detalhe mais importante, o cigarro que ia fumando conforme caminhava mexendo as pernas feito tesouras, ritmando o barulho de seu sapato batendo na calçada. 

           Curioso que num dado momento em que uma música do pink floyd começava em seus fones (pensou primeiro que havia acabado a bateria, mas verificou no visor, estava tudo bem, era só uma música do pink floyd começando), escutou o bater de louças que vinha do café. Haviam poucos cafés no centro, e a maioria era ruim. Como aquele não era, decidiu entrar e beber uma única xícara de café. Prostrou-se na entrada, parou e checou as moedas que tilintavam no bolso junto com elas havia uma nota, puxou, era de cinco reais. Ficou tranquilo, pois possuía dinheiro suficiente para o café. O pediu e esperou sentado perto da janela. Desligou a música e pescou os fragmentos que podia. O que mais escutava eram migalhas de conversas, gente apressada falando no celular, mulheres conversando, apenas uma ou duas frases, por vezes até fragmentos de frases. A louça tilintava no café, a água quente parecia querer esquentar todo o ambiente. Admirava-se de que as pessoas não tinham o carinho de olhar ao seu redor. “Quantas coisas elas perdem, e quantas eu perco?”, pensou ele. De súbito o tempo voltou a sua consciência, sabia que dia era, até as horas se tornavam claras. Ainda era pela manhã e lembrava que acordou devido a um caminhão que veio fazer entrega na casa de seu vizinho, e isso atiçou os cachorros que latiram e ele acordou. Não entendia porque estava no centro, tão longo caminho desde sua casa, especialmente de ônibus. Bem ali estava, sentado num café, flanando com saudades de tempos passados, o que era péssimo. E o nada que tanto lhe possuía, parecia ter edificado pouca coisa em sua vida, mas isso são coisas que se percebe depois de muito tempo. 

sábado, 20 de outubro de 2012

contradição, hibridismo e outras coisas breves



O ser humano é híbrido. Não há em um primeiro momento nenhuma novidade nisto. Este hibridismo faz com que o sujeito moderno seja também contraditório, a contradição é uma constante, quase um direito nosso. O sujeito puro é uma busca sem fim, um mito. A impureza – mescla – talvez seja o elemento mais original da humanidade.

Neste sentido se faz necessário olhar para a constituição das cidades – moradas, Heimat – como fruto do homem, e assim sendo tal organicidade como algo que não deve ser combatido, riscado pela régua urbanística de herança cartesiana. A geometria da natureza é diferente da de Mondrian, os riscos se cruzam na mais perfeita desordem. Por vezes o homem acaba caindo na piada do personagem que cheira cocaína no mato e começa a organizar as folhas caídas no chão as separando por cores.

Dai que há uma forma muito mais plural, e possível de relacionar-se, muito mais rizomática. Se espalhando, conectando os pontos separados. Precisamos tanto do caos quanto da ordem, produzimos e consumimos ambos. Somos fruto desta contradição, nós sujeitos modernos.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Estética da vida (?)







