terça-feira, 28 de outubro de 2014
quinta-feira, 17 de julho de 2014
Faz tanto tempo que eu te amo
Faz tanto tempo que eu te amo
que da última vez que eu te vi sorri na alma
Meu corpo inteiro esquentou e estremeceu
meus dedos cegos te procuravam no tato
e tudo que eu precisava era me apaixonar
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Medicina e a alternativa
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| Walentin Aleksandrovitch Serow |
Ninguém mais sabia direito o que fazer, o garoto continuava com suas
dores fortes no estômago. O médico de confiança da família o
examinou, tiraram raio x, endoscopia e nada podia ser identificado
pela moderna medicina. Num momento de desespero a mãe pergunta ao
médico, “e pode haver alguma solução para tudo isto?”, ele
raciocina e muito complacente responde, “não se preocupe, confie
na ciência, acharemos alguma solução para o caso de seu filho,
ademais não lidamos com algo tão crítico, fique tranquila pois
nada indica que ele irá morrer ou algo do tipo”. Isto já era
sabido havia muito tempo, para essa resposta não era necessário um
médico, por isso a criança desabafa, “mas mãe, essa dorzinha me
incomoda”, e este era o problema, o incômodo em sua barriga,
dentro de si, que não sossegava.
Quando saem do consultório em direção ao carro, a mãe caminhava
determinada, voltam para casa sem dizer nada, pois não havia o que
ser dito, afinal a criança não morreria, isto já era claro para
todos havia muito tempo. Chegando em casa a mãe telefona para sua
mãe, falava com a avó da criança, “Sabes me dizer se ela atende
ainda?”, podendo ouvir apenas um lado da linha, algum tempo depois
a conversa segue com, “ah, sim, ali do lado do posto de saúde, uma
rua depois, sei onde fica”, a conversa seguiu mais um pouco
terminando com, “ah, o Roberto não pode saber, ele não acredita
nessas coisas”. E não acreditava mesmo. Roberto era formado numa
universidade de prestígio, exercendo um cargo de prestígio e muito
esforçado e competente, é verdade, mas sua única crença era na
ciência e no que ela poderia dizer. É importante frisar que Roberto
não faria muito mais que esbravejar caso soubesse, haveria no máximo
um discussão entre o casal, mas e o incômodo de tudo isso? Como
ficava a criança no meio dos dois gigantes adultos preguejando?
Melhor era manter as coisas na surdina mesmo.
O tempo do dia ainda permitia que fossem, mãe e filho entram no
carro, o local era um pouco mais à periferia do que onde moravam,
algumas casas coloridas e multifacetadas pintavam o morro, ali entre
casas de muro alto, outras de muro baixo estava uma casinha de
madeira, que parecia estar ali desde o tempo em que soprava o vento.
Havia um banquinho onde as pessoas estavam sentadas, como que fazendo
fila. Os dois sentam ali e a mãe avisa para esperar, como se
restasse alguma escolha para a pobre criança. Sua mãe encontra uma
conhecida alguns minutos depois de se sentarem, parecia ser uma amiga
de algum tempo atrás, ela também trazia seu filho, as duas
compartiam um sorriso de conivência, deixando no ar que faziam algo
escondido. Conversaram, cada uma explicando os eventos que as levou
até ali, ambas estavam com algo incomodando seu filho, ambas haviam
tentado o médico algumas vezes, ambas vinham sem o consentimento de
seus maridos, por sinal o marido da amiga da mãe do filho, era
casada com um médico irmão do médico de confiança da família,
saca? Baixando cada vez mais o tom, a conversa das duas ganhava como
pauta o mal-estar das crianças e a discordância dos maridos,
chegando ao final num sussurro baixo, em alemão colonial,
arrematando o diálogo com ambas balançando a cabeça em gesto
afirmativo deixando no ar uma dúvida sobre o que haviam dito. Tão
logo esta língua desconhecida era pronunciada, chegava a vez deles.
A mãe vai com seu filho para dentro, o lugar era notadamente mais
escuro que o lado de fora, o sol penetrava mais fraco ali dentro
daquele quartinho com uma vela acesa num canto próximo a imagem de
um santo. A benzedeira toca na testa da criança, sua mão leve vai
para a barriga, o que leva a benzedeira a perguntar algo para a mãe
que é confirmado por ela com o mesmo movimento assertivo de havia
pouco. A passos calmos pega uma linha num canto da sala, cortada
habilmente com auxilio da vela. Sussurrando palavras incompreensíveis
para a criança, a linha passeia pelo corpo, indo para lugares
estratégicos. Depois fazendo movimentos no ar e mantendo seus
sussurros, a criança termina sua benzedura. A mãe agradece, deixa
um agrado para a benzedeira, que muito maquinalmente dá seus
agradecimentos e guarda o dinheiro entregue pela mãe num bolso da
roupa.
Sem entender nada do que havia acontecido, a criança volta para casa
com sua mãe, o fim da tarde já acontecia. Tomam seu café, ele é
liberado para assistir o seu desenho na televisão, toma seu banho e
dorme um pouco mais cedo do que o habitual. Para seu pai não fora
dito nada, mas parecia que naquela noite ele conseguia dormir mais
tranquilo, o incômodo havia sumido junto com o sono.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
O sentido da esquerda ou, Não estou nessa pra pegar mulher
Estamos esquecendo do mais importante, as mulheres (e os homens) não
são “seduzidos” pelos discursos da esquerda devido a sua malícia
ou o mero conforto, essa aceitação do discurso de esquerda ocorre
porque estes discursos fazem sentido. Quando é dito “que é
necessário libertar seu corpo do julgo patriarcal”, a reverberação
disso entre as mulheres ocorre não pelo fato de que supostamente é
chique ser feminista, mas porque faz sentido ser feminista. Afinal,
as mulheres (e os homens) são ainda hoje vítimas do machismo, e
aceitam esse discurso “de esquerda” por fazer sentido a sua
existência. Não houvesse essa pressão sobre o corpo feminino,
propagandas como as do iogurte-gostoso-que-te-ajuda-a-ir-no-banheiro,
não seriam direcionadas a um público tão específico de mulheres,
donas de casa e mães. Se não houvesse machismo este produto talvez
nem fosse necessário, pois mulheres se libertariam da pressão de
serem bonitas, lindas e perfeitas vinte e quatro horas. Pode parecer
exagero, mas não havendo esta pressão sobre o corpo cobrando toda
essa beleza, o estomago, nosso velho coração segundo os gregos
antigos, funcionaria melhor, mais livre, e quiçá um produto assim
fosse dispensável, ou não teria um foco tão grande em mulheres,
donas de casa e mães.
Não há sedução ou malícia alguma no discurso de esquerda, há
sim algo próximo ao bom senso e a razão. E se as pessoas aceitam
estes discursos (plural, pois são vários), é porque eles tem um
sentido na vida dessas pessoas. Negar isso seria ignorar a autonomia
e liberdade que nós seres humanos temos. E da mesma forma que o
brasileiro adotou uma série de americanizações também pelo fato
da cultura estadunidense ser rica e interessante, o discurso de
esquerda passa pelo mesmo – a diferença é que a esquerda não é
gerida por um escritório central, muito menos é financiada por
ricos lobistas como ocorreu no processo de americanização do
Brasil, que fique claro! O ponto chave é, o discurso de esquerda é
confortável, mas não por te ajudar a “pegar mulher”, por ser
mais fácil ou de maior aceitação social, mas sim por te ajudar a
viver de uma forma mais livre e sensata, até porque deixar de ver a
mulher como um objeto que pode ser pego e usado, pode proporcionar ao
homem toda uma nova gama de experiências ótimas com ela(s), e que
podem ser muito produtivas e prazerosas para ambos. Até porque um
dos maiores problemas para a família hoje em dia é todo o peso de
uma normatividade que não faz mais sentido.
Diferente do que parece ocorrer entre certos adeptos do discurso de
direita, que mesmo sozinhos e indesejados pelo sexo oposto, não
abrem mão de sua individualidade e verdade, os discursos de esquerda
fazem algum sucesso entre mulheres e homens porque dizem para essas
pessoas que elas não estão erradas. Não estão erradas por serem
indígenas, afrodescendentes, mulheres, uma pessoa que não quer ser
milionária, homossexual ou pobre, e isto é muito bom, saber que
você não é errado, não é uma peça estragada
dentro da rígida máquina que é a sociedade. No fim das contas,
enxergar a sociedade como algo mais desenvolvido e humano do que uma
máquina, onde cada pessoa tem seu lugar estático, onde o negro deve
continuar segregado, o índio ignorado, a mulher oprimida, o gay como
motivo de piada e violência, o pobre ao Deus dará e todos devem
almejar ser um Eike Batista ou Warren Buffet senão estão errados,
isso é algo muito bom e libertador sim, mas não por ser fácil, mas
por fazer sentido a nossa vida.
sábado, 8 de março de 2014
História de verão 3
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| León Bakst |
Parecia que eu havia desistido de viver naquele verão. Não foi só por causa de ter pego recuperação final pela primeira vez na minha vida, ou pelo fato de que tudo parecia estar dando errado conforme o clima ia esquentando. Meu pai havia perguntado para mim cinco meses atrás se eu realmente gostava de tocar violoncelo, sem pensar respondi que sim. Agora, final de ano nós não iriamos para a praia como de costume e tanto meu pai quanto minha mãe já haviam avisado que eu ficaria sem presente de natal. Como as aulas de violoncelo continuariam, eu havia entendido tudo.
Óbvio que todo estre drama começou depois que eu havia ido na escola saber a fatídica resposta para a pergunta: “vou repetir de série ou não?”. Lembro que as ruas pareciam estar mais vazias do que o normal, o calor devia estar afastando elas da rua, além disso muita gente já estava indo para o litoral. Eu sempre achava um saco, mas percebia devagarinho que era muito mais prazeroso reclamar de algo que se possui. Além das ruas vazias não dava pra sentir aquele cheiro de almoço sendo feito nas casas. Fui até o local onde era a minha sala, esperei o colega que estava ali dentro conversando com a professora terminar. Ele saiu sério, não me cumprimentou, não éramos chegados. Entrei cabisbaixo, como se meu comportamento naquele momento poderia reaver uma decisão já tomada, sentei na cadeira posta de frente a mesa da professora e assim que minhas nádegas encostaram na madeira ainda quente ela disparou: “Você quer passar de ano?”. Aquelas palavras foram suficientes para me gelar a espinha a tal ponto que minha cabeça mexeu levemente em sinal afirmativo, isto não foi o suficiente, tão logo respondi ela continuou: “Você deveria ter tomado mais cuidado, pegar recuperação assim, sem nunca ter pego nenhuma vez na tua vida Walter. O pior é que já tive alguns alunos meus que aconteceu isso, eram excelentes e depois, começam a brincar e repetem de ano. Mas isso Walter, o resultado que nós temos aqui”, dizia ela enquanto balançava o papel que parecia ser meu boletim com o veredicto, “o resultado que nós temos aqui é trabalho de um ano inteiro está bem?”. Ela me entrega o boletim e antes mesmo que eu pudesse manifestar algo, eu tinha percebido que havia passado de ano. Quando sai pela porta ainda amortecido pela situação a professora soltou, “boas férias”.
