terça-feira, 28 de outubro de 2014

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Faz tanto tempo que eu te amo




Faz tanto tempo que eu te amo
que da última vez que eu te vi sorri na alma
Meu corpo inteiro esquentou e estremeceu
meus dedos cegos te procuravam no tato

 e tudo que eu precisava era me apaixonar

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Medicina e a alternativa

Walentin Aleksandrovitch Serow


Ninguém mais sabia direito o que fazer, o garoto continuava com suas dores fortes no estômago. O médico de confiança da família o examinou, tiraram raio x, endoscopia e nada podia ser identificado pela moderna medicina. Num momento de desespero a mãe pergunta ao médico, “e pode haver alguma solução para tudo isto?”, ele raciocina e muito complacente responde, “não se preocupe, confie na ciência, acharemos alguma solução para o caso de seu filho, ademais não lidamos com algo tão crítico, fique tranquila pois nada indica que ele irá morrer ou algo do tipo”. Isto já era sabido havia muito tempo, para essa resposta não era necessário um médico, por isso a criança desabafa, “mas mãe, essa dorzinha me incomoda”, e este era o problema, o incômodo em sua barriga, dentro de si, que não sossegava.
Quando saem do consultório em direção ao carro, a mãe caminhava determinada, voltam para casa sem dizer nada, pois não havia o que ser dito, afinal a criança não morreria, isto já era claro para todos havia muito tempo. Chegando em casa a mãe telefona para sua mãe, falava com a avó da criança, “Sabes me dizer se ela atende ainda?”, podendo ouvir apenas um lado da linha, algum tempo depois a conversa segue com, “ah, sim, ali do lado do posto de saúde, uma rua depois, sei onde fica”, a conversa seguiu mais um pouco terminando com, “ah, o Roberto não pode saber, ele não acredita nessas coisas”. E não acreditava mesmo. Roberto era formado numa universidade de prestígio, exercendo um cargo de prestígio e muito esforçado e competente, é verdade, mas sua única crença era na ciência e no que ela poderia dizer. É importante frisar que Roberto não faria muito mais que esbravejar caso soubesse, haveria no máximo um discussão entre o casal, mas e o incômodo de tudo isso? Como ficava a criança no meio dos dois gigantes adultos preguejando? Melhor era manter as coisas na surdina mesmo.
O tempo do dia ainda permitia que fossem, mãe e filho entram no carro, o local era um pouco mais à periferia do que onde moravam, algumas casas coloridas e multifacetadas pintavam o morro, ali entre casas de muro alto, outras de muro baixo estava uma casinha de madeira, que parecia estar ali desde o tempo em que soprava o vento. Havia um banquinho onde as pessoas estavam sentadas, como que fazendo fila. Os dois sentam ali e a mãe avisa para esperar, como se restasse alguma escolha para a pobre criança. Sua mãe encontra uma conhecida alguns minutos depois de se sentarem, parecia ser uma amiga de algum tempo atrás, ela também trazia seu filho, as duas compartiam um sorriso de conivência, deixando no ar que faziam algo escondido. Conversaram, cada uma explicando os eventos que as levou até ali, ambas estavam com algo incomodando seu filho, ambas haviam tentado o médico algumas vezes, ambas vinham sem o consentimento de seus maridos, por sinal o marido da amiga da mãe do filho, era casada com um médico irmão do médico de confiança da família, saca? Baixando cada vez mais o tom, a conversa das duas ganhava como pauta o mal-estar das crianças e a discordância dos maridos, chegando ao final num sussurro baixo, em alemão colonial, arrematando o diálogo com ambas balançando a cabeça em gesto afirmativo deixando no ar uma dúvida sobre o que haviam dito. Tão logo esta língua desconhecida era pronunciada, chegava a vez deles.
A mãe vai com seu filho para dentro, o lugar era notadamente mais escuro que o lado de fora, o sol penetrava mais fraco ali dentro daquele quartinho com uma vela acesa num canto próximo a imagem de um santo. A benzedeira toca na testa da criança, sua mão leve vai para a barriga, o que leva a benzedeira a perguntar algo para a mãe que é confirmado por ela com o mesmo movimento assertivo de havia pouco. A passos calmos pega uma linha num canto da sala, cortada habilmente com auxilio da vela. Sussurrando palavras incompreensíveis para a criança, a linha passeia pelo corpo, indo para lugares estratégicos. Depois fazendo movimentos no ar e mantendo seus sussurros, a criança termina sua benzedura. A mãe agradece, deixa um agrado para a benzedeira, que muito maquinalmente dá seus agradecimentos e guarda o dinheiro entregue pela mãe num bolso da roupa.
Sem entender nada do que havia acontecido, a criança volta para casa com sua mãe, o fim da tarde já acontecia. Tomam seu café, ele é liberado para assistir o seu desenho na televisão, toma seu banho e dorme um pouco mais cedo do que o habitual. Para seu pai não fora dito nada, mas parecia que naquela noite ele conseguia dormir mais tranquilo, o incômodo havia sumido junto com o sono.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O sentido da esquerda ou, Não estou nessa pra pegar mulher