Algumas preocupações minhas são constantes. Desde que tomei um contato mínimo sobre o que seria a biopolítica, comecei a me interessar pela palavra vida. Dei um novo significado para além do papo usual de autoajuda. Também é válido colocar que é um celebrar da vida diferente do que há estampado muitas vezes em propagandas de casas noturnas, onde palavras como vida e liberdade são usadas. Durante um tempo o grande motor da semana era toda preparação e expectativa para as festas. Logo elas começaram a se esvaziar, deixaram de ser o grande lugar de experiência estética.
Olhar a grama do quintal crescer cansa depois de um tempo. As metas do trabalho logo se mostram repetitivas e mais cansativas que a grama do quintal crescendo. Assim sendo, cair na típica reflexão do “sentido da vida”, é um dos lugares comuns que nós modernos temos. Todo um existencialismo1 e reflexão parecem importantes, filmes onde a morte é a temática chave, o Nietzsche que você pode comprar em qualquer banquinha, Albert Camus, pós-punk, jazz e músicas de Bach ajudam a superar momentos de crise. E a crise leva a transformação.
Ao pensarmos no sentido da vida, normalmente elencamos as coisas mais banais possíveis: café, beber, sexo, comer, ler e tantas coisas quanto nossa procrastinação permitir. Entretanto não é o café que dá sabor a minha vida, mesmo mexendo com meu estômago e corpo, muitas vezes ele é cansativo, dá dor de cabeça e mal estar. E todas estas coisas ditas acima podem cair no mesmo círculo vicioso que o café (ou chimarrão) me proporcionam. Logo se descobre que não são coisas que dão o sabor desejado, mas as experiências, as sensações. Poder experienciar o corpo, sentir que ele está vivo. Isso acaba sendo o que importa, não são o sexo, o café ou ver a grama crescer, mas se estes elementos me levam a experienciar e aproveitar sensações, então sim, utilizarei eles.
O que ocorre é que nossa crise gira em torno da vida, desejamos viver. Com o desenvolvimento da medicina resolvemos uma série de problemas biológicos. Após a segunda guerra o mundo alcançou uma grande paz, apesar de muita coisa ainda rolar por aí, a ameaça das hordas famintas que eram uma constante durante a Idade Média ou dos bombardeios terríveis que atingiram boa parte da Europa, já não existem mais. São poucas situações em que nossa vida é posta a prova, apesar de ainda existir riscos. Imagino que durante tais períodos medievais era necessário afirmar sua vida constantemente, já que o risco de morrer (peste, guerra, hordas, brigas...) era muito mais intenso. A violência estava ali como uma prova de sua vontade por viver. Perguntar sobre o sentido de sua vida quando ela está sob constante provação é no mínimo cômico. E aqui é bom advertir dos riscos pela saudade do passado, pelo esforço de retornar a tempos supostamente mais áureos.
Dai uma repetição e insistência minha em analisar nossa maneira de viver, e provocações por uma estética2 da vida (ou da existência). Por isso um desejo por re-cidade, mas não refazê-la, muito mais dominá-la com vida feito o capim crescendo nas frestas da estrutura, nos espaços livres entre os blocos do paralelepípedo. Fazer dos lugares em que vivemos algo mais do que aço e concreto. Talvez algo demasiado egoísta, por não prezar muito mais do que o prazer sensorial de minha pele arrepiada e meu estômago nervoso, mas em grande medida a opressão sobre mim não é o prato de comida que me falta na mesa, mas sim uma falta de sabor no viver. Meu corpo ninguém me tira, por mais que usem e marquem esta carne, ainda não podem me privar do corpo, por isso eu uso, abuso e experiencio o quanto for possível. É o grito que não posso dar enquanto sento no escritório.
Talvez isso ajude a pensar e entender a afirmação de que meu corpo é meu templo, e talvez apagar uma série de moralismos muito mais ligados a nossa história recente que qualquer outra coisa. Também acredito que ajuda a entender que queremos e precisamos de algo mais do que: casa, comida, aquecimento, água... Apaixonar-se, ter amigos, ir em festas e a arte estão ai indicando que nos importa mais do que não passar fome. E esta coisa é invisível, e o elo mais próximo acaba sendo a pele. E é ali que eu me arrepio, é nesta superfície que posso encontrar o mais profundo.
 
1Coloco isto na expectativa de buscar um sentido mais coloquial do termo, podendo ser possível traduzir como um perguntar-se de sua existẽncia.
2Estética aqui é algo mais do que a usual “beleza”, mas está intimamente ligado ao belo, que é mais do que imagem.

 