Quando sai do colégio o babaca que não havia me cumprimentado antes foi o primeiro a perguntar, “eai, passou?”. Fiz que sim com a cabeça e continuei andando, não o suportava, pois ele queria se levantar colocando os outros para baixo, provavelmente pediria para ver minhas notas e falaria de alguém que tirou mais do que eu caso esta pessoa não fosse ele. No portão da escola encontrei a Gabriela entrando no pátio, nos cruzamos e ela perguntou sorridente logo após o beijo na bochecha – que nunca antes na minha vida me fora dado por ela – se eu havia passado de ano. Respondi que sim e ela me correspondeu com um sorriso, e tão logo surgiu, ela já foi saber o seu resultado enquanto eu notava pela primeira vez que ela tinha uma beleza ímpar e que talvez por isso eu nunca havia dado muita atenção para Gabriela. Não sei porque, mas tive vontade de esperá-la. Para não bancar o apaixonado, o que eu me recusava por sinal, fui conversar com o purgante para matar tempo. Foi ai que eu tive a genial ideia de fazer com ele o que sempre era feito comigo. Olhei suas notas, todas menores que as minhas, ri dele, critiquei-o, comparei suas notas com a de algum aluno que havia passado direto, para piorar falei de suas roupas, ele usava um boné chamativo, e por isso não era difícil usar seu ponto forte como um ponto fraco.
No instante que eu vi Gabriela andando pelo pátio, fui falar com ela, pouco me importava sua resposta, só queria ouvir sua voz. Ela, assim como eu, havia passado de ano. Mantendo a conversa fomos saindo da escola, caminhando pela rua vazia, sem vento, apenas o sol nos castigando. Quando paramos na esquina de sua casa eu perguntei: “você também vai ficar aqui este fim de ano?”, e ela respondeu “sim, meus pais só vão poder ir para praia no carnaval”. Disse que seriamos só eu e ela então, ela sorriu, abaixou a cabeça e tremia um pouco, eu como já estava no ápice de minha coragem estava a ponto de desmontar e virar uma pilha de ossos na calçada. Em apenas cinco minutos, desde o beijo na bochecha até aquele momento, eu me apaixonara por ela. Dava para sentir que o nervosismo dela era o mesmo que o meu. Sem mais nem menos ficamos em silêncio, que foi interrompido por um beijo ligeiro de despedida.
Não queria saber de nada nem de ninguém. Fiquei dois dias pensando em como poderia ser minha vida dali para a frente, as possibilidades eram variadas, desde empresário ou diplomata até traficante ou assaltante de bancos. Não conhecia nenhum traficante que era algo mais do que um imbecil e os bancos tinham tanta segurança que seria uma armadilha assalta-los. Esta brincadeira de supor coisas sobre mim logo cansaram, por isso me entreguei a leitura e a audição de música. Acho que foi naquele verão que conheci bandas como Doors, David Bowie, Sex Pistols, Rolling Stones, Pink Floyd e Mutantes. Como acabei passando muito tempo no computador resolvi contatar Gabriela para saber como as coisas estavam. Acho que de todo o pessoal, apenas eu e ela estávamos na cidade. Quando a chamei, mesmo sendo de madrugada ela me respondeu. Ficamos conversando até duas horas da manhã. Na noite seguinte foi a mesma coisa. Precisei de mais duas noites de conversas sem fim para lhe intimar a fazermos algo no dia seguinte, pela tarde. Inventei que poderíamos passear de bicicleta, que eu conhecia um lugar legal. Contra os avisos de minha mãe por volta de 15:30h eu já estava na mesma esquina onde havíamos nos despedido dias antes, e como o combinado ela estava lá. Sem trocar palavras fomos indo até o local, no caminho passamos na frente do mercado e eu vi o imbecil do qual eu não gostava, ele me viu, olhos nos olhos, nenhum cumprimentou o outro. Aquilo me afligiu, pois logo todos saberiam que Walter e Gabriela pedalavam juntos e minha paciência estava cada vez mais curta. Pouco antes de chegar no lugar me toquei de que as aulas demorariam para começar e que talvez até elas voltarem já não me incomodariam tanto.
O lugar era um terreno com barro espalhado de maneira a formar alguns relevos, o que era legal para andar de bicicleta, tanto eu quanto Gabriela demos algumas voltas, foi então que ela se cansou e foi se sentar embaixo de uma árvore. Eu percebi que ela estava ali, mas mesmo assim dei mais algumas voltas de bicicleta até parar de frente a ela e dizer: “vamos andar Gabriela”, ela sorrindo me disse que estava cansada e então larguei minha bicicleta e me sentei de seu lado. Trocamos trivialidades sobre o verão, “vai chover hoje”, “acho que chega aos quarenta graus”, até sermos atingidos por um silêncio que eu viria a conhecer muito bem ao longo de minha vida. Nós dois estávamos calados e mexíamos nervosamente nossas mãos. Quando aproximei minha face para falar algo fui recebido por um beijo nervoso em meus lábios. Estranhamente eu esperava por aquilo, e logo retribui o carinho. Ficamos alguns minutos se beijando e depois dei um abraço em Gabriela, com vontade e receio de encostar nela, pois, lhes digo, era meu primeiro beijo. O sorriso parecia começar nas minhas orelhas de tão grande que estava. Ela por sua vez, parecia querer contar alguma sensação que até hoje não sei qual é. Depois daquela tarde voltamos cada um para sua casa e fiquei pensando na tarde maravilhosa que eu tivera – ou melhor, no beijo. Quando convidei Gabriela numa de nossas conversas da madrugada na internet ela havia me dito que não daria pois tinha um compromisso sério, não explicou mais nada e eu evitei pedir por detalhes. Naquela tarde em que as ruas pareciam vazias fui até o mercado buscar leite, e ao sair do lugar vi Gabriela abraçada com o boçal da mesma forma que ela se abraçara comigo um dia antes, entendi então que ele era o compromisso sério.
Óbvio que todo estre drama começou depois que eu havia ido na escola saber a fatídica resposta para a pergunta: “vou repetir de série ou não?”. Lembro que as ruas pareciam estar mais vazias do que o normal, o calor devia estar afastando elas da rua, além disso muita gente já estava indo para o litoral. Eu sempre achava um saco, mas percebia devagarinho que era muito mais prazeroso reclamar de algo que se possui. Além das ruas vazias não dava pra sentir aquele cheiro de almoço sendo feito nas casas. Fui até o local onde era a minha sala, esperei o colega que estava ali dentro conversando com a professora terminar. Ele saiu sério, não me cumprimentou, não éramos chegados. Entrei cabisbaixo, como se meu comportamento naquele momento poderia reaver uma decisão já tomada, sentei na cadeira posta de frente a mesa da professora e assim que minhas nádegas encostaram na madeira ainda quente ela disparou: “Você quer passar de ano?”. Aquelas palavras foram suficientes para me gelar a espinha a tal ponto que minha cabeça mexeu levemente em sinal afirmativo, isto não foi o suficiente, tão logo respondi ela continuou: “Você deveria ter tomado mais cuidado, pegar recuperação assim, sem nunca ter pego nenhuma vez na tua vida Walter. O pior é que já tive alguns alunos meus que aconteceu isso, eram excelentes e depois, começam a brincar e repetem de ano. Mas isso Walter, o resultado que nós temos aqui”, dizia ela enquanto balançava o papel que parecia ser meu boletim com o veredicto, “o resultado que nós temos aqui é trabalho de um ano inteiro está bem?”. Ela me entrega o boletim e antes mesmo que eu pudesse manifestar algo, eu tinha percebido que havia passado de ano. Quando sai pela porta ainda amortecido pela situação a professora soltou, “boas férias”.
Quando sai do colégio o babaca que não havia me cumprimentado antes foi o primeiro a perguntar, “eai, passou?”. Fiz que sim com a cabeça e continuei andando, não o suportava, pois ele queria se levantar colocando os outros para baixo, provavelmente pediria para ver minhas notas e falaria de alguém que tirou mais do que eu caso esta pessoa não fosse ele. No portão da escola encontrei a Gabriela entrando no pátio, nos cruzamos e ela perguntou sorridente logo após o beijo na bochecha – que nunca antes na minha vida me fora dado por ela – se eu havia passado de ano. Respondi que sim e ela me correspondeu com um sorriso, e tão logo surgiu, ela já foi saber o seu resultado enquanto eu notava pela primeira vez que ela tinha uma beleza ímpar e que talvez por isso eu nunca havia dado muita atenção para Gabriela. Não sei porque, mas tive vontade de esperá-la. Para não bancar o apaixonado, o que eu me recusava por sinal, fui conversar com o purgante para matar tempo. Foi ai que eu tive a genial ideia de fazer com ele o que sempre era feito comigo. Olhei suas notas, todas menores que as minhas, ri dele, critiquei-o, comparei suas notas com a de algum aluno que havia passado direto, para piorar falei de suas roupas, ele usava um boné chamativo, e por isso não era difícil usar seu ponto forte como um ponto fraco.
No instante que eu vi Gabriela andando pelo pátio, fui falar com ela, pouco me importava sua resposta, só queria ouvir sua voz. Ela, assim como eu, havia passado de ano. Mantendo a conversa fomos saindo da escola, caminhando pela rua vazia, sem vento, apenas o sol nos castigando. Quando paramos na esquina de sua casa eu perguntei: “você também vai ficar aqui este fim de ano?”, e ela respondeu “sim, meus pais só vão poder ir para praia no carnaval”. Disse que seriamos só eu e ela então, ela sorriu, abaixou a cabeça e tremia um pouco, eu como já estava no ápice de minha coragem estava a ponto de desmontar e virar uma pilha de ossos na calçada. Em apenas cinco minutos, desde o beijo na bochecha até aquele momento, eu me apaixonara por ela. Dava para sentir que o nervosismo dela era o mesmo que o meu. Sem mais nem menos ficamos em silêncio, que foi interrompido por um beijo ligeiro de despedida.