Estamos esquecendo do mais importante, as mulheres (e os homens) não são “seduzidos” pelos discursos da esquerda devido a sua malícia ou o mero conforto, essa aceitação do discurso de esquerda ocorre porque estes discursos fazem sentido. Quando é dito “que é necessário libertar seu corpo do julgo patriarcal”, a reverberação disso entre as mulheres ocorre não pelo fato de que supostamente é chique ser feminista, mas porque faz sentido ser feminista. Afinal, as mulheres (e os homens) são ainda hoje vítimas do machismo, e aceitam esse discurso “de esquerda” por fazer sentido a sua existência. Não houvesse essa pressão sobre o corpo feminino, propagandas como as do iogurte-gostoso-que-te-ajuda-a-ir-no-banheiro, não seriam direcionadas a um público tão específico de mulheres, donas de casa e mães. Se não houvesse machismo este produto talvez nem fosse necessário, pois mulheres se libertariam da pressão de serem bonitas, lindas e perfeitas vinte e quatro horas. Pode parecer exagero, mas não havendo esta pressão sobre o corpo cobrando toda essa beleza, o estomago, nosso velho coração segundo os gregos antigos, funcionaria melhor, mais livre, e quiçá um produto assim fosse dispensável, ou não teria um foco tão grande em mulheres, donas de casa e mães.
Não há sedução ou malícia alguma no discurso de esquerda, há sim algo próximo ao bom senso e a razão. E se as pessoas aceitam estes discursos (plural, pois são vários), é porque eles tem um sentido na vida dessas pessoas. Negar isso seria ignorar a autonomia e liberdade que nós seres humanos temos. E da mesma forma que o brasileiro adotou uma série de americanizações também pelo fato da cultura estadunidense ser rica e interessante, o discurso de esquerda passa pelo mesmo – a diferença é que a esquerda não é gerida por um escritório central, muito menos é financiada por ricos lobistas como ocorreu no processo de americanização do Brasil, que fique claro! O ponto chave é, o discurso de esquerda é confortável, mas não por te ajudar a “pegar mulher”, por ser mais fácil ou de maior aceitação social, mas sim por te ajudar a viver de uma forma mais livre e sensata, até porque deixar de ver a mulher como um objeto que pode ser pego e usado, pode proporcionar ao homem toda uma nova gama de experiências ótimas com ela(s), e que podem ser muito produtivas e prazerosas para ambos. Até porque um dos maiores problemas para a família hoje em dia é todo o peso de uma normatividade que não faz mais sentido.
Diferente do que parece ocorrer entre certos adeptos do discurso de direita, que mesmo sozinhos e indesejados pelo sexo oposto, não abrem mão de sua individualidade e verdade, os discursos de esquerda fazem algum sucesso entre mulheres e homens porque dizem para essas pessoas que elas não estão erradas. Não estão erradas por serem indígenas, afrodescendentes, mulheres, uma pessoa que não quer ser milionária, homossexual ou pobre, e isto é muito bom, saber que você não é errado, não é uma peça estragada dentro da rígida máquina que é a sociedade. No fim das contas, enxergar a sociedade como algo mais desenvolvido e humano do que uma máquina, onde cada pessoa tem seu lugar estático, onde o negro deve continuar segregado, o índio ignorado, a mulher oprimida, o gay como motivo de piada e violência, o pobre ao Deus dará e todos devem almejar ser um Eike Batista ou Warren Buffet senão estão errados, isso é algo muito bom e libertador sim, mas não por ser fácil, mas por fazer sentido a nossa vida.