sexta-feira, 13 de abril de 2012

As coxas



A casa tinha um pequeno efeito labiríntico, parecendo que era o contorno de algo que estava do outro lado das paredes. Três garotas moravam ali, conhecia de vista uma delas, a outra um pouco melhor, sabendo até mesmo o nome. Enquanto a terceira, ele não tinha ideia de quem era. Até porque ela estava em seu quarto junto com seu namorado. Tornando exígua a possibilidade de efetuar tal empreitada. Ele não lembrava como ou porque estava ali dentro do apartamento das duas garotas. Num esforço em entender tal situação, ele só lembrava das duas o conduzindo ao apartamento. O conduziram da melhor maneira que fazem as mulheres, com sorrisos e toques. Ambas revelavam certo desejo ou volúpia, e Roberto sempre soube apreciar mulheres de fibra, que sabiam pegar num homem, que não eram delicadas feito damas e tão pouco tinham sonhos de princesa. “Mulheres que usam calça”, como dissera certa vez para um amigo, explicando que se encantava por quase toda mulher que fosse o oposto da feminina, que por sua vez trajaria saia e salto alto, “Quero calça e tênis”, disse para encerrar.
Andavam todos pela casa feito baratas. A cozinha era como que local de passagem, repartindo os dois quartos e a sala e o outro quarto. Em resumo era um longo corredor em formato de “L” dividido com cômodos. Como toda visita que chega a uma casa pela primeira vez e não tem a devida intimidade, revezava-se em seguir as duas garotas que o haviam arrastado para o apartamento. E elas pareciam se divertir muito com isto tudo, dando risadinhas e sorrisos enquanto chamavam a terceira garota, perguntando por algo, ligando e desligando a tevê, ou abrindo janelas. Do orifício na parede que ficava próximo a sala vinha a brisa do mar, que não estava tão longe. Num destes corres-corres sem sentido pela casa, ele foi em busca da que ele melhor conhecia. Saiu da cozinha onde bebia água da pia, passou pela sala ignorando e sendo ignorado pela segunda garota e foi até o quarto da que ele sabia o nome. No quarto ela trajava apenas calcinha e uma camiseta regata, e parecia que assim pretendia ficar. Junto com ele viera a segunda garota, ambas conversavam freneticamente sobre alguma coisa para o cabelo e garrafas de vinho. Roberto tentava disfarçar, mas não deixava de medir o corpo dela com os olhos. Sempre odiara machistas. Não queria ser um desses homens que acreditam que mulher pelada quer sexo, e se quer sexo é puta, e se é puta deve apanhar, ser maltratada. Nunca gostara deste pensamento, preferia ver as mulheres de fibra, e que sim, da mesma forma que homens, gostavam de sexo, se masturbavam e ficavam bêbadas.
Seus olhos não deixavam de seguir a circunferência das coxas, queria pegar aquelas coxas com as mãos e apertar, ver se eram assim tão caprichosas. Vendo ele sabia que suas mãos não bastavam, sem contudo serem as coxas grandes demais beirando ao hecatombe. Eram, como preferia colocar, fartas, prazerosas. Exagero talvez, mas estava longe de ser algo feio ou que beirasse ao desperdício de carne. A vontade era apertar aquela coxa até escorrer por entre os dedos, acariciar aquela pele que parecia tão macia. Pressionar as nádegas contra a bacia enquanto apalpava aquelas pernas e o resto do corpo. O fato dela estar de calcinha e camiseta o desconcertava, mas não pelo fato de ela estar sem as calças, mas sim pelo fato de que ele não conseguia ver uma mulher seminua. Por mais que buscasse entender ou se justificar, não estava preparado para ver tamanhas coxas desnudas.
As duas tagarelavam, e Roberto olhava as coxas atônito. As duas percebiam e riam, não buscavam esconder seu riso. E ela sua coxa. Foram feitos baratas para o sofá. A garota que ele sabia o nome levantou-se depois de um tempo sentada e foi para a cozinha anunciando que ia pegar o vinho. Roberto e a outra garota se entreolharam, riram feito crianças que fazem cócegas umas nas outras e foram ajudar sua amiga com o vinho. Ela conseguiu sacar a rolha sem grandes problemas. A garrafa estava acompanhada de copos desde o “poc” que faz o vinho ao ser aberto. O cheiro era bom, o gosto era bom. Pegaram um pouco de pão cada um, para encher a barriga vazia, e voltaram para a sala, Roberto é claro acompanhava com o rabo do olho a parte traseira das coxas e aquelas nádegas tão impressionantes quanto as fartas pernas. As duas o dominavam de tal forma que o instalaram certinho no meio das duas. No começo a televisão estava ligada em algum canal que nenhum deles assistia. A amiga da que usava apenas sua calcinha e camiseta regata levantou-se depois de poucos minutos e alguns goles, e resolveu desligar a tevê para ligar o rádio, onde tocava um música de fundo.
O sofá não chegava a ser apertado, mas era pequeno, o que fazia com que um corpo caísse facilmente sobre o outro. Roberto sentia as coxas quentes das duas encostando nas suas. O vinho que bebiam esquentava a alma. Apesar do verão já ter acabado, o calor ainda era mais presente do que o frio. “Será que é por isso que ela está de calcinha?”, chegou a cogitar Roberto durante alguns segundos, “não, certo que não é EXCLUSIVAMENTE por isso”, e concluiu seu pensamento como que num arremate, “mas não significa que seja APENAS por mim”. A passividade em que se instalava Roberto deixava as duas cada vez mais risonhas, animadas e calorosas, conforme todos bebiam o vinho e ninguém dizia palavra alguma sobre sexo. As duas pareciam se divertir. Quando um pouco de silêncio começou, deixando transparecer ao fundo a música do Belle & Sebastian que tocava, Roberto vira aquela beleza de pernas se levantar, observou os poucos segundos que a arquitetura do apartamento lhe permitia ver das belas nádegas dançando em perfeita sintonia com aquela infinidade de coxas. Só então ele percebera a beleza de costas que ela tinha, dava vontade de morder as costas, começando pelo pescoço. A segunda garota ficou o encarando e rindo, bancando o inocente Roberto pergunta com sincera malícia, “que foi?”. Como resposta ela derrama vinho no pescoço dele e o bebe. Ela mordia forte, mas não o suficiente para deixar marcas. Como retribuição Roberto derrama vinho na nuca dela e faz o mesmo. Dava para ver pelas bochechas flexionadas que ela mordia o lábio inferior. O vinho é claro, escoria por outras partes do corpo, e pouco dele se bebia assim.