Não queria saber de nada nem de ninguém. Fiquei dois dias pensando em como poderia ser minha vida dali para a frente, as possibilidades eram variadas, desde empresário ou diplomata até traficante ou assaltante de bancos. Não conhecia nenhum traficante que era algo mais do que um imbecil e os bancos tinham tanta segurança que seria uma armadilha assalta-los. Esta brincadeira de supor coisas sobre mim logo cansaram, por isso me entreguei a leitura e a audição de música. Acho que foi naquele verão que conheci bandas como Doors, David Bowie, Sex Pistols, Rolling Stones, Pink Floyd e Mutantes. Como acabei passando muito tempo no computador resolvi contatar Gabriela para saber como as coisas estavam. Acho que de todo o pessoal, apenas eu e ela estávamos na cidade. Quando a chamei, mesmo sendo de madrugada ela me respondeu. Ficamos conversando até duas horas da manhã. Na noite seguinte foi a mesma coisa. Precisei de mais duas noites de conversas sem fim para lhe intimar a fazermos algo no dia seguinte, pela tarde. Inventei que poderíamos passear de bicicleta, que eu conhecia um lugar legal. Contra os avisos de minha mãe por volta de 15:30h eu já estava na mesma esquina onde havíamos nos despedido dias antes, e como o combinado ela estava lá. Sem trocar palavras fomos indo até o local, no caminho passamos na frente do mercado e eu vi o imbecil do qual eu não gostava, ele me viu, olhos nos olhos, nenhum cumprimentou o outro. Aquilo me afligiu, pois logo todos saberiam que Walter e Gabriela pedalavam juntos e minha paciência estava cada vez mais curta. Pouco antes de chegar no lugar me toquei de que as aulas demorariam para começar e que talvez até elas voltarem já não me incomodariam tanto.
O lugar era um terreno com barro espalhado de maneira a formar alguns relevos, o que era legal para andar de bicicleta, tanto eu quanto Gabriela demos algumas voltas, foi então que ela se cansou e foi se sentar embaixo de uma árvore. Eu percebi que ela estava ali, mas mesmo assim dei mais algumas voltas de bicicleta até parar de frente a ela e dizer: “vamos andar Gabriela”, ela sorrindo me disse que estava cansada e então larguei minha bicicleta e me sentei de seu lado. Trocamos trivialidades sobre o verão, “vai chover hoje”, “acho que chega aos quarenta graus”, até sermos atingidos por um silêncio que eu viria a conhecer muito bem ao longo de minha vida. Nós dois estávamos calados e mexíamos nervosamente nossas mãos. Quando aproximei minha face para falar algo fui recebido por um beijo nervoso em meus lábios. Estranhamente eu esperava por aquilo, e logo retribui o carinho. Ficamos alguns minutos se beijando e depois dei um abraço em Gabriela, com vontade e receio de encostar nela, pois, lhes digo, era meu primeiro beijo. O sorriso parecia começar nas minhas orelhas de tão grande que estava. Ela por sua vez, parecia querer contar alguma sensação que até hoje não sei qual é. Depois daquela tarde voltamos cada um para sua casa e fiquei pensando na tarde maravilhosa que eu tivera – ou melhor, no beijo. Quando convidei Gabriela numa de nossas conversas da madrugada na internet ela havia me dito que não daria pois tinha um compromisso sério, não explicou mais nada e eu evitei pedir por detalhes. Naquela tarde em que as ruas pareciam vazias fui até o mercado buscar leite, e ao sair do lugar vi Gabriela abraçada com o boçal da mesma forma que ela se abraçara comigo um dia antes, entendi então que ele era o compromisso sério.
sábado, 4 de janeiro de 2014
História de verão: 2
Fim de ano sempre foi um saco, parece que as pessoas da cidade
inteira deixam para dezembro tudo que não fizeram o ano inteiro. O
trânsito de fim de ano piorava drasticamente em relação ao ano
inteiro e, já nos dava uma prévia de como seria o tráfico no ano
que vem. Entre tantas coisas dando errado, consegui sair do trabalho
dez minutos mais cedo e pegar o ônibus vinte e cinco minutos antes
do habitual. É incrível como por causa de alguns minutos você
ganha meia hora de bônus no seu dia. Meus fones de ouvido já haviam
sido danificados pela manhã, saindo som apenas pelo fone esquerdo, o
que causa um desagrado gigantesco aos ouvidos, preferia ficar sem
música do que ouvi-la mal.
Além de chegar mais cedo por causa desses cinco minutos, eu havia
pego um ônibus mais vazio com lugares para sentar. Ainda pegaria
engarrafamento, porém menos e chegaria a tempo de pegar o ônibus e
com isso chegar em casa meia hora mais cedo. Como fazia tempo que não
entrava num ônibus sem meus fones, comecei a escutar os sons ao meu
redor. Um sujeito no fundo conversava em monólogo com um sujeito que
apenas assentia com sua cabeça, “ali eu trabalhei já”, “nesse
eu fiz a parte elétrica”, “aquele outro fiz todo o porcelanato”,
conclui de que deveria ser algum trabalhador da construção civil.
Aqui e ali uma conversa ou outra sobre o que seria feito no natal. No
banco da frente um sujeito com pinta de moderninho mexia em seu
celular gigante e sem perceber me pegava lendo seus conversas intimas
no celular. Nada demais estava ali.
Quando cheguei ao terminal ainda faltavam quinze minutos para meu
ônibus. Geralmente ficava lendo ou ouvindo música, mas desta vez
para minha surpresa haviam dois velhinhos trajados de caipiras, com
direito a bota, chapéu e camiseta xadrez tocando modas de viola. Um
caixinha amplificava a viola e o resto (violão e as duas vozes)
saiam de forma acústica. Eu absolutamente não conheço nada de
música sertaneja, mas nos últimos anos havia ampliado meus ouvidos
para outros ritmos, já que os de sempre me cansam. É bonito afinal,
um bom tipo de música, parece mais pura do que as que tocam nas
rádios. Como não é todo dia que se pode ouvir uma música de raiz
assim, num ambiente tão inusitado como um terminal de ônibus em uma
cidadezinha úmida, sentei perto e comecei a ouvi-los.
Em princípio havia apenas uma moedinha por cima da caixinha ao lado
dos cartões de visita da dupla (nem tão de raiz assim, concluí).
Aos poucos um círculo foi se formando em volta deles, uma mulher
bateu palmas, um sujeito sorriu para eles e deixou umas moedas que
foram retribuídas com um obrigado pelo violeiro. Pouco a pouco
pessoas apressadas passavam por ali e outras que esperavam seus
ônibus ouviam e deixavam moedas e notas baixas de dois ou até mesmo
cinco reais. No meio de uma semana toda errada e acompanhada pelo
azar, nada melhor parecia me acontecer depois de sair mais cedo do
serviço. Foi então que ela apareceu.
Quando a vi ela chamou minha atenção, mas não muita, confesso. Era
apenas pelos seus dotes físicos. Ela me parecia uma daquelas garotas
que acreditam viver em Nova York ou Londres, mesmo que sua cidade
natal seja no interior de um país marcado pelas desigualdades
sociais e um racismo velado. Ela ouvia música em seus fones e
carregava um livro em sua mão. Sua calça era justa e marcava bem
sua bunda, que era grande e bonita, farta. Seu tronco combinava com a
fartura das nádegas, algumas pessoas menos atentas podem dizer que
ela é gordinha, mas entendo que isto não passa de falta de visão,
de pouca paixão pelo sexo e pelas mulheres. Seus cabelos eram longos
e negros, com algumas pequenas manchas fracas de tinta no cabelo. Sua
blusa era levemente folgada, com um dos ombros desnudos, deixando um
lindo pedaço de sua pele a mostra. Seus óculos escuros davam um
nítido ar de mistério. Reparei nela e nisto tudo assim que,
enquanto caminhava ela parou de andar, tirou seus fones de ouvido,
fechou seu livro e olhou para os dois velhinhos tocando viola.
Imaginei que pela cara de “garota moderna que escuta rock”,
acabaria fazendo alguma careta, botaria os fones e sairia andando.
Concluo agora que julguei-a por mim e que nada disso ocorreu, posso
lhe afirmar que o que vi afinal de contas fora um show hipnótico.
Com seus delicados dedos mexeu na sua bolsa, dali tirou sua carteira
e caminhando até os dois senhores depositou uma nota de vinte reais.
Todos olharam, todos a notaram, mas por deixar vinte reais ali,
enquanto eu fiquei encantado por tudo, desde seus cabelos e a
curvatura de sua coluna e pernas ao depositar os vinte reais sobre a
caixinha. Até mesmo seus cabelos que tinham uma lateral raspada,
algo que eu sempre desprezara, me criaram encanto naquela ocasião.
Seu corpo era carnudo, apetitoso, sua postura a de uma mulher livre e
independente, sua aparência serena, tudo que poderia me ocorrer era
ficar pensando nela durante algumas horas. Quando ela deixou o
dinheiro e foi embora sem seus fones para ouvir os dois velhinhos,
quis ir andando atrás dela, pegar o mesmo ônibus e descobrir onde
ela mora, ou quem sabe algo menos psicótico e só esbarrar de
propósito para tentar puxar assunto, quem sabe apenas tocar em seu
ombro e dizer o quão poético fora sua aparição, que eu a
desprezara a primeira vista, mas que depois de tudo eu estava
apaixonado pois ela parecia ser uma mulher forte, independente e
livre. Quanto a esses elementos todos, meu coração não poderia
resistir.