sábado, 8 de março de 2014

História de verão 3

León Bakst
          Parecia que eu havia desistido de viver naquele verão. Não foi só por causa de ter pego recuperação final pela primeira vez na minha vida, ou pelo fato de que tudo parecia estar dando errado conforme o clima ia esquentando. Meu pai havia perguntado para mim cinco meses atrás se eu realmente gostava de tocar violoncelo, sem pensar respondi que sim. Agora, final de ano nós não iriamos para a praia como de costume e tanto meu pai quanto minha mãe já haviam avisado que eu ficaria sem presente de natal. Como as aulas de violoncelo continuariam, eu havia entendido tudo.
           Óbvio que todo estre drama começou depois que eu havia ido na escola saber a fatídica resposta para a pergunta: “vou repetir de série ou não?”. Lembro que as ruas pareciam estar mais vazias do que o normal, o calor devia estar afastando elas da rua, além disso muita gente já estava indo para o litoral. Eu sempre achava um saco, mas percebia devagarinho que era muito mais prazeroso reclamar de algo que se possui. Além das ruas vazias não dava pra sentir aquele cheiro de almoço sendo feito nas casas. Fui até o local onde era a minha sala, esperei o colega que estava ali dentro conversando com a professora terminar. Ele saiu sério, não me cumprimentou, não éramos chegados. Entrei cabisbaixo, como se meu comportamento naquele momento poderia reaver uma decisão já tomada, sentei na cadeira posta de frente a mesa da professora e assim que minhas nádegas encostaram na madeira ainda quente ela disparou: “Você quer passar de ano?”. Aquelas palavras foram suficientes para me gelar a espinha a tal ponto que minha cabeça mexeu levemente em sinal afirmativo, isto não foi o suficiente, tão logo respondi ela continuou: “Você deveria ter tomado mais cuidado, pegar recuperação assim, sem nunca ter pego nenhuma vez na tua vida Walter. O pior é que já tive alguns alunos meus que aconteceu isso, eram excelentes e depois, começam a brincar e repetem de ano. Mas isso Walter, o resultado que nós temos aqui”, dizia ela enquanto balançava o papel que parecia ser meu boletim com o veredicto, “o resultado que nós temos aqui é trabalho de um ano inteiro está bem?”. Ela me entrega o boletim e antes mesmo que eu pudesse manifestar algo, eu tinha percebido que havia passado de ano. Quando sai pela porta ainda amortecido pela situação a professora soltou, “boas férias”.
          Quando sai do colégio o babaca que não havia me cumprimentado antes foi o primeiro a perguntar, “eai, passou?”. Fiz que sim com a cabeça e continuei andando, não o suportava, pois ele queria se levantar colocando os outros para baixo, provavelmente pediria para ver minhas notas e falaria de alguém que tirou mais do que eu caso esta pessoa não fosse ele. No portão da escola encontrei a Gabriela entrando no pátio, nos cruzamos e ela perguntou sorridente logo após o beijo na bochecha – que nunca antes na minha vida me fora dado por ela – se eu havia passado de ano. Respondi que sim e ela me correspondeu com um sorriso, e tão logo surgiu, ela já foi saber o seu resultado enquanto eu notava pela primeira vez que ela tinha uma beleza ímpar e que talvez por isso eu nunca havia dado muita atenção para Gabriela. Não sei porque, mas tive vontade de esperá-la. Para não bancar o apaixonado, o que eu me recusava por sinal, fui conversar com o purgante para matar tempo. Foi ai que eu tive a genial ideia de fazer com ele o que sempre era feito comigo. Olhei suas notas, todas menores que as minhas, ri dele, critiquei-o, comparei suas notas com a de algum aluno que havia passado direto, para piorar falei de suas roupas, ele usava um boné chamativo, e por isso não era difícil usar seu ponto forte como um ponto fraco.
          No instante que eu vi Gabriela andando pelo pátio, fui falar com ela, pouco me importava sua resposta, só queria ouvir sua voz. Ela, assim como eu, havia passado de ano. Mantendo a conversa fomos saindo da escola, caminhando pela rua vazia, sem vento, apenas o sol nos castigando. Quando paramos na esquina de sua casa eu perguntei: “você também vai ficar aqui este fim de ano?”, e ela respondeu “sim, meus pais só vão poder ir para praia no carnaval”. Disse que seriamos só eu e ela então, ela sorriu, abaixou a cabeça e tremia um pouco, eu como já estava no ápice de minha coragem estava a ponto de desmontar e virar uma pilha de ossos na calçada. Em apenas cinco minutos, desde o beijo na bochecha até aquele momento, eu me apaixonara por ela. Dava para sentir que o nervosismo dela era o mesmo que o meu. Sem mais nem menos ficamos em silêncio, que foi interrompido por um beijo ligeiro de despedida.
          Não queria saber de nada nem de ninguém. Fiquei dois dias pensando em como poderia ser minha vida dali para a frente, as possibilidades eram variadas, desde empresário ou diplomata até traficante ou assaltante de bancos. Não conhecia nenhum traficante que era algo mais do que um imbecil e os bancos tinham tanta segurança que seria uma armadilha assalta-los. Esta brincadeira de supor coisas sobre mim logo cansaram, por isso me entreguei a leitura e a audição de música. Acho que foi naquele verão que conheci bandas como Doors, David Bowie, Sex Pistols, Rolling Stones, Pink Floyd e Mutantes. Como acabei passando muito tempo no computador resolvi contatar Gabriela para saber como as coisas estavam. Acho que de todo o pessoal, apenas eu e ela estávamos na cidade. Quando a chamei, mesmo sendo de madrugada ela me respondeu. Ficamos conversando até duas horas da manhã. Na noite seguinte foi a mesma coisa. Precisei de mais duas noites de conversas sem fim para lhe intimar a fazermos algo no dia seguinte, pela tarde. Inventei que poderíamos passear de bicicleta, que eu conhecia um lugar legal. Contra os avisos de minha mãe por volta de 15:30h eu já estava na mesma esquina onde havíamos nos despedido dias antes, e como o combinado ela estava lá. Sem trocar palavras fomos indo até o local, no caminho passamos na frente do mercado e eu vi o imbecil do qual eu não gostava, ele me viu, olhos nos olhos, nenhum cumprimentou o outro. Aquilo me afligiu, pois logo todos saberiam que Walter e Gabriela pedalavam juntos e minha paciência estava cada vez mais curta. Pouco antes de chegar no lugar me toquei de que as aulas demorariam para começar e que talvez até elas voltarem já não me incomodariam tanto.
          O lugar era um terreno com barro espalhado de maneira a formar alguns relevos, o que era legal para andar de bicicleta, tanto eu quanto Gabriela demos algumas voltas, foi então que ela se cansou e foi se sentar embaixo de uma árvore. Eu percebi que ela estava ali, mas mesmo assim dei mais algumas voltas de bicicleta até parar de frente a ela e dizer: “vamos andar Gabriela”, ela sorrindo me disse que estava cansada e então larguei minha bicicleta e me sentei de seu lado. Trocamos trivialidades sobre o verão, “vai chover hoje”, “acho que chega aos quarenta graus”, até sermos atingidos por um silêncio que eu viria a conhecer muito bem ao longo de minha vida. Nós dois estávamos calados e mexíamos nervosamente nossas mãos. Quando aproximei minha face para falar algo fui recebido por um beijo nervoso em meus lábios. Estranhamente eu esperava por aquilo, e logo retribui o carinho. Ficamos alguns minutos se beijando e depois dei um abraço em Gabriela, com vontade e receio de encostar nela, pois, lhes digo, era meu primeiro beijo. O sorriso parecia começar nas minhas orelhas de tão grande que estava. Ela por sua vez, parecia querer contar alguma sensação que até hoje não sei qual é. Depois daquela tarde voltamos cada um para sua casa e fiquei pensando na tarde maravilhosa que eu tivera – ou melhor, no beijo. Quando convidei Gabriela numa de nossas conversas da madrugada na internet ela havia me dito que não daria pois tinha um compromisso sério, não explicou mais nada e eu evitei pedir por detalhes. Naquela tarde em que as ruas pareciam vazias fui até o mercado buscar leite, e ao sair do lugar vi Gabriela abraçada com o boçal da mesma forma que ela se abraçara comigo um dia antes, entendi então que ele era o compromisso sério.