Quando a outra voltou a amiga que estava no sofá chamou dizendo: “Olha só isso”, e derramou o vinho no braço dele e bebeu como fizera da outra vez. Ela riu, quase deixando escapar o vinho que acabara de botar na boca. Como ela ria, os dois que estavam no sofá se apertavam, ela muito mais do que ele. Olhando os dois se apertando e rindo, dando beliscos na barriga um do outro, ela desceu até o sofá, deixando a todos mais próximos devido a suas belas ancas. Roberto não queria mais perder tempo, derramou o vinho no pescoço da garota que olhava desde que entrou no apartamento e o bebeu. Ela sorriu de forma inocente e perguntou “Não vais beber tudo?”. Assim que terminou de ouvir a frase Roberto fitou a enorme gota que escapou e ficou nos peitos, riu e bebeu o vinho com força, lambendo aquela pele, que agora sabia ele era macia. Seu pênis ficou ereto, dava para perceber pelo relevo da calça. As duas já não riam mais, começaram a morder o pescoço dele, apalpavam aquelas coxas másculas que ainda tinham algo de músculo. Vez por outra alguma das quatro mãos acariciavam sua genitália, puxando a cabeça com as delicadas pontas dos dedos. O único lamento de Roberto era o fato de ter somente duas mãos, de não dar conta daquelas duas, seu corpo o impedia, não o seu fôlego. O vinho repousava no fundo de cada copo jogado em algum canto daquela pequena sala, ninguém os via e podiam fazer o que bem entendessem. Pouco tempo depois de sentir as mãos em seu pênis, Roberto se virou para aquela que desde o início povoou sua imaginação depravada, apalpou os seios fartos, e desceu sua mão vagarosamente até as coxas. As apertou com força, como queria desde sempre. Passou as duas mãos por dentro da calcinha, sentindo o calor do corpo dela. Enquanto a outra garota o beijava na nuca e apertava sua bunda, pegando com a segunda mão no seu pau, ele virou a garota das coxas, abriu sua braguilha deixando seu pinto já rijo e ereto para fora, e começou a abaixar aquela calcinha que tanto o incomodara e provocara, esfregando seu pinto naquelas nádegas tão imponentes quanto as coxas. Sem contudo penetrar.
O momento era propício, o vinho estava alto, esquentou o corpo o obrigando a despir-se. Todos já gemiam baixinho, pedindo por mais carne, mais sexo, mais coxas. Quando ele sentiu a mão daquela que lhe reservava as espaldas apalpar seu pênis e o conduzir para o sexo, e a outra começava a o despir, deixando-o sem sua camisa fazendo para isso tamanha confusão. E sem que se perceba uma voz vinda da cozinha se manifesta em alto tom: “Ai meu Deus, o que vocês estão fazendo na minha sala?”. Apesar de terrem ouvido os três não pararam no começo, apenas reduziram o ritmo para ouvirem em seguida: “Ei seus tarados, parem com isso!”, ai então as braguilhas fecharam, as calcinhas subiram e as camisas desceram. Ninguém disse palavra, todos os três ficaram mudos ante a outra companheira de apartamento que até então Roberto nem imaginava quem era e tão pouco imaginava conhecer nesta noite. Agora nesta cabulosa situação a descobria. A garota que mais estava vestida foi até a televisão e a ligou, ignorando completamente a cara de ojeriza e cólera da terceira. Todos se sentaram, procurando ignorar. Ela por sua vez começou a falar em tom imperativo, xingá-los pela cena na qual acabavam de atuar os três corpos vermelhos do vinho. Ambos ficavam quietos como se assistissem televisão desde que haviam chegou. Então a terceira garota começa a berrar, alto, em tom enfurecido, e dirigindo-se para a frente da televisão procurando obrigar aos três que os vissem, sem contudo desligar o aparelho. Poucos segundos depois do primeiro bero aparece o namorado dela sem camisa, a abraçando e perguntando o que aconteceu, ela apontou para os três no sofá, começou a chorar, ficou vermelha. O namorado a abraça procurando dar abrigo e apoio. Um dedo torto e com unhas grandes, pintadas e cuidadas, em resumo completamente diferente da unhas das duas, que apesar de cuidadas não chegavam a tal exagero, apontava para Roberto. Apesar do dedo estar torto era para ele que o dedo inqueria. Não foi dita palavra alguma para o entendimento da situação. O namorado da terceira garota olhou feio para Roberto, de maneira que seus músculos flexionavam, o concluiu: “Fora daqui”. Roberto no seu ato de coragem deu um beijo de língua em cada um das duas, fechou decentemente sua braguilha, levantou e deu mais um beijo na testa de cada uma das duas, que retribuíram com aqueles encantadores sorrisos que por pressuposto o conduziram até ali. Sem mais palavra alguma, Roberto galgou seu caminho até a rua. O namorado que já providenciara uma camisa, escondendo os rijos músculos, levantou-se e o seguiu com o olhar até a porta. Conforme Roberto descia a rampa do apartamento que o levava até a rua, ouviu a porta abrir e sentia o olhar inquisidor do namorado. Ao virar a curva para a rua escutou a batida da porta fechando, seu alívio era a calma com que aquela porta fechou. Caminhou até a praia, na parte escura e deserta dela, onde as pessoas iam para usar drogas no inverno. Ali sentou e conforme avistava as luzes dos navios na longura do mar, rememorou o que aconteceu, tentando entender e se sentindo culpado por ter saído tão obedientemente. Justificando para si repetia na cabeça: “foi o choque, foi o choque”.