Talvez ela risse, talvez voltasse a colocar seus fones, talvez
fossemos beber algo em qualquer lugar ali perto. Só sei que conforme
ela se afastava de minha visão para nunca mais ser vista em minha
vida, eu ainda hesitava em pegar as minhas duas moedas que haviam na
carteira para deixar aos dois senhores trovadores, algo que me
acometia desde que os havia notado. Ainda pensando nela e hesitando
minhas pobres moedas, entrei no ônibus e fui embora.
domingo, 15 de dezembro de 2013
História de verão: 1
A consciência lhe atacou, “já faz praticamente um ano”, os
aniversários afinal, servem para que lembremos. Agora todo aquele
passado parecia irreal. Não foi profundo o que ele tivera com ela,
mas ele gostou do pouco que aconteceu, foi divertido, foi bom. O frio
na barriga é algo que faz a gente continuar vivo. O engraçado é
que os dois nunca chegaram se quer a começar algo, não deu tempo,
não deu certo, por mais que tudo parecesse indicar para isso. Depois,
por milhares de coisas miúdas – e outras nem tanto – qualquer
possibilidade de se beijarem de novo se esvaiu, evaporou. Acabou. E
como sempre, sem perceber nunca mais se viram, eles que se viam
tanto, rocando mensagens, ou conversando no telefone, mesmo com ele odiando conversas
no telefone.
Depois de todo este tempo comentou com seu amigo enquanto se perdiam
num bar da cidade: “queria falar com ela”, seu amigo pergunta de
forma espantada:
- porquê?
- Ora, e eu sei lá, queria conversar.
- Mas sobre o que?
- Não sei, pedir desculpas.
- Mas tu fez alguma coisa de errado?
- Não, nada, e nem ela pra mim.
- Então porque pedir desculpas?
- É que eu me sinto um idiota, acho que por isso.
- Não, o que tu queria era uma desculpa para conversar com ela.
- É, vai ver é isso mesmo. Sabe que pensando agora o que mais sinto saudade era disso, conversar com ela. Não que fossem horríveis nossos beijos, mas não sinto falta deles.
Certo dia enquanto passava na frente da casa dela pensou em apertar o
interfone para ver se ela estava em casa, ponderou o quão bizarro
isto seria, o que ele faria? Por fim imaginou que ela poderia
entender que ele estava apaixonado por ela, que a amava loucamente, e
não queria causar uma impressão errada, como não lembrava o
número, seguiu seu caminho em linha reta.
Meses depois a viu na rodiviária, estava cheio pois já era fim de
ano, bem entre o natal e o ano novo, um alvoroço tudo aquilo. Seus
olhos a haviam visto, mas ela parecia entretida com seus pés
balançando no banco. Seu coração disparou, parecia atingido por
algo que lhe gelava a coluna. Por fim abaixou a cabeça e fingindo
não a ter visto passou próximo a ela. A garota nem o chamou, e ele
não sabia se ela fazia o mesmo ou simplesmente não o havia visto.
Nunca mais pensou nela.
sábado, 7 de dezembro de 2013
Do socialismo: hoje
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| Foto de guerrilheiro partisan |
Qual o sentido de ser socialista hoje em dia? Como disse Saramago
certa vez, “sou socialista de espírito”, e ele prosseguiu
afirmando que provavelmente nunca fez tanto sentido ser socialista
quanto nos tempos atuais. Ser socialista não significa
necessariamente integrar nenhum partido, nem é obrigatório apoiar
algum regime. Ser socialista está muito mais ligado a sua
inconformação com a pobreza no mundo, mesmo que o mundo tenha
deixado faz muito tempo de ser um lugar pobre. Ainda existem pessoas
passando fome, e não é pela falta de comida, é pelo não acesso a
comida. Muitas vezes por motivos que elas não tem poder de
interferir. O Brasil está entre os dez países mais ricos do mundo,
e isso não é de hoje apesar de todo o alarde do sexto maior PIB
mundial, continuamos morando em favelas, pegando ônibus lotado,
enfrentando engarrafamentos, tendo uma dificuldade enorme para coisas
simples como usar hospitais, pegar um livro na biblioteca pública,
pesquisar no arquivo histórico, passear no parque, tomar um café
num Café (igual Paris ou Buenos Aires), ler um livro neste Café ou
parque e, o mais preocupante, ir nestes lugares de bicicleta – e
não de carro e não num Shopping Center e não gastando muito
dinheiro. A pergunta é: estamos mais ricos e melhorou nossa
economia, mas melhorou pra quem?
Hoje, mais do que nos tempos de Saint Simon, H. G. Wells ou Fourier,
a pobreza é um problema de distribuição mais do que de produção.
Riqueza existe, mas ela não chega de uma maneira igualitária para
todas as pessoas.
Algum sujeito já deve estar escrevendo GULAG – em caps lock – e
me acusando das coisas terríveis que Stálin ou o Khmer vermelho
fizeram. Não sou eles, assim como espero que o sujeito que defende o
neoliberalismo não seja ou concorde com Pinochet, já que seu regime
ditatorial foi um dos primeiros a adotar as premissas da escola de
Chicago, nem com os militares que impuseram uma ditadura no Brasil
até 1985 com o intuito de nos “salvar do comunismo” e manter
capitalismo - mesmo sendo Jango tão capitalista quanto Juscelino,
ambos perseguidos pela ditadura. E tão pouco com o regime nada
democrático na irmã sulista da Coréia do Norte, a Coréia do Sul,
que até pouco tempo adotava uma democracia nada clara ou
participativa – porém apoiada pelos EUA. Da mesma forma que você
não concorda com a censura na ditadura militar brasileira, eu jamais
concordei com a censura na antiga URSS, assim como desprezo o
monopólio da imprensa brasileira e o fato de só haver um único
jornal em Cuba, controlado pelo governo. Sejamos sinceros, tanto o
socialismo quanto o capitalismo já houveram e ainda ocorrem
ditaduras em seu nome. Você entende que um católico não precisa
concordar com a inquisição para ser católico, e nem tão pouco ele
seja um oficial da inquisição ao se declarar católico, por que
pensar isso então de um socialista?
Outro ataque comum, que até já rendeu livro pode ser: “mas como
assim, você é socialista, porém sempre estudou em colégio
particular, tem uma boa casa, vive bem, não pode!”, associando o
socialismo (e afins) a pobreza, a miséria, porém é justamente isto
que se busca resolver, as mazelas do mundo, acabar com a pobreza, não
reproduzi-la. Socialistas, diferente de monges franciscanos, em
momento algum fazem voto de pobreza. Por sinal, caso você não saiba
a ideia do socialismo é justamente acabar com a pobreza.
Outro ataque comum é pegar elementos pessoais, como se o sujeito é
separado, ou fuma maconha. Utilizar este argumento é nada mais do
que combater o lado pessoal e não a teoria em si, dizer “socialista
é maconheiro” é tão relevante para o socialismo quanto,
“capitalistas não dão esmolas” é para o capitalismo. É um
argumento tão importante quanto saber a posição sexual favorita,
que por mais que você deseje isso, não muda uma linha de qualquer
escrito de Plekhanov, por mais que você insista em tentar. No máximo
desvia-se o foco para coisas fúteis como o corte de cabelo, o modelo
da roupa, a quantidade de água que bebe por dia...
Por mais que se tente demonstrar que experiências como a URSS deram
errado, não podemos esquecer que a crise de 1929 não acabou com o
ideal capitalista, nem tão pouco a crise recente conseguiu, e
ninguém fala que “o capitalismo deu errado”, mas sim que ele se
renovou. Assim como o capitalismo não é o mesmo do século XIX o
socialismo não é o mesmo que era praticado no século passado. Da
mesma forma, problemas e mais problemas continuam existindo no mundo
capitalista, por mais que o discurso de “derrota do comunismo”
tente esconder e propagar uma visão de paraíso na terra. E assim
como o “comunismo nunca foi alcançado”, o capitalismo que temos
agora pode deixar Hayek, Mises ou Smith de cabelo em pé! E é tão
cheio de contradições quanto qualquer outra teoria que busque
entender ou organizar a sociedade.
Outro argumento cansativo é o de que tudo isto seria apenas uma
utopia. Bem, quando se pensou a primeira vez em viajar no espaço,
também era uma utopia, quando se pensou em um comunicador de voz e
imagem, isto também era uma utopia. A cura do câncer ainda é, a
cura da AIDS também, porque só a minha utopia não vale? Já
tentaram curar a AIDS mas não conseguiram, por isso vamos desistir?1
Como dito no começo, acreditar numa utopia nunca fez tanto sentido.
E não temos muitos ataques contundentes contra um ideal que faz
tanto sentido as nossas crenças atuais. Acreditamos que deve haver
uma distribuição melhor da riqueza, que escolher o que ser da vida
dependa de elementos relevantes como seu empenho e não sua condição
para pagar seus estudos, que sua cor da pele ou conta bancária não
sejam um pré-requisito para ser atendido no hospital, que devido ao
seu trabalho você possa ter um lazer e descanso dignos, que a fome
deixa de ser uma imposição para tantas pessoas, assim como a
desigualdade. O mais absurdo de todos estes males é que temos
tecnologia para isso, já pode ser feito, é possível, cabe agora
acreditar.
1Cabe
ilustrar aqui que acredito que a cura para muitas doenças poderiam
ser possíveis, porém acabam não chamando a atenção da indústria
farmacêutica.
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socialismo
sábado, 9 de novembro de 2013
Ubuntu-Linux e o uso de Softwares livres (uma visão política)
Fazem quase dois anos que utilizo Ubuntu-Linux em meu PC. Quando
comecei a cogitar de forma séria migrar para o Linux várias pessoas
diziam que eu iria me arrepender. Mesmo assim, outras pessoas não me
diziam isso e que a melhor forma de saber algo era tentando e
experimentando (se arriscando). Acabei escolhendo a aventura e testei
o Ubuntu e o Linux Mint, me decidi pelo primeiro – do qual sigo
usando. Minha conclusão hoje, quase dois anos depois é a de que eu
não me arrependo em nada, pelo contrário, defendo o uso do Linux e
pretendo nunca mais usar Windows num computador meu.
Fazia muito tempo que ouvia falar sobre o tal do Linux, vez por outra
aquele pinguinzinho aparecia em algum lugar para provocar. Algumas
lendas acompanhavam os boatos sobre o Linux: “não trava”, “não
pega vírus”, é mais rápido”, “linha de comando”. Porém o
que me seduziu de vez para o mundo do software livre foi quando
comprei um computador e ele veio com Windows 7 Starter junto. Ora, a
primeira coisa que você quer fazer quando tem um PC (Personal
Computer) é personalizá-lo não
é mesmo? Porém a versão mais leve e barata do Win7 não permite ao
usuário modificar coisas básicas como sua aparência. Existem
programas e gambiarras para quebrar este bloqueio todo, verdade, mas
minha experiência diz que esses programas e gambiarras que prometem
maravilhas só estragam e travam mais ainda seu computador.