sábado, 4 de janeiro de 2014

História de verão: 2


Fim de ano sempre foi um saco, parece que as pessoas da cidade inteira deixam para dezembro tudo que não fizeram o ano inteiro. O trânsito de fim de ano piorava drasticamente em relação ao ano inteiro e, já nos dava uma prévia de como seria o tráfico no ano que vem. Entre tantas coisas dando errado, consegui sair do trabalho dez minutos mais cedo e pegar o ônibus vinte e cinco minutos antes do habitual. É incrível como por causa de alguns minutos você ganha meia hora de bônus no seu dia. Meus fones de ouvido já haviam sido danificados pela manhã, saindo som apenas pelo fone esquerdo, o que causa um desagrado gigantesco aos ouvidos, preferia ficar sem música do que ouvi-la mal.
Além de chegar mais cedo por causa desses cinco minutos, eu havia pego um ônibus mais vazio com lugares para sentar. Ainda pegaria engarrafamento, porém menos e chegaria a tempo de pegar o ônibus e com isso chegar em casa meia hora mais cedo. Como fazia tempo que não entrava num ônibus sem meus fones, comecei a escutar os sons ao meu redor. Um sujeito no fundo conversava em monólogo com um sujeito que apenas assentia com sua cabeça, “ali eu trabalhei já”, “nesse eu fiz a parte elétrica”, “aquele outro fiz todo o porcelanato”, conclui de que deveria ser algum trabalhador da construção civil. Aqui e ali uma conversa ou outra sobre o que seria feito no natal. No banco da frente um sujeito com pinta de moderninho mexia em seu celular gigante e sem perceber me pegava lendo seus conversas intimas no celular. Nada demais estava ali.
Quando cheguei ao terminal ainda faltavam quinze minutos para meu ônibus. Geralmente ficava lendo ou ouvindo música, mas desta vez para minha surpresa haviam dois velhinhos trajados de caipiras, com direito a bota, chapéu e camiseta xadrez tocando modas de viola. Um caixinha amplificava a viola e o resto (violão e as duas vozes) saiam de forma acústica. Eu absolutamente não conheço nada de música sertaneja, mas nos últimos anos havia ampliado meus ouvidos para outros ritmos, já que os de sempre me cansam. É bonito afinal, um bom tipo de música, parece mais pura do que as que tocam nas rádios. Como não é todo dia que se pode ouvir uma música de raiz assim, num ambiente tão inusitado como um terminal de ônibus em uma cidadezinha úmida, sentei perto e comecei a ouvi-los.
Em princípio havia apenas uma moedinha por cima da caixinha ao lado dos cartões de visita da dupla (nem tão de raiz assim, concluí). Aos poucos um círculo foi se formando em volta deles, uma mulher bateu palmas, um sujeito sorriu para eles e deixou umas moedas que foram retribuídas com um obrigado pelo violeiro. Pouco a pouco pessoas apressadas passavam por ali e outras que esperavam seus ônibus ouviam e deixavam moedas e notas baixas de dois ou até mesmo cinco reais. No meio de uma semana toda errada e acompanhada pelo azar, nada melhor parecia me acontecer depois de sair mais cedo do serviço. Foi então que ela apareceu.
Quando a vi ela chamou minha atenção, mas não muita, confesso. Era apenas pelos seus dotes físicos. Ela me parecia uma daquelas garotas que acreditam viver em Nova York ou Londres, mesmo que sua cidade natal seja no interior de um país marcado pelas desigualdades sociais e um racismo velado. Ela ouvia música em seus fones e carregava um livro em sua mão. Sua calça era justa e marcava bem sua bunda, que era grande e bonita, farta. Seu tronco combinava com a fartura das nádegas, algumas pessoas menos atentas podem dizer que ela é gordinha, mas entendo que isto não passa de falta de visão, de pouca paixão pelo sexo e pelas mulheres. Seus cabelos eram longos e negros, com algumas pequenas manchas fracas de tinta no cabelo. Sua blusa era levemente folgada, com um dos ombros desnudos, deixando um lindo pedaço de sua pele a mostra. Seus óculos escuros davam um nítido ar de mistério. Reparei nela e nisto tudo assim que, enquanto caminhava ela parou de andar, tirou seus fones de ouvido, fechou seu livro e olhou para os dois velhinhos tocando viola. Imaginei que pela cara de “garota moderna que escuta rock”, acabaria fazendo alguma careta, botaria os fones e sairia andando. Concluo agora que julguei-a por mim e que nada disso ocorreu, posso lhe afirmar que o que vi afinal de contas fora um show hipnótico. Com seus delicados dedos mexeu na sua bolsa, dali tirou sua carteira e caminhando até os dois senhores depositou uma nota de vinte reais. Todos olharam, todos a notaram, mas por deixar vinte reais ali, enquanto eu fiquei encantado por tudo, desde seus cabelos e a curvatura de sua coluna e pernas ao depositar os vinte reais sobre a caixinha. Até mesmo seus cabelos que tinham uma lateral raspada, algo que eu sempre desprezara, me criaram encanto naquela ocasião. Seu corpo era carnudo, apetitoso, sua postura a de uma mulher livre e independente, sua aparência serena, tudo que poderia me ocorrer era ficar pensando nela durante algumas horas. Quando ela deixou o dinheiro e foi embora sem seus fones para ouvir os dois velhinhos, quis ir andando atrás dela, pegar o mesmo ônibus e descobrir onde ela mora, ou quem sabe algo menos psicótico e só esbarrar de propósito para tentar puxar assunto, quem sabe apenas tocar em seu ombro e dizer o quão poético fora sua aparição, que eu a desprezara a primeira vista, mas que depois de tudo eu estava apaixonado pois ela parecia ser uma mulher forte, independente e livre. Quanto a esses elementos todos, meu coração não poderia resistir.
Talvez ela risse, talvez voltasse a colocar seus fones, talvez fossemos beber algo em qualquer lugar ali perto. Só sei que conforme ela se afastava de minha visão para nunca mais ser vista em minha vida, eu ainda hesitava em pegar as minhas duas moedas que haviam na carteira para deixar aos dois senhores trovadores, algo que me acometia desde que os havia notado. Ainda pensando nela e hesitando minhas pobres moedas, entrei no ônibus e fui embora.