domingo, 30 de outubro de 2011

O melhor caminho




     Numa das edições que assitia do programa de Nachbin passagem para, onde ele aborda destinos incomuns e tem a atenção em entrevistar pessoas originárias daquele país que hoje moram no Brasil, e junto com sua reportagem a entrevista feita dá os devidos complementos ao que se assiste, me deparei com uma situação curiosa. Por acaso peguei o programa da sua visita a Mongólia. Para quem não sabe a Mongólia fez parte da URSS, mas hoje tem seu mercado aberto. Num dado momento em que conversavam sobre o regime socialista pelo qual passara o país, depois da tradicional fala sobre a educação, habitação, emprego e todos estes cuidados que havia por parte do Estado surge a tradicional pergunta da qual eu já me perguntava: “E a liberdade de expressão, por exemplo na imprensa, sofria alguma restrição?”. Eu mesmo já pensava nesta pergunta, tema recorrente ao se abordar países que são ou algum dia foram socialistas – não vou entrar aqui na questão do socialismo real e afins. A resposta me foi surpreendente: “Não... não havia nada...”. Bem, pode ser que eles estavam equivocados, pois eu acredito que havia censura, senão isso uma manipulação ou coisa que o valha, como temos na nossa imprensa "livre-democrática". Não tenho dúvidas. Mas a resposta me levou a pensar mais sobriamente algo que já matutava na minha cabeça fazia tempo.
     Geralmente ao se falar do socialismo se traz os ótimos índices sociais da antiga União Soviética ou de Cuba, alfabetização em 99%, sistema de saúde ótimo, população devidamente abrigada e etc. Ora se param por ai todos sairemos tatuando foices e martelos. Mas, logo em seguida se desvela todo um estado policial, que seria algo que viria junto ao “pacote do socialismo” e exclusivo a ele, como a censura, que é ignorada na análise do capitalismo, assim como a não liberdade de se comprar o que quiser, elemento base do capitalismo. O que geralmente acaba se expressando nestas análises rasas (para não dizer tendenciosas) é: “comunismo é bacana, teoria interessante que não funciona na prática, por isso é uma utopia (não crível, coisa de vagabundo, nem vale a pena tentar). Capitalismo é a melhor opção, apesar da grande pobreza do capitalismo, temos a liberdade!”, deixando solto no ar a ideia de que o livre mercado garante a liberdade das pessoas e que a repressão ocorre apenas na medida certa e necessária.
     Antes que me chamem de petista, comunista ou me mandarem para Cuba ou China (se já não o fizeram), pretendo deixar claro de que sim, estes lugares não são paraísos na terra, assim como os EUA ou algum país da União Europeia também não são. Pode ter certeza de que não me agrada a ideia de morar na Coreia do Norte. 
     Temos em 90% das discussões sobre o capitalismo X Comunismo a defesa de um dos lados, que se resumem por fim em EUA e URSS (ainda hoje tem gente falando em URSS com olhos emocionados, seja com lágrimas ou fogo dentro deles). A liberdade do capitalismo se mostra por fim mais ampla que a do socialismo, pois este último é obrigatoriamente ditatorial e opressor. Logo é melhor abrirmos mão de todos aqueles benefícios iluministas e abraçarmos a liberdade do capitalismo, mesmo que esta se restrinja ao mercado.
     O que me desagrada nesta crítica ao socialismo, é a sua potência conformista: “Já temos a liberdade e a democracia, fiquem tranquilos que ela está em boas mãos, nem pensem e exercer estes direitos, a não ser o do livre mercado”; que para boa parte da população se resume a comprar o que quiser, inclusive uma porcaria de plano telefônico que te vendem sem lhe mostrarem contrato algum ou pedir assinatura alguma... se não bastasse sua palavra contra a da operadora nunca vale nada, enquanto a operadora pode até mesmo gravar a tal conversa - agora pede uma cópia e me diga qual a resposta.
     Em resumo esta crítica rasa ao socialismo leva a um conformismo que me incomoda. Gerando a crença de que esta democracia burguesa é a melhor opção. Não por acaso que quando das movimentações populares no mundo árabe, antes de perguntarem a qualquer um deles onde querem chegar, já noticiam que pretendem a democracia ocidental capitalista, e me parece haver uma pressão para isto. Falam do socialismo como impossibilidade devido a suas crises (censura, uma Cuba pobre - que esquecem de dizer: sempre foi um país pobre...), mas eu lhes pergunto como vai a capitalista Nigéria, o capitalista Egito, a capitalista Indonésia? Não temos pobreza, corrupção, fome, censura, ditadura e tudo o mais? E isto justifica a descrença dos neoliberalistas no capitalismo? Alguém já assistiu alguma reportagem de algum país pobre capitalista, associando sua pobreza ao capitalismo? Se ressalta constantemente que durante nosso último período ditatorial (entre 1964-1985) estávamos alinhados ao capitalismo?  Deixo no ar.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Um filme qualquer