O que ocorreu é que eu utilizava o
software mais comum entre os computadores1,
havia pago por isso (é preciso uma licença), não fui consultado a
respeito do software que haveria no meu PC na hora de realizar a
compra (pô, não é pessoal?), isso sem falar em toda uma série de
restrições a um produto que é meu (desde o hardware até o
software). Pode parecer exagero, mas isto só deixou claro para mim
como as relações de exploração capitalista funcionam. Mesmo que a
Canonical (empresa desenvolvedora do Ubuntu) seja também
capitalista, e não há dúvidas sobre isso, ela me permite uma
liberdade muito maior em relação ao meu computador pessoal.
Ocorreu que poucos meses depois do
teste inicial, aboli de vez o uso do Windows e qualquer programa da
Microsoft em meu computador e minha vida segue feliz da vida com o
Ubuntu-Linux. Admito que é ótimo não se preocupar com vírus e
desfragmentação de disco, além disso existem programas
equivalentes, livres e gratuitos para tudo que eu preciso no meu
computador (navegar na internet, ouvir música, assistir vídeos,
editar textos), alguns até melhores do que os pagos da Microsoft, a
exemplo do VLC e comparação com o Windows Media Player. Os bugs
não são recorrentes2
e há quase dois anos não dependo de assistência técnica. Quando
necessário eu mesmo formato ou corrijo qualquer problema no meu PC,
já que a maioria deles são simples e a comunidade Ubuntu bem
atuante.
Linux é bem mais “faça você
mesmo”, o único empecilho para as pessoas (acomodadas), já que
nada mais do que a vontade de aprender resolva.
Mesmo que uma série de possibilidades colocadas aqui (desde não
pagar pelo Software até você realizar a manutenção do seu
computador) sejam também possíveis no Windows, vejo no Linux uma
abertura bem maior e sincera para isso, até porque a ideia do Linux
é justamente esta. Por exemplo, há uma tendência comum da
Microsoft em vender primeiro uma “versão de teste” e depois
lançar a “versão definitiva”. Por exemplo, quando lançaram o primeiro Windows, ele era apenas um programa para o DOS, fizeram
assim para não ficar pra trás na concorrência, ou seja, seus
lucros ficaram acima da qualidade do produto vendido. Depois tivemos
o Win98, que até pouco tempo atrás era a base do Windows, tendo
várias versões “de teste” até chegarem no XP (alguém lembra
do WinMillenium?). O WinXP era baita bala, um Win98 moderninho,
adaptado para os anos 2000, mas não demorou muito lançam o Vista,
que nada mais foi do que uma bomba de testes para o Win7 – que traz
algumas mudanças conceituais importantes, que já vinham sendo
utilizadas no Mac e Linux haviam alguns anos. Agora com o Win8, temos
a chegada de uma nova interface para o usuário e novamente um
produto experimental. O curioso é que a Microsoft garante muito de
seu mercado pelo seu fator conservador, são sempre os últimos a se
adaptarem as mudanças e creio que isto faça com que produzam
softwares tão “confortáveis” de utilizar.
O que quero colocar afinal, é que
existe um lado político (mesmo que não seja o mais importante) no
uso de seu PC. Ele ocorre pelo que você faz com ele, seja baixar
músicas ignorando as atuais leis de direitos autorais3,
escrevendo textos para um blogue que ninguém lê, ou utilizando
softwares livres. A política está muito além dos partidos –
creio que os partidos são a menor parte da política – está muito
mais nas tuas ações do que no teu posicionamento4.
É a velha história do cara que vai na passeata contra a corrupção
e depois compra produtos falsificados, ou defender o liberalismo e
estudar numa universidade pública. Quando se faz algo, você
desenvolve relações, as relações é que geram o jogo político,
independente da esfera. E este motivo acaba sendo o principal que me
leva a utilizar softwares livres ao máximo possível.
1Parece
que 90% dos computadores utilizam alguma plataforma Windows, por
isso a maior parcela dos vírus são para Windows, o que favorece
para os boatos de que Linux e Mac não tem vírus.
2Apesar
de que nos últimos anos a Microsoft conseguiu corrigir uma série
de erros históricos do Windows.
3É
importante colocar que boa parte das discussões a respeito do
download de músicas na internet se baseiam numa reescrita das leis
de direito autoral atuais, não um simples desprezo pelo direito
autoral.
4Mesmo
que teu posicionamento determine em muito as tuas ações.
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segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Da educação - sua estrutura
Todo dia milhões de crianças e milhares de adultos são torturados
em nome de algo muito importante e digno, porém que sabemos não
surtir efeito algum. Os resultados disso vemos todo dia por ai em
vários setores e de várias formas, desde o direto consumo de
anti-depressivos até péssimos profissionais e pessoas privadas de
um mínimo de cidadania. Pode parecer exagero, mas isto tudo está
ligado a escola, seja de uma forma ou seja de outra.
O primeiro item a levarmos em consideração é o de que sim, uma
educação é fundamental, seja pela formação de uma pessoa
enquanto indivíduo, seja pelas necessidades do mercado de trabalho.
O segundo item a ser levado em consideração, e este é muitas vezes
esquecido, da forma que as escolas estão não tem mais jeito. Ainda
seguimos um modelo criado nas entranhas da revolução francesa, e o
resultado já sabemos: vê-se de tudo e não se aprende nada.
Devido a distância que mantemos da escola, acabamos esquecendo
muitas vezes como ela é. Recordo de maneira rápida: torturante,
angustiante, humilhante. Como durante a maior parte da minha vida fui
aluno, acreditava que isto era algo restrito aos alunos, porém agora
que sinto a experiência de professor lhes afirmo o óbvio que parece
ser tão relevado: alunos e professores odeiam a escola. Entretanto
alunos estão dispostos a aprender, não todos é verdade, mas muito
deles estão. Porém fatores e mais fatores acabam desestimulando os
alunos, e não é um professor mais “dinâmico” que vai resolver
a situação. Até pelo fato de que entre a maior parcela dos
professores podemos perceber uma vontade por lecionar, há um prazer
nisso, mesmo sendo inegável a má formação de muitos professores.
Eu me incluo entre estas pessoas que gostam de lecionar, mas sei que
um dos meus maiores obstáculos toda vez que vou dar aulas é este
formato torturante que não ensina nada a não ser criar um saco de
paciência bem grande, a ficar quieto sentado, a controlar suas
necessidades fisiológicas e a portar-se da forma habitual sob o
menor sinal de autoridade – e isto vale para alunos e professores.
Para quem está faz algum tempo fora de uma sala de aula, lhes peço
para recordarem como eram seus tempos de estudo, não da faculdade,
da escola mesmo, ensinos fundamental e médio.
Cito um exemplo comum no campo empresarial; se temos um negócio que
não está atingindo os lucros desejados as alternativas mais comuns
são duas: ou fecha-se este empreendimento declarando sua falência,
ou muda-se a forma com que tal negócio é empreendido. Ora, lhes
pergunto, se a escola não funciona do jeito que está, porque
insistimos nela? Abrir mão do ensino nós não queremos, por isso me
questiono porque não acabamos com o formato de escola que ai está e
criamos algo novo?
Sejamos sinceros, quarenta e cinco minutos não é tempo suficiente
para se aprender algo, entretanto para quem não quer aprender, estes
quarenta e cinco minutos são equivalentes a uma silenciosa tortura,
e imagine noventa minutos. Sinto na pele uma diferença nítida, e
lhes afirmo, são questões notáveis. Porque não temos uma divisão,
que em vez de respeitar a lógica das idades (séries) respeite a
lógica dos interesses (assuntos)? Quer aprender matemática
financeira, vá assistir aulas de matemática financeira, quer
aprender sobre a história da China antiga, vá ver aulas sobre a
China antiga, se tem interesse em aprender latim que assista aulas de
latim, e assim sucessivamente. Teremos alunos interessados, o que
gera um empenho muito maior por parte dos alunos, tornando o ambiente
de sala de aula mais confortável e produtivo para educandos e
educadores. Isto óbvio, não poderia ser desde o princípio, uma
base é importante, claro. Mas depois de certa idade, já temos uma
noção do que gostamos ou não, do que queremos e do que não
queremos. Tal necessidade de decisão por parte dos alunos já gera
um desenvolvimento da maturidade, da responsabilidade.
Mesmo assim você pode fazer parte do clube que vê a escola com
olhares conspirativos, “querem que o povo seja burro mesmo”,
“isto serve apenas para formar mão de obra”, “é uma maneira
de disciplinar o povo”. Afirmo que faço um olhar simpático (se é
que não me incluo ai) para esta forma de olhar a escola. Instrumento
de manipulação e continuam investindo nela, porque sim, ela vêm
funcionando exatamente como “eles” querem. Concordo que este
argumento é plausível, mas fica a questão: nós enquanto sociedade
queremos o que? Atender índices para que o MEC não perca
financiamentos do FMI e outras entidades internacionais ligadas ao
capitalismo global que vivemos hoje em dia? Porque nenhum país, até
mesmo Cuba que se propõem a outro formato de sociedade, tem um
formato diferente de escola? Só para lembrar, escolas que adotam
estes sistemas alternativos de ensino alcançam índices excelentes
de aprendizado, vide experiências de autodidatas ou da escola da
ponte.
De forma geral temos uma estrutural educacional estrangulada. Platão,
Sócrates, Da Vinci, Copérnico, Tomás de Aquino e Bhaskara
aprenderam, tiveram professores, e até podemos dizer que eles foram
para escola, mas sem sombra de dúvidas ela não era neste formato
que temos hoje.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
Sobre as manifestações de 2013 no Brasil
Perdemos o foco, para além do genérico, pouco se sabe onde quer chegar. Tirar um presidente e colocar outro, a título de exemplo, pouco muda para melhor, e o mesmo vale para qualquer outro político, já que este mecanismo institucional pouco nos permite para além disso. Depender dele para a mudança não adianta, e o que as manifestações mais mostram é que tomamos - finalmente - consciência disso, nem que seja um pouquinho, sacamos ao menos que política é muito mais do que escolher um rosto bonito a cada dois anos. Falta querermos mudar nós mesmos.