domingo, 15 de dezembro de 2013

História de verão: 1

      

A consciência lhe atacou, “já faz praticamente um ano”, os aniversários afinal, servem para que lembremos. Agora todo aquele passado parecia irreal. Não foi profundo o que ele tivera com ela, mas ele gostou do pouco que aconteceu, foi divertido, foi bom. O frio na barriga é algo que faz a gente continuar vivo. O engraçado é que os dois nunca chegaram se quer a começar algo, não deu tempo, não deu certo, por mais que tudo parecesse indicar para isso. Depois, por milhares de coisas miúdas – e outras nem tanto – qualquer possibilidade de se beijarem de novo se esvaiu, evaporou. Acabou. E como sempre, sem perceber nunca mais se viram, eles que se viam tanto, rocando mensagens, ou conversando no telefone, mesmo com ele odiando conversas no telefone.
Depois de todo este tempo comentou com seu amigo enquanto se perdiam num bar da cidade: “queria falar com ela”, seu amigo pergunta de forma espantada:
  • porquê?
  • Ora, e eu sei lá, queria conversar.
  • Mas sobre o que?
  • Não sei, pedir desculpas.
  • Mas tu fez alguma coisa de errado?
  • Não, nada, e nem ela pra mim.
  • Então porque pedir desculpas?
  • É que eu me sinto um idiota, acho que por isso.
  • Não, o que tu queria era uma desculpa para conversar com ela.
  • É, vai ver é isso mesmo. Sabe que pensando agora o que mais sinto saudade era disso, conversar com ela. Não que fossem horríveis nossos beijos, mas não sinto falta deles.
Certo dia enquanto passava na frente da casa dela pensou em apertar o interfone para ver se ela estava em casa, ponderou o quão bizarro isto seria, o que ele faria? Por fim imaginou que ela poderia entender que ele estava apaixonado por ela, que a amava loucamente, e não queria causar uma impressão errada, como não lembrava o número, seguiu seu caminho em linha reta.
Meses depois a viu na rodiviária, estava cheio pois já era fim de ano, bem entre o natal e o ano novo, um alvoroço tudo aquilo. Seus olhos a haviam visto, mas ela parecia entretida com seus pés balançando no banco. Seu coração disparou, parecia atingido por algo que lhe gelava a coluna. Por fim abaixou a cabeça e fingindo não a ter visto passou próximo a ela. A garota nem o chamou, e ele não sabia se ela fazia o mesmo ou simplesmente não o havia visto. Nunca mais pensou nela.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Do socialismo: hoje