Não existem fórmulas para escrever, pois se existissem só precisaríamos jogar as palavras na fórmula e esperar o texto sair. Porém é inegável a existência de lugares comuns nos textos, ou melhor dizendo, roteiros. Especialmente no que diz respeito ao cinema e novelas, mas isto não deve ser novidade para ninguém. Não pretendo ensinar aqui como escrever um texto, até porque acredito que para isso não há nada melhor do que a prática, também não vou entrar no mérito destes lugares darem um desenrolar previsível a história. Vou tentar falar um pouco do que estes lugares comuns acabam reforçando.

Creio que os filmes voltados para, ou com temática adolescente são os menos criativos devido ao seu abuso por lugares comuns. Não importa se o filme tem como ambiência o high school ou a universidade, além de utilizarem atores da mesma faixa etária para ambos, temos uma bipolarização simples entre os “descolados”, bonitos, festeiros e motorizados, geralmente ligados a algum esporte ou fraternidade. Em oposição ao outro lado disto tudo que são os nerds. Bem nada de novo nisto, nem mesmo no fato de algum nerd depois de passar por alguma transformação, igualzinha a que vemos na televisão quando pegam alguém na rua, acaba ficando bonito e se tornando um dos descolados. Além disso antes ele é uma pessoa infeliz e caricata, que novamente igual aos programas de televisão a foto antes da transformação sempre é séria e sem sorriso.

Nos casos em que vão aparecer mulheres sua importância é claramente reduzida a sua aparência, enquanto ela é feia sua atuação é desajeitada e sua existência frustrada, porém após a sua transformação, numa espécie de Frankstein inverso, não só somem o aparelho e os óculos como também os tropeções, perdigotos e diálogo.

Apesar dos roteiros colocarem uma situação de binarismo, oposição entre os dois grupos criando uma pequeno clima de guerra, infelizmente naturalizado. Pois ao final de tudo o que os não descolados desejam é nada menos do que se tornar um descolado, por algum motivo não explicado seus gostos que não passam pela cultura de massa e sua aplicação aos estudos se dá unicamente pelo fato de não serem pessoas bonitas, festeiras e motorizadas. É horrível como é desmerecida qualquer forma de comportamento que não é a das lideres de torcida ou membros de uma famosa fraternidade. Isto se mostra bem com o final feliz, onde o pessoal nerd se torna descolado e o líder perverso dos descolados acaba indo para o lugar dos até então desprezados, não bronzeados e não motorizados nerds, como se houvesse uma hierarquia não escrita mas que todos conseguem ler.