Falam em educação, corrupção, saúde e tantas outras coisas vitais, porém não olham para as questões mais próximas, não há foco. Não percebem por exemplo que defender a legalização da maconha seria uma forma fantástica de combater a corrupção gerada pelo tráfico e enfraqueceria ele como nunca. Além disso no Brasil a maconha acaba servindo de porta de entrada para outras drogas, pois sua proibição faz com que ela seja vendida no mesmo lugar que a cocaína, o crack, a merla e outras substâncias ALTAMENTE nocivas, seria legal acabar com isso. Fumar um baseado de vez em quando pode também sanar a "dependência" de muita gente em relação a anti-depressivos e outros tantos "estimulantes para a vida". De quebra podemos sanar problemas de segurança advindos do tráfico e talvez até mesmo de saúde. Mas pelo que vejo preferem cobrar moralidade, e pergunto, por que "MACONHEIRO" é xingamento? O mesmo vale para "viado" e por ai vai.
A educação é o ponto que mais me incomoda, todo mundo fala que ela tem que melhorar - até o aluno "bagunceiro", que não presta atenção na aula, só faz piada - , mas a sugestão dada é sempre aumento da carga horária, mais aulas, mais matérias, mais tempo na escola, ou seja: MAIS BUROCRACIA. Burocracia não tem nada a ver com educação, burocracia foi inventada entre os governos de língua alemã de fins da idade média com vista em incrementar sua renda (restrita a uma coleta imprecisa de impostos e guerras). Platão, Sócrates, Da Vinci, Rafael, Tomás de Aquino, Galileu e tantos sujeitos que chamamos rotineiramente de "gênios" não foram para a Escola que temos hoje em dia, isso é tão certo quanto a gravidade. Sabemos que eles estudaram, não temos dúvida sobre isso, e poucas vezes percebemos que eles desenvolviam um conhecimento que claramente abrange várias áreas do conhecimento.
Sugerir uma escola não obrigatória, sem matérias obrigatórias onde o aluno escolhe o que estudar parece absurdo dentro da nossa sociedade de controle. O mesmo vale para a legalização da maconha. Sigo pedindo mais parques e áreas verdes dentro das cidades, uma estrutura que incentive o uso da bicicleta para sanar problemas de saúde, não mais hospitais, postos de saúde, médicos e burocracia - marcar consulta, receita para pegar remédio, ficha cadastral para não pagar pelo remédio, etc.
A sociedade que ai está é a mesma que motiva a irmos para a rua, pois ela nos gerou este descontentamento, e justamente por isso me estranha que se pede um melhoramento dela, ou seja, tornar esta opressão do capital mais eficiente, não transformar, mudar e deixar de transferir nossa responsabilidade para outras pessoas, pois isso leva ao totalitarismo, e foi isso que foi feito durante a maior parte do tempo nas últimas eleições - por exemplo - ou quando falamos, "isto não é minha função", "entendo seu problema, mas não posso lhe ajudar".
Por fim, esta mudança não vêm do canto do hino nacional, nem da bandeira criada pelo governo militar ditatorial que implementou a república lá em 1889. Isto é a sociedade que gera nosso descontentamento, não reforcem ela. Mudem-se!
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Água da Chuva
As gotas de chuva,
intensas caem no telhado. Dá para sentir o cheiro da cerâmica molhada, chove
faz pouco e os cheiros são mais frescos e intensos. Fico olhando de longe a
água escorrer no vidro. Pode parecer piada, mas isto é melhor que muita coisa
por ai, como ler ou escrever. Prefiro olhar a chuva cair e a água escorrer do
que trabalhar, não há dúvidas. Junto com essa chuva que escutamos cair no
telhado dessa casa vazia, ainda com pouca mobília, um frio vem chegando. Dá pra
sentir que ele passa mais fácil pelo vidro, este mesmo que ficamos vendo a água
da chuva escorrer.
Vejo você na cozinha,
sinto o cheiro do café daqui da sala. O frio começa a arrepiar minha pele,
estou com menos roupa do que exige o clima, você, como sempre, está linda,
mesmo usando esta roupa cinza, folgada, feia, continuas linda. Quero te
abraçar, mas prefiro esperar mais um pouco, deixar pelo menos o café ficar
pronto. Ainda em silêncio você me traz a xícara, com leite, sempre lembro de
café com leite, era esse meu posto nas brincadeiras quando criança, não entendia porque um
posto ruim tinha nome de coisa boa. Tu sentas do meu lado, eu me arrepio, e
seguimos sem dizer palavra. Sem nos tocarmos bebemos e olhamos a chuva.
Tão logo as xícaras são
depositadas do lado desse nosso colchão no chão, te envolvo as ancas com meu
braço e em seguida, como que buscando uma conclusão do movimento, eu te abraço.
Nos jogamos nesta mistura de colchão, cobertas e lençol. Agora junto com o
barulho da chuva dá para escutar nossos beijos, nossa pele roçando uma na outra.
Sinto com os lábios tua cartilagem, tua pele, teu pescoço. Você muitas vezes
fica só parada, esperando meus beijos, eu abro um pouco os olhos e vejo você
linda, o que só me faz querer te beijar mais e mais. Nos envolvemos por baixo
das cobertas, feito crianças fazendo uma cabana. Isso faz com que o barulho da
chuva pareça estar mais longe.
Começa a subir aquele
calorão, que termina na cabeça, faz a gente querer explodir, é o melhor calor
do mundo, ele é diferente do verão, da fogueira ou do aquecedor, é um calor que
vem disso que chamamos de alma. Ele, assim como teus dedos, passeiam pelo meu
corpo, que obedecendo tuas vontades vai ficando nu. Gosto do momento que meu
peito encosta no teu, em que sinto teu calor e as batidas do teu coração. O meu
bate forte, apressado, apaixonado. Nos abraçamos e nos apertamos forte, como se
isso fosse um esforço pra nesse momento sermos um. Tua mão desce pela minha
barriga, acaricia meus pelos, segura com carinho e puxa pra ti. Logo sinto tu
daquela forma única e úmida. Te aperto procurando te imitar. Tu como sempre,
vai ficando cada vez mais linda, especialmente quando depois de um tempo,
sorrisos e suspiros escapam.
Não sei como mas sei
que toda vez isso acontece, tu me derruba, eu caio, me acabo, desmonto. Fico
sem forças, e ainda assim sinto vontade de te beijar, te abraçar e ficar mais
algum tempo contigo. Tua pele e a minha se namoram mais um pouco enquanto ao
som da chuva conversamos com os olhos, e pouco importa a pouca mobília e o
colchão no chão porque não temos uma cama. Meu peito se abriu ao teu no
momento em que se tocaram, peguei um pedaço de ti e tu um de mim, difícil negar
isso, coisa que só os que não tem coração fazem. Cuida desse pedaço de mim,
pois eu carrego um teu também.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Da alimentação
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| Edward Hopper, 1942 |
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Anos atrás o que vinha estampado em destaque junto a embalagem de
produtos alimentícios eram as características nutricionais: omega
3; vitaminas A, B, C e outras letras do alfabeto, metais como ferro
ou zinco, etc. Você encontrava alguma propriedade nutricional nas
embalagens, sempre. Hoje o que está estampado nas embalagens é
zero. Zero lactose, zero gordura trans, zero açúcar, zero alguma
coisa. A primeira coisa que percebemos é que agora já não se busca
suprir seu corpo com o máximo possível de propriedades
nutricionais, mas sim evitar o máximo possível de
“não-propriedades” - acho que aqui fica claro o quanto eu não
entendo nada de nutrição e ciências afins, mas a proposta não é
indicar uma alimentação saudável, e sim pensar nossa relação com
algo tão cotidiano: comida.
De qualquer forma nossa alimentação é altamente industrializada,
sabemos disso, está bem claro pelo menos toda vez que comemos,
alguma coisa será industrializada, pelo menos o tempero. Agora outro
dado interessante é que precisamos ser convencidos constantemente de
que esta alimentação industrial tenha boa qualidade. Primeiro as
embalagens não marcavam nada além do produto. Porém houve alguma
necessidade para que em algum momento a embalagem possuísse mais do
que o produto para te convencer a comprar. Ora, já se sabia que um
pacote de bolacha recheada não é tão saudável quanto uma manga,
dai a necessidade de camuflar o alimento vendido, indicando bem
grande que ele possuía alguma, senão várias – quem sabe até
mais do que a referida manga – suprindo assim alguma deficiência
nutricional. Sobre isto, vale lembrar dos casos em que alguma
vitamina é indicada na embalagem, mas ela não é encontrada dentro
da composição dos ingredientes.
O tempo passa, e até nos convenceram de que adquiro algumas
propriedades por meio de alimentos industriais. Não minto ao dizer
que acredito nisto. Mas o que acontece é que sabemos que junto com
as referidas propriedades nutricionais vêm também um monte de
porcaria, ou simplesmente desnecessárias. Por isso agora os
alimentos industriais precisam indicar não mais alguma pretensa
propriedade nutricional, mas sim a ausência de elementos que fazem
muito mal ao nosso corpo (quantos pacotes de gordura trans eu já não
devo ter comido sem saber?). O que ocorre afinal é que sabemos muito
bem da verdade, alimentos industriais não são a melhor saída para
uma boa alimentação, por isso esta necessidade de nos convencerem
constantemente de que ele vale a pena. De qualquer forma fico
pensando em qual será a próxima saída para a produção deste
regime de verdade: a de que enfiam goela abaixo alimentos péssimos,
porém necessários para manutenção do capitalismo. Será que
haverá explicações sociológicas entre o consumo de alimentos
industriais e o modo de vida que temos hoje? Muito parecido com as
embalagens, antes apenas bonitas, depois indicando algum valor
nutricional e agora o oval zero. No mínimo preocupante. Não gosto
de indicar caminhos, mas vejo uma ligação entre matadouros e
fábricas, plantações de soja (que viram ração pra gado) e
escritórios, transgênicos e a “ala cancerígena” do hospital.
Gosto de saber o que entra nesse meu corpo.
_________
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Meu coração é feito uma granada
Foto de Rodney Smith
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Estas palavras não tem sentido algum enquanto você não os der.