 
Foto de guerrilheiro partisan
Qual o sentido de ser socialista hoje em dia? Como disse Saramago certa vez, “sou socialista de espírito”, e ele prosseguiu afirmando que provavelmente nunca fez tanto sentido ser socialista quanto nos tempos atuais. Ser socialista não significa necessariamente integrar nenhum partido, nem é obrigatório apoiar algum regime. Ser socialista está muito mais ligado a sua inconformação com a pobreza no mundo, mesmo que o mundo tenha deixado faz muito tempo de ser um lugar pobre. Ainda existem pessoas passando fome, e não é pela falta de comida, é pelo não acesso a comida. Muitas vezes por motivos que elas não tem poder de interferir. O Brasil está entre os dez países mais ricos do mundo, e isso não é de hoje apesar de todo o alarde do sexto maior PIB mundial, continuamos morando em favelas, pegando ônibus lotado, enfrentando engarrafamentos, tendo uma dificuldade enorme para coisas simples como usar hospitais, pegar um livro na biblioteca pública, pesquisar no arquivo histórico, passear no parque, tomar um café num Café (igual Paris ou Buenos Aires), ler um livro neste Café ou parque e, o mais preocupante, ir nestes lugares de bicicleta – e não de carro e não num Shopping Center e não gastando muito dinheiro. A pergunta é: estamos mais ricos e melhorou nossa economia, mas melhorou pra quem?
Hoje, mais do que nos tempos de Saint Simon, H. G. Wells ou Fourier, a pobreza é um problema de distribuição mais do que de produção. Riqueza existe, mas ela não chega de uma maneira igualitária para todas as pessoas.
Algum sujeito já deve estar escrevendo GULAG – em caps lock – e me acusando das coisas terríveis que Stálin ou o Khmer vermelho fizeram. Não sou eles, assim como espero que o sujeito que defende o neoliberalismo não seja ou concorde com Pinochet, já que seu regime ditatorial foi um dos primeiros a adotar as premissas da escola de Chicago, nem com os militares que impuseram uma ditadura no Brasil até 1985 com o intuito de nos “salvar do comunismo” e manter capitalismo - mesmo sendo Jango tão capitalista quanto Juscelino, ambos perseguidos pela ditadura. E tão pouco com o regime nada democrático na irmã sulista da Coréia do Norte, a Coréia do Sul, que até pouco tempo adotava uma democracia nada clara ou participativa – porém apoiada pelos EUA. Da mesma forma que você não concorda com a censura na ditadura militar brasileira, eu jamais concordei com a censura na antiga URSS, assim como desprezo o monopólio da imprensa brasileira e o fato de só haver um único jornal em Cuba, controlado pelo governo. Sejamos sinceros, tanto o socialismo quanto o capitalismo já houveram e ainda ocorrem ditaduras em seu nome. Você entende que um católico não precisa concordar com a inquisição para ser católico, e nem tão pouco ele seja um oficial da inquisição ao se declarar católico, por que pensar isso então de um socialista?
Outro ataque comum, que até já rendeu livro pode ser: “mas como assim, você é socialista, porém sempre estudou em colégio particular, tem uma boa casa, vive bem, não pode!”, associando o socialismo (e afins) a pobreza, a miséria, porém é justamente isto que se busca resolver, as mazelas do mundo, acabar com a pobreza, não reproduzi-la. Socialistas, diferente de monges franciscanos, em momento algum fazem voto de pobreza. Por sinal, caso você não saiba a ideia do socialismo é justamente acabar com a pobreza.
Outro ataque comum é pegar elementos pessoais, como se o sujeito é separado, ou fuma maconha. Utilizar este argumento é nada mais do que combater o lado pessoal e não a teoria em si, dizer “socialista é maconheiro” é tão relevante para o socialismo quanto, “capitalistas não dão esmolas” é para o capitalismo. É um argumento tão importante quanto saber a posição sexual favorita, que por mais que você deseje isso, não muda uma linha de qualquer escrito de Plekhanov, por mais que você insista em tentar. No máximo desvia-se o foco para coisas fúteis como o corte de cabelo, o modelo da roupa, a quantidade de água que bebe por dia...
Por mais que se tente demonstrar que experiências como a URSS deram errado, não podemos esquecer que a crise de 1929 não acabou com o ideal capitalista, nem tão pouco a crise recente conseguiu, e ninguém fala que “o capitalismo deu errado”, mas sim que ele se renovou. Assim como o capitalismo não é o mesmo do século XIX o socialismo não é o mesmo que era praticado no século passado. Da mesma forma, problemas e mais problemas continuam existindo no mundo capitalista, por mais que o discurso de “derrota do comunismo” tente esconder e propagar uma visão de paraíso na terra. E assim como o “comunismo nunca foi alcançado”, o capitalismo que temos agora pode deixar Hayek, Mises ou Smith de cabelo em pé! E é tão cheio de contradições quanto qualquer outra teoria que busque entender ou organizar a sociedade.
Outro argumento cansativo é o de que tudo isto seria apenas uma utopia. Bem, quando se pensou a primeira vez em viajar no espaço, também era uma utopia, quando se pensou em um comunicador de voz e imagem, isto também era uma utopia. A cura do câncer ainda é, a cura da AIDS também, porque só a minha utopia não vale? Já tentaram curar a AIDS mas não conseguiram, por isso vamos desistir?1
Como dito no começo, acreditar numa utopia nunca fez tanto sentido. E não temos muitos ataques contundentes contra um ideal que faz tanto sentido as nossas crenças atuais. Acreditamos que deve haver uma distribuição melhor da riqueza, que escolher o que ser da vida dependa de elementos relevantes como seu empenho e não sua condição para pagar seus estudos, que sua cor da pele ou conta bancária não sejam um pré-requisito para ser atendido no hospital, que devido ao seu trabalho você possa ter um lazer e descanso dignos, que a fome deixa de ser uma imposição para tantas pessoas, assim como a desigualdade. O mais absurdo de todos estes males é que temos tecnologia para isso, já pode ser feito, é possível, cabe agora acreditar.