Filmes que acabam reforçando esteriótipos que são buscados de forma doentia. Lembro por exemplo dos meus tempos de escola em que se desejava um time de futebol americano no colégio com direito a líderes de torcida e carteira de motorista aos 16 anos. Antes mesmo de serem testadas as habilidades de cada um, seja como líder de torcida ou atleta, fora dado para cada qual seu papel, que obviamente se dava devido ao papel exercido na escola ou sala de aula, reproduzindo de forma tosca esta pasta base para estes filmes fast-food estadounienses, que de uma forma ou de outra vão acabar refletindo na forma de ser jovem do momento, desde o culto ao carro quando as curvas dos meninos e meninas com mais de 25 anos, feitos com muito silicone e academia. Vemos isto na rua, na internet e até mesmo em piadas, que acabam ganhando seu contorno de neutros devido a entrarem nos recortes do entretenimento que acabam dando como resposta a qualquer crítica, não importa onde, just fun. Reproduzindo ao final toda a desconsideração para aquilo que não seja sexo, bebidas alcoólicas e carros – apoiados em muito desperdício.

domingo, 25 de setembro de 2011

H, M - diálogo



Escolhi esta imagem do Escher devido ao fato de serem dois rostos distintos, de pessoas distintas, cada um matendo sua caracteristica, porém ambos estão interligados. Como este escrivi este diálogo pensando na minha namorada e algumas questões que se abatem sobre nós (edukators) e que vamos buscando lidar com elas constantemente. Imaginei que poderia ser feito um sketch a partir disso, mas nunca mais retomei este texto (nem o re li antes de postar, coisa que geralmente faço).