Toda minha linguagem não significa nada enquanto você não estiver
aberto para ela. Minha pele é asquerosa enquanto ela não arrepia ou
aquece a tua no contato. A experiência precisa ser completa. O corpo
é minha estética, por isso o uso, experimento, sabendo que o que
importa é o momento. Dois segundos ou três, que me aceleram o
coração, um beijo ou dois, errados, tortos feito eu. Aprofunde,
afunde, deixe entrar a paixão. Amor livre é estar aberto ao amor,
amor livre é amar da forma que meu amor me permite, amor livre é
poder te abraçar, amor livre é a minha forma de amar. Não importa
o que digam, minha autonomia e independência me ajudam, me levam
muito mais longe que o medo. Medo de cair, de se jogar, desprender e
até de amar. O medo me fez esquecer do amor, do carinho. Seja o de
tua pele, seja o de meus amigos, seja trabalhando, carinho. Nunca se
deve negar carinho. Ele como a arte são essenciais para a vida. Não
faça do mais importante algo vazio, complete, encha até
transbordar, sua vida precisa de arte, precisa de ar. O homem não
inventa coisas por acaso ou capricho, ele inventa para sobreviver.
Arte e amor são mais que mero entretenimento. Estética é mais do
que tabelar e reproduzir o que é belo ou feio, estética é minha
pele, o arrepio, o frio, o calor, a água do rio que toca, estética
é o contato mais intimo que eu tenho com o meu corpo. Meu corpo é a
última coisa que me tiram, é o fronte mais difícil e constante da
minha vida. É ele que sofre e sabe melhor do que eu o que é o amor,
é ele que sente como nada no mundo a arte, ele que dança, que
chora, ri e se embebeda. É com ele que eu luto. Luto pela minha
liberdade, pela minha estética. Meu coração é feito uma granada.
domingo, 6 de janeiro de 2013
Pescador sem Mar
Queria colocar uma foto de alguma dessas vilas que existem costa a fora, na preguiça e ausência deixo um Klimt.
***
PESCADOR SEM MAR
Era o finalzinho da tarde. O sol já começava a se mostrar laranja.
Mesmo com todo o calor que fazia, Rose preparava o café para Ivo,
seu esposo. Ela sabia que ele gostava de tomar uma xícara antes do
dia acabar. Tão logo Ivo sente o cheiro do café coando, ele vem.
Pega nacos de pão e o besunta com a margarina já posta sobre a
mesa. Pela porta aberta ele conseguia olhar o mar, estava tão perto
que era possível escutá-lo. Assim que Rose serve as duas xícaras
de café e senta, chega Ezequiel: “Opa, tudo bem seo Ivo? Tudo bem
dona Rose?”. O pescador nem se dá ao trabalho de responder, apenas
olha seco. Ezequiel sabia que Ivo não gostava dele. Enquanto sua
esposa abria um sorriso, o cumprimentava cordialmente e logo puxava
uma cadeira convidando a visita para sentar:
- Cheguei na hora certa, né dona Rose? Bem na horinha do café! - falava cheio de si enquanto sentava, algo que parece ser importante para um corretor de imóveis.
- Ah, o cafezinho aqui em casa é sagrado, se não tem café no final do dia o Ivo fica que fica – responde Rose com um largo sorriso nos rosto – Não é mesmo benzinho? - fala ela dando um tapinha de leve no ombro do esposo com a clara intenção de inseri-lo na conversa.
- Hum – é tudo que ele responde.
Apesar da conversa começar em tom trivial, todos os três sabiam o
que Ezequiel queria. De tempos em tempos ele ia conversar com os dois
sobre alguma proposta para compra da casa. Ivo e Rose tinham uma casa
praticamente de frente para o mar numa pequena vila de pescadores
chamada Araçá. Algo que se pode perceber pelos barquinhos amarrados
ao longo da estreita orla. Fazia algo como uns cinco anos que a
prefeitura da cidade, visando incrementar o forte potencial turístico
da cidade, asfaltou a estrada que antes era de terra e colocou placas
indicando o caminho para as prainhas que existiam neste trecho da
costa do litoral sul. Isto veio acelerar a construção das mansões
nessa região, a maior parte dos donos, gente de fora, “forasteiro”
como gostava de dizer seo Ivo nas vezes que conversava sobre isso com
alguém que simpatizava:
- Fala logo – disse Ivo quase num sussurro. Ezequiel aprendeu rápido que perder tempo não era bom e logo desembuchou.
- Eu estive conversando com um sujeito de São Paulo, bem, ele acabou de passar o verão por aqui, perto do carnaval, e viu a sua casa e a do lado. O que ele veio falar comigo foi o seguinte seo Ivo: a do lado, a casa do César tá a venda, tem a plaquinha da minha corretora e tudo mais, como o senhor bem sabe, mas o que ele visualizou pra realizar o sonho dele, como ele me disse, é que ele precisava da sua casa também. Dai ele foi lá no meu escritório, conversou comigo e explicou toda a situação. Ele ficou muito, mas muito interessado mesmo...
- não – cortou secamente Ivo. Ezequiel já havia conversado outra vez, apesar da quantia em dinheiro ser maior agora que na primeira, o corretor já sabia que não adiantava só falar de dinheiro, também sabia que precisaria usar-se de Rose para convencer o pescador teimoso e regrado que era Ivo.
- Bem, não vou mentir para o senhor, sei que não é uma decisão fácil, independente do valor a ser pago, lhe dou toda razão neste quesito, toda. Por isso eu vou deixar aqui o contrato para o senhor ler, sei que o seu filho entende bem dessas coisas, assim o senhor pode analisar com calma, conversar com sua família a respeito disso tudo, e eu venho daqui uma semana conversar com vocês mais uma vez, tudo bem seo Ivo? - concluiu ele estendendo a mão para o pescador. Com uma clara falta de vontade Ivo aperta a mão de Ezequiel com a ponta dos dedos, “parece que eu estou segurando uma cobra com a mão”, pensou ele.
Esperto como era, Ezequiel entendeu bem a situação que se
apresentava. Terminou de tomar a xícara de café que a matriarca lhe
oferecera, fez uma expressão de agrado ao terminar o café,
cumprimentou dona Rose e foi embora dando um simples abano por entre
a porta.
Como se nada tivesse ocorrido, Rose começava a arrumar a cozinha,
preparando para a janta:
- simpático esse rapaz não? - falava ela de soslaio querendo puxar conversa.
- Nem tanto, é um interesseiro isso sim - retrucava ele querendo encerrar a conversa. Ocorre uma pausa e ela segue fazendo aqueles comentários típicos de mulher:
- Fiquei sabendo que a Júlia e o Roberto venderam a casa deles agorinha em janeiro. Parece que em março eles se mudam. Ganharam uma nota preta! Conversei com a Júlia ontem e ela me contou do apartamento novo que eles compraram ali perto do ginásio municipal. Ela vai fazer tudo novo, cozinha nova, banheiro novo com aqueles pias modernas, disse que não quer levar nada do que tem nessa casa aqui, que vai entregar a casa com tudo dentro.
- Hum – responde Ivo daquele jeito bronco típico dos homens.
- E parece que vão poder até comprar um carro novo – arrematou Rose enquanto enxugava um prato e seus olhos brilhavam. Ivo olhou o mar pela janela e soltou:
- Você já ouviu falar em condomínio ou IPVA? - Ela não disse nada. Terminou a louça, sentou na mesa e começou a folhar os papéis deixados sobre a mesa. De forma um pouco rude ele pergunta:
- O que tu quer ver ai?
- Nada, só dar uma olhada, até porque metade da casa é minha, direito garantido por lei, então pelo menos metade das coisas e da casa são minhas.
- Não vais pegar nem um terço do contrato não sabendo ler.
Irritada Rose deixa os papéis na mesa e começa a mexer nos armários
e geladeira, nervosa, buscando afazeres da cozinha. Ivo logo percebe
que ela estava magoada. Pega os papéis, passa o olho rapidamente
pelas páginas, arregala o olho onde estava escrito o valor, olha
mais um pouco e deposita a papelada novamente sobre a mesa. Caminha
calmamente até Rose, que estava visivelmente irritada. Deposita suas
mãos marcadas pelo sol e água salgada nas ancas dela, lhe dá um
beijo suave no pescoço e diz calmamente:
- Dessa vez um vou pensar mais no assunto tá? Eu estive vendo e a grana é mais alta, quem sabe vale a pena, mas isso eu tenho que pensar.
- Tá bom – responde ela baixinho. Ele dá mais um beijo nas costas dela, aperta as ancas mais forte e fala em tom brincalhão:
- Em últimos casos tu pode vender a tua metade e eu fico aqui sozinho com os peixes. - Ela ri um pouquinho, se vira, envolve seus braços no pescoço dele e lhe dá um beijo, deixando claro que era isso o que queria ouvir. Ele dá um tapa na bunda dela e vai terminar de preparar seu equipamento de pesca para o outro dia.
§
O sol já começava a pintar o mar. Assim cedo Ivo adentrava a água,
sozinho. Já trabalhou com um ajudante e depois com seu filho que
agora mora na cidade e trabalha para prefeitura. Até chegou a tentar
alguém para lhe ajudar, mas era difícil alguém que já sabia e Ivo
não tinha mais muita paciência, por isso preferia ir sozinho pro
mar, apesar da aflição de Rose. Ele lembrava de quando era novo e
precisava tomar o mar com seu pai. Acordavam cedo, mais do que havia
se habituado a acordar agora. Hoje ele olha do seu barquinho para
vila e rememora como era antes. Não mais que duas vendas, a
escolinha e o trapiche. Agora existem uns cinco mercados, duas lojas
de roupas e quatro lojas de quinquilharias que lotam de turistas no
verão. Venda? Essa palavra parece já nem existir mais. A escola? Um
ônibus vem buscar as crianças agora para estudarem numa escola
“mais moderna” no centro. O trapiche ainda está lá, agora é de
concreto e tem boa iluminação. Ali do lado, como que uma peça de
decoração fica o barco que agora faz passeios turísticos. Antes
quase todo mundo vivia da pesca, agora quase metade do pessoal tirava
sustendo nos poucos meses de temporada, “trabalho menos e ganho
mais”, dizia Timóteo que era o dono do barco de passeio. Ivo achou
curioso que conforme se afastava da vila, percebia que ela se
afastava cada vez mais do jeito que ela era outrora.
Quando voltou do mar seu filho estava esperando na cozinha. Apesar de
Rose estar ali também, o silêncio era reinante. Da mesma forma que
Ivo entra na cozinha, Rose some pela casinha pequenita. Caminha
ofegante até o filtro de barro e enche um copo com água:
- Tudo certo pai? - Pergunta seu filho.