1Cabe ilustrar aqui que acredito que a cura para muitas doenças poderiam ser possíveis, porém acabam não chamando a atenção da indústria farmacêutica.

sábado, 9 de novembro de 2013

Ubuntu-Linux e o uso de Softwares livres (uma visão política)


Fazem quase dois anos que utilizo Ubuntu-Linux em meu PC. Quando comecei a cogitar de forma séria migrar para o Linux várias pessoas diziam que eu iria me arrepender. Mesmo assim, outras pessoas não me diziam isso e que a melhor forma de saber algo era tentando e experimentando (se arriscando). Acabei escolhendo a aventura e testei o Ubuntu e o Linux Mint, me decidi pelo primeiro – do qual sigo usando. Minha conclusão hoje, quase dois anos depois é a de que eu não me arrependo em nada, pelo contrário, defendo o uso do Linux e pretendo nunca mais usar Windows num computador meu.
Fazia muito tempo que ouvia falar sobre o tal do Linux, vez por outra aquele pinguinzinho aparecia em algum lugar para provocar. Algumas lendas acompanhavam os boatos sobre o Linux: “não trava”, “não pega vírus”, é mais rápido”, “linha de comando”. Porém o que me seduziu de vez para o mundo do software livre foi quando comprei um computador e ele veio com Windows 7 Starter junto. Ora, a primeira coisa que você quer fazer quando tem um PC (Personal Computer) é personalizá-lo não é mesmo? Porém a versão mais leve e barata do Win7 não permite ao usuário modificar coisas básicas como sua aparência. Existem programas e gambiarras para quebrar este bloqueio todo, verdade, mas minha experiência diz que esses programas e gambiarras que prometem maravilhas só estragam e travam mais ainda seu computador.
 O que ocorreu é que eu utilizava o software mais comum entre os computadores1, havia pago por isso (é preciso uma licença), não fui consultado a respeito do software que haveria no meu PC na hora de realizar a compra (pô, não é pessoal?), isso sem falar em toda uma série de restrições a um produto que é meu (desde o hardware até o software). Pode parecer exagero, mas isto só deixou claro para mim como as relações de exploração capitalista funcionam. Mesmo que a Canonical (empresa desenvolvedora do Ubuntu) seja também capitalista, e não há dúvidas sobre isso, ela me permite uma liberdade muito maior em relação ao meu computador pessoal.
Ocorreu que poucos meses depois do teste inicial, aboli de vez o uso do Windows e qualquer programa da Microsoft em meu computador e minha vida segue feliz da vida com o Ubuntu-Linux. Admito que é ótimo não se preocupar com vírus e desfragmentação de disco, além disso existem programas equivalentes, livres e gratuitos para tudo que eu preciso no meu computador (navegar na internet, ouvir música, assistir vídeos, editar textos), alguns até melhores do que os pagos da Microsoft, a exemplo do VLC e comparação com o Windows Media Player. Os bugs não são recorrentes2 e há quase dois anos não dependo de assistência técnica. Quando necessário eu mesmo formato ou corrijo qualquer problema no meu PC, já que a maioria deles são simples e a comunidade Ubuntu bem atuante.
Linux é bem mais “faça você mesmo”, o único empecilho para as pessoas (acomodadas), já que nada mais do que a vontade de aprender resolva.
Mesmo que uma série de possibilidades colocadas aqui (desde não pagar pelo Software até você realizar a manutenção do seu computador) sejam também possíveis no Windows, vejo no Linux uma abertura bem maior e sincera para isso, até porque a ideia do Linux é justamente esta. Por exemplo, há uma tendência comum da Microsoft em vender primeiro uma “versão de teste” e depois lançar a “versão definitiva”. Por exemplo, quando lançaram o primeiro Windows, ele era apenas um programa para o DOS, fizeram assim para não ficar pra trás na concorrência, ou seja, seus lucros ficaram acima da qualidade do produto vendido. Depois tivemos o Win98, que até pouco tempo atrás era a base do Windows, tendo várias versões “de teste” até chegarem no XP (alguém lembra do WinMillenium?). O WinXP era baita bala, um Win98 moderninho, adaptado para os anos 2000, mas não demorou muito lançam o Vista, que nada mais foi do que uma bomba de testes para o Win7 – que traz algumas mudanças conceituais importantes, que já vinham sendo utilizadas no Mac e Linux haviam alguns anos. Agora com o Win8, temos a chegada de uma nova interface para o usuário e novamente um produto experimental. O curioso é que a Microsoft garante muito de seu mercado pelo seu fator conservador, são sempre os últimos a se adaptarem as mudanças e creio que isto faça com que produzam softwares tão “confortáveis” de utilizar.
  O que quero colocar afinal, é que existe um lado político (mesmo que não seja o mais importante) no uso de seu PC. Ele ocorre pelo que você faz com ele, seja baixar músicas ignorando as atuais leis de direitos autorais3, escrevendo textos para um blogue que ninguém lê, ou utilizando softwares livres. A política está muito além dos partidos – creio que os partidos são a menor parte da política – está muito mais nas tuas ações do que no teu posicionamento4. É a velha história do cara que vai na passeata contra a corrupção e depois compra produtos falsificados, ou defender o liberalismo e estudar numa universidade pública. Quando se faz algo, você desenvolve relações, as relações é que geram o jogo político, independente da esfera. E este motivo acaba sendo o principal que me leva a utilizar softwares livres ao máximo possível.