***

H, M. – 15.julho.2011, 11:23

Homero: Eu não quero casar.
Márcia: nem eu, não precisamos disto.
Homero: é veja meus pais, são casados e vão levando o roteiro de uma novela, a diferença é que quando acontece algum erro não dá para gravar de novo ou reescrever a fala.
Márcia: como se houvesse um roteiro para o ato de amar.
H: Isso mesmo, não tem receita, não é um bolo, nem algo de laboratório que cabe numa fórmula.
M: Igual aquelas pessoas que querem ter uma vida de novela, coisa boba.
H: Isso dá uma importância para a vida delas, nossa, querem mesmo uma vida de novela, igual a personagem daquela peça – e ele aponta para ela com a palma da mão virada para cima esperando uma afirmação, que não tarda a vir, e ela prossegue, efusiva, certeira e firme em seu argumento.
M: nem teremos filhos, nada de filhos.
H: é verdade. Sabia que eu acho meio egocêntrico ter um filho?
M: como assim?
H: Você vai lá, querendo ou não vai colocar tuas expectativas nele, vai influenciá-lo de forma absurda, aos poucos vai construindo uma pequena imagem sua na criança. Acho o cúmulo colocar o mesmo nome no bebê, terminando com Júnior, por exemplo.
M: É como se fosse existir para sempre. Uma constante renovação do mesmo.
H: mas, e se tivermos um filho, que nome colocaríamos nele?
M: como assim?
H: Ora, meus pais me deram este nome, Homero, nome horrível, não dá para fazer isso com uma criança, cometer tal crime, covardia – e levanta as mãos em indignação.
M: olha ai, já começa por ai!
H: como assim?
M: nem estou grávida e já ta querendo colocar nome. Nem apareceu e já está querendo decidir alguma coisa por ele.
H: Não, estava só pensando no nome, sabe como é, começa por ai. Já pelo nome, já começamos escolhendo como ele vai se chamar, depois a escola em que vai estudar, que roupas vai usar. Quero só ver a primeira festa de aniversário, aposto que seria do pequeno príncipe.
M: pequeno príncipe iria ser lindo, e o mais bacana é que dá para fazer tanto para menino quanto para menina.
H: bem, mas não teremos um filho. Não é vontade agora. Eu não quero pelo menos.
M: não nem eu, ainda mais que tem muita gente no planeta, não quero colocar mais alguém, obrigar a vir para cá, nos fazer companhia e satisfazer nosso ego, obrigar ele a nos amar e ele acabar nos obrigando a amá-lo.
H: pelo que me lembro os pais do Brizola ......
M: que?
H: pelo que me lembro os pais do Brizola deixaram ele escolher o nome dele. Daí ele escolheu, Leonel Brizola.
M: Uh! Sai pra lá meu comunista!
H: Não, sério, muito legal isso sabe, deixar a criança escolher o nome. Se bem que...
M: se bem que o que?
H: Quando eu era pequeno adorava o nome Frederico. Tinha até uns três ursos de pelúcia chamados Frederico, Frederico 1, Frederico 2 e Frederico 3.
M: Não seria Frederico I, II e III?
H: é seria, mas como eu era criança não sabia disso, daí era o um, dois três e não primeiro, segundo e terceiro. As vezes eu queria que meu nome fosse Frederico.
M: Imagina se fosse Friedrich, ai sim seria engraçado. Frederico, Friedrich, não são muito melhor que Homero não.
H: Pelo menos poderia me chamar de Fred, e com este nome, Homero, dá pra me chamar de que? Homer? Não né, isso é coisa do Bonner!
M: Ah isso é. Homer não impõe respeito sabe... se bem que tu até tem uma careca.
H: Ah para com isso!
M: Porque tu parou de tomar aquele remédio mesmo?
H: Porque não tava mais dando, era caro.
M: e tava te deixando assim, esquisito, não era tão legal assim né.
H: Tinha que tomar todo dia, e além do mais não quero ser um escravo da vaidade.
M: ah não, não quero que sejamos uma família burguesa, nuclear, classe-média boba, votar no Serra, ser homo fóbico, que quer colocar câmera na cidade toda e vai ver o desfile com sorriso de orelha a orelha conclamando com lágrimas nossa tradição.
H: Não, vamos ser classe média só na parte material, mas não vamos ser tão bobos. Por isso que não vamos casar nem ter filho, muito menos lhe chamar de júnior – e ele levantou o dedo para cima para lhe dar mais razão a fala.
M: Podemos ir até morar em outra cidade, já estou cansada daqui, é úmido, frio demais no inverno, insuportável no verão. Além de todo esse papo que tem aqui.
H: bem que cada cidade tem esse seu papo sabe. Isso não dá para fugir, essa coisa de associar o gentílico a personalidade das pessoas de lá.
M: Por isso vamos morar em vários lugares, nada de um lugar fixo.
H: Isso! Podemos ir para a África, você podia dar aula de francês e eu posso ser professor, ou até mesmo trabalhar como diplomata! Podemos ir primeiro para a Namíbia, lá algumas pessoas também falam o alemão, daí eu posso praticar um pouco. E depois ir para Angola ou Moçambique, não sei, quem sabe São Tomé e Príncipe, que tal?
M: hahahahahaha.
H: que foi?
M: Queres ir para a África fazer o que?
H: Morar lá, falar várias línguas, conhecer outra gente.
M: Parece mais que quer fazer igual aqueles europeus fascistas do século XIX que queriam levar a civilização e o progresso para os outros povos. Ensinar francês, como se a língua deles que eles tem lá já não é boa o suficiente. – os dois ficaram quietos um tempo, refletindo, e ela prosseguiu – além do mais eu nem sei falar francês como é que eu vou ensinar francês?
H: ah isso é, se bem que eu acho que não seria difícil aprender francês, é língua latina sabe, daí aprendemos rápido.
M: tais falando como aquele pessoal que vai viajar para fora e acha que não precisa aprender espanhol porque é uma língua parecida e tudo mais. Por favor né.
H: Yo te quiero!
M: que?
H: Viu como yo sé castellano! – sorria largo enquanto olhava para ela esticando o silêncio.
M: agora isso é fato, filho nós não precisamos ter, nem casar.
H: mas morar junto a gente pode?
M:sim, mas nada de casar, ter filho – interrompido.
H: nem votar no Serra e muito menos ser homo fóbico – interrompido.
M: e tu que não me invente de achar que o carro é uma extensão do teu pinto! – agora ela levanta o dedo para enfatizar a razão.
H: mas eu nem tenho carro, tão pouco dirijo.
Ela fica olhando para ele, sorrindo, escondendo um riso, como quem pensa alguma coisa ao longe.
H: que foi, por que essa cara?
M: achei que tu ia dizer que não tem pinto.
E ele faz cara de quem não achou graça. Ficaram se olhando, enquanto o riso dela ia embora junto com a carranca dele. Juntaram mais o corpo de um junto ao do outro, se olharam carinhosamente, ela fazia um carinho com a mão na nuca dele enquanto lhe dava um beijo. Se olham ternamente.
M: vamos comprar um vinho?
H: de rolha?
M: é um que é fechado com rolha de madeira, que faz aquele barulhinho – e ela simulava que abria uma garrafa de vinho e terminava o teatro dizendo – poc!, assim sabe?
H: Ah minha burguesinha, só tomando vinho chique é?
M: Lembra só somos classe-média na parte material.
H: mas nada de casar, só morar junto.
M: Nem ter filho, só um cachorro.
H: Um cachorro?
M: um não, pelo menos três!
H: Mas não vamos comprar nenhum né?
M: não adotar, além do mais eu gosto mais dos vira-latas.
E os dois vão caminhando abraçados comprar um vinho.