- Sim sim, vai tudo bem.
- E pegou muito peixe hoje?
- Peixe já não tento mais desde que você foi morar na cidade, os barcos grandes e os forasteiros pegam tudo que é peixe agora, não sobra muita coisa, você sabe disso.
- É, sua ideia dos mariscos foi muito boa, não vou dizer que não. - seu pai consente com a cabeça como se quisesse dizer, “eu sei”, ocorre uma breve pausa e seu filho retoma a conversa – Fiquei sabendo agorinha conversando com a mãe que o Ezequiel veio até aqui ontem, parece que tem alguém bem interessado pela casa – Mesmo não tendo estudado muito Ivo nunca foi bobo, sabia que sua esposa já havia conversado com o filho. No minimo cedinho enquanto ele estava no mar, e que eles planejavam tudo nos aproximadamente quinze minutos em que lhe esperava. Além do mais, seu filho não ia até a vila do Araçá por qualquer motivo, “não gosto daqui”, dizia ele toda vez que conversava sobre o lugar. Sabendo de antemão o que o filho queria, ele mostra o papel onde estava escrito o valor, seu filho tem a mesma reação que a do pai quando viu o valor: arregala o olho.
- Já pensou nisso pai? Com um valor desses nem precisa pensar pra dar resposta alguma!
Sem dizer palavra ele coloca a mão no ombro do seu filho e o chama
com um movimento nos dedos. Atravessam a rua, marcam seus pés na
areia. O pescador começa a colocar seu barco na água com
inigualável habilidade, pede para o filho entrar dentro, o empurra
para dentro do mar parecendo ignorar as ondas e começa a remar.
Algumas pessoas olham a curiosa cena de um pescador e um sujeito de
roupa social no mesmo barco. Ivo rema até uma distância razoável
da costa, mas não muito longe. Recolhe os remos e senta-se ao lado
de seu filho, olhando o vilarejo:
- Tu lembra como era isso aqui quando a gente era mais novo?
- Um pouco não muito.
- Faz esforço seu preguiçoso – ele aperta os olhos, põe a mão sobre a cabeça e começa a falar:
- Lembro, mas não muito, tá tudo muito diferente, parece que daqui a pouco não vai mais ser assim, cinco ou dez anos e a cara da vila será toda outra.
- Tu lembra do Felipe? Sempre brincavas com o filho dele.
- Sim, lembro sim pai, porque o que que tem?
- Ele vendeu a casa dele faz uns cinco ou quatro anos, foi morar na cidade. Ganhou uma grana preta, comprou uma casa toda nova, roupas novas e até mesmo um carro. Desde que ele tinha ido embora nunca tinha mais visto ele, mas faz umas cinco semanas eu vi o Felipe quando fui pra cidade. Agora ele está um pouco mal do dinheiro, não consegue emprego e quando consegue não suporta ficar no emprego. Vocês da cidade chamam a gente de vagabundo e burro, mas não entendem que a gente não sabe ficar parado feito vocês. Riem da nossa pele seca do sal do mar, mas ficam o dia todo trancados no ar condicionado, mal percebem o quanto isso seca os olhos e incomoda o pulmão. Adoram vir pra cá olhar a natureza porque fogem do concreto, mas quem concretou o mato onde se vive foram vocês mesmos. É bom que agora não tem mais poeira em casa, mas por causa do asfalto veio mais gente e agora a praia é cheia de lixo. Não bastasse foram comprando as casas de gente como o Felipe ou Roberto, destroem a casa deles e fazem outra. Agora na areia da praia é cheio de caco de tijolo, cimento e azulejo por causa das obras. Só não constroem a casa em cima da areia porque ela é mole. Eu não gosto disso meu filho, isso me desagrada a alma, parece que vocês querem matar a gente, não suportam o jeito que vivemos. E quando não querem matar, ignoram, como se a gente fosse nada.
- Mas pai – ele enxuga o suor da testa – as coisas mudam, as pessoas mudam, a evolução está ai. Além do mais olha quanta coisa dá pra fazer com esse dinheiro! Se tu quiser dá pra começar um negócio, comprar uma casa nova, um apartamento desses que tem agora no centro. Tu precisa deixar de ser tão conservador.
- Tu não entende. Minha dor não é a mudança, é o fim de algo tão bonito, não vês que foi nessa vila que constituí minha vida e tu parte da tua? Não te dói perceber que no terreno onde tinha o abacateiro em que brincavas agora tem uma mansão? O Felipe deixava a gente entrar no terreno dele, pegar abacate, tu e teus amigos brincavam lá a tarde inteira. Agora o muro é tão alto que nem daqui eu consigo ver o que tem naquela casa. Além do mais, que sei eu fazer que não viver do mar? Acho também que eu ficaria mal se morasse numa casa sem terra. Uma vez fiquei uma semana no centro de Florianópolis, foi então que eu percebi que não tinha barulho do mar, mas de carro, dormi mal uma semana inteira, a primeira coisa que eu fiz quando voltei foi dormir. Além do mais, tu viu como está o Felipe? Feito peixe fora d'água.
Em silêncio os dois contemplavam o vilarejo. Era cômico a
combinação de barcos de pesca e lanchas, casinhas coloridas e
desbotadas dos pescadores como que perdidas entre as mansões:
- Mas tu viu a quantia? Vais negar esse dinheiro todo?
Ivo dá um forte abraço em seu filho envolvendo-lhe o ombro com as
mãos. Volta para o remo e os dois voltam em silêncio para casa. Ao
chegar dona Rose estava terminando de colocar a mesa. O silêncio dos
dois lhe parecia confirmar tanto que estava decidido vender a casa
que ela nem percebeu a cara de tristeza estampada na face deles.
Comeram em silêncio, os dois com cara fechada e a mãe com sorriso
de orelha a orelha.
§
Sexta-feira era o dia do bar. De maneira metódica não bebia a
semana inteira ou nos domingos, um pouco sábado, mas a pinga de
sexta-feira era sagrada. Conversava com seus amigos pescadores,
fizeram chacota com Timóteo porque agora tocava o negócio do
passeio turístico, andava “feito um gigolô”, disse Ivo. Riam,
pois diziam que andava mais emperequetado que uma quenga. Geralmente
Ivo voltava até a meia-noite, mas dona Rose já começava a ficar
preocupada porque ele não voltava. Impaciente como estava, assim que
deu uma hora da manhã foi até o boteco em que ele habitualmente ia;
já estava fechado. Caminhou mais um pouco e foi no seguinte, mesma
coisa; fechado. Roendo as unhas caminhou atentamente pela rua da vila
esperando ouvir algum barulho de seu marido, que tinha por hábito
fazer estardalhaço quando bebia. Rodou e rodou mas não o encontrou.
Olhou o trapiche, um barco acabava de chegar carregado de peixe,
imaginou que ele estaria lá, conhecia todo mundo e sempre lhe pediam
algum palpite. Perguntou e nada. Desistiu conforme voltava para casa.
Preparou-se para dormir, janela aberta e ventilador ligado, mas o
sono não vinha.
Apesar da aflição a sonolência que começava a lha acometer às
três da manhã passada não lhe permitiu escutar Ivo chegar. Ouviu
“Rose, Rose meu amor” e deu um pulo. “Rose xuxuzinho”, ecoava
em alto tom a voz torta do pescador. Ao chegar na cozinha Ivo já
estava sentado, terminando um cigarro, algo que não tinha hábito.
Tocando suavemente a coxa convidava sua esposa para sentar em seu
colo. Ainda assustada por não entender nada, ela senta. Recebe os
habituais beijinhos nas costas, o que lhe acalma, mesmo não gostando
do bafo da cachaça. Ele pega nela da maneira habitual de quando
bebia e começa a disparar:
- Lembra da capelinha que ficava a uns trezentos metros daqui?
- Sim, lembro sim, sempre ia rezar lá com minha mãe. Foi lá que nos conhecemos.
- Isso mesmo, quando te vi quietinha fingindo rezar teu terço enquanto me olhava de soslaio, me apaixonei. Foi assim que comecei a ir sempre que podia lá na esperança de te ver.
- Parece que deu certo – responde ela sorrindo.
- Passei hoje ali na frente, não tem mais a capelinha. Tinha esquecido que aos pouquinhos foram parando de ir nela, que ninguém mais cuidava dela. Agora tem uma igreja de crente. Sabia disso, da igreja e da capelinha, mas só hoje eu me dei conta que esse lugar tão importante já nem existe mais.
- Talvez por isso, porque foi devagarinho, aos pouquinhos como tu disse, dai a gente não se dá conta.
O silêncio se fez na cozinha. Com um gesto ele dá a entender que
era para Rose pegar a papelada que Ezequiel tinha entregado. Pegou
uma caneta, botou os óculos que praticamente nunca usava e com sua
mão tremula assinou seu nome e rubricou cada uma das páginas.
Soltou a caneta com desdém e Rose recebeu um forte beijo. Assim que
ela abriu os olhos percebeu que lágrimas escorriam dos olhos de Ivo.
Sua cara estava vermelha. Ele fez com a mão para que ela não visse
a cena. Ela conhecendo bem o marido, faz um carinho na cabeça e sobe
para o quarto. Fingia dormir quando ele entrou coisa de meia hora
depois. A abraçou e dormiram até tarde.
No sábado e no domingo os dois passearam por toda a redondeza. Fazia
tanto tempo que não faziam isso que pareciam estar desbravando a
vila onde nasceram novamente. Segunda bem cedo, enquanto tomavam o
café Ivo joga pesadamente os papéis sobre a mesa:
- Vá você, porque eu não consigo. Assinei meu atestado de óbito.
- Não diga isso homem!
- Quando demolirem a casa para construir uma mansão, na qual eu nunca poderei entrar, tendo um dono que nunca vi, demolirão mais do que o tijolo.
No caminho para a cidade Rose compreendeu tudo que seu marido disse,
até porque ele chorava. No caminho percebeu que muita coisa havia
acabado, não mudado, mas acabado. Junto com as casas e as pessoas,
toda uma vila começava a ser enterrada, e o dolorido era o
esquecimento e desprezo por um passado que um dia fora tão belo,
“insensíveis”, pensou ela, “e ainda oferecem uma quantia de
dinheiro que homem algum pode negar”. Junto com cada tijolo, a
lembrança só restava na memória.
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