 
1Parece que 90% dos computadores utilizam alguma plataforma Windows, por isso a maior parcela dos vírus são para Windows, o que favorece para os boatos de que Linux e Mac não tem vírus.
2Apesar de que nos últimos anos a Microsoft conseguiu corrigir uma série de erros históricos do Windows.
3É importante colocar que boa parte das discussões a respeito do download de músicas na internet se baseiam numa reescrita das leis de direito autoral atuais, não um simples desprezo pelo direito autoral.
4Mesmo que teu posicionamento determine em muito as tuas ações.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Da educação - sua estrutura


Todo dia milhões de crianças e milhares de adultos são torturados em nome de algo muito importante e digno, porém que sabemos não surtir efeito algum. Os resultados disso vemos todo dia por ai em vários setores e de várias formas, desde o direto consumo de anti-depressivos até péssimos profissionais e pessoas privadas de um mínimo de cidadania. Pode parecer exagero, mas isto tudo está ligado a escola, seja de uma forma ou seja de outra.
O primeiro item a levarmos em consideração é o de que sim, uma educação é fundamental, seja pela formação de uma pessoa enquanto indivíduo, seja pelas necessidades do mercado de trabalho. O segundo item a ser levado em consideração, e este é muitas vezes esquecido, da forma que as escolas estão não tem mais jeito. Ainda seguimos um modelo criado nas entranhas da revolução francesa, e o resultado já sabemos: vê-se de tudo e não se aprende nada.
Devido a distância que mantemos da escola, acabamos esquecendo muitas vezes como ela é. Recordo de maneira rápida: torturante, angustiante, humilhante. Como durante a maior parte da minha vida fui aluno, acreditava que isto era algo restrito aos alunos, porém agora que sinto a experiência de professor lhes afirmo o óbvio que parece ser tão relevado: alunos e professores odeiam a escola. Entretanto alunos estão dispostos a aprender, não todos é verdade, mas muito deles estão. Porém fatores e mais fatores acabam desestimulando os alunos, e não é um professor mais “dinâmico” que vai resolver a situação. Até pelo fato de que entre a maior parcela dos professores podemos perceber uma vontade por lecionar, há um prazer nisso, mesmo sendo inegável a má formação de muitos professores. Eu me incluo entre estas pessoas que gostam de lecionar, mas sei que um dos meus maiores obstáculos toda vez que vou dar aulas é este formato torturante que não ensina nada a não ser criar um saco de paciência bem grande, a ficar quieto sentado, a controlar suas necessidades fisiológicas e a portar-se da forma habitual sob o menor sinal de autoridade – e isto vale para alunos e professores.
Para quem está faz algum tempo fora de uma sala de aula, lhes peço para recordarem como eram seus tempos de estudo, não da faculdade, da escola mesmo, ensinos fundamental e médio.
Cito um exemplo comum no campo empresarial; se temos um negócio que não está atingindo os lucros desejados as alternativas mais comuns são duas: ou fecha-se este empreendimento declarando sua falência, ou muda-se a forma com que tal negócio é empreendido. Ora, lhes pergunto, se a escola não funciona do jeito que está, porque insistimos nela? Abrir mão do ensino nós não queremos, por isso me questiono porque não acabamos com o formato de escola que ai está e criamos algo novo?
Sejamos sinceros, quarenta e cinco minutos não é tempo suficiente para se aprender algo, entretanto para quem não quer aprender, estes quarenta e cinco minutos são equivalentes a uma silenciosa tortura, e imagine noventa minutos. Sinto na pele uma diferença nítida, e lhes afirmo, são questões notáveis. Porque não temos uma divisão, que em vez de respeitar a lógica das idades (séries) respeite a lógica dos interesses (assuntos)? Quer aprender matemática financeira, vá assistir aulas de matemática financeira, quer aprender sobre a história da China antiga, vá ver aulas sobre a China antiga, se tem interesse em aprender latim que assista aulas de latim, e assim sucessivamente. Teremos alunos interessados, o que gera um empenho muito maior por parte dos alunos, tornando o ambiente de sala de aula mais confortável e produtivo para educandos e educadores. Isto óbvio, não poderia ser desde o princípio, uma base é importante, claro. Mas depois de certa idade, já temos uma noção do que gostamos ou não, do que queremos e do que não queremos. Tal necessidade de decisão por parte dos alunos já gera um desenvolvimento da maturidade, da responsabilidade.
Mesmo assim você pode fazer parte do clube que vê a escola com olhares conspirativos, “querem que o povo seja burro mesmo”, “isto serve apenas para formar mão de obra”, “é uma maneira de disciplinar o povo”. Afirmo que faço um olhar simpático (se é que não me incluo ai) para esta forma de olhar a escola. Instrumento de manipulação e continuam investindo nela, porque sim, ela vêm funcionando exatamente como “eles” querem. Concordo que este argumento é plausível, mas fica a questão: nós enquanto sociedade queremos o que? Atender índices para que o MEC não perca financiamentos do FMI e outras entidades internacionais ligadas ao capitalismo global que vivemos hoje em dia? Porque nenhum país, até mesmo Cuba que se propõem a outro formato de sociedade, tem um formato diferente de escola? Só para lembrar, escolas que adotam estes sistemas alternativos de ensino alcançam índices excelentes de aprendizado, vide experiências de autodidatas ou da escola da ponte.
De forma geral temos uma estrutural educacional estrangulada. Platão, Sócrates, Da Vinci, Copérnico, Tomás de Aquino e Bhaskara aprenderam, tiveram professores, e até podemos dizer que eles foram para escola, mas sem sombra de dúvidas ela não era neste formato que temos hoje.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sobre as manifestações de 2013 no Brasil


        Perdemos o foco, para além do genérico, pouco se sabe onde quer chegar. Tirar um presidente e colocar outro, a título de exemplo, pouco muda para melhor, e o mesmo vale para qualquer outro político, já que este mecanismo institucional pouco nos permite para além disso. Depender dele para a mudança não adianta, e o que as manifestações mais mostram é que tomamos - finalmente - consciência disso, nem que seja um pouquinho, sacamos ao menos que política é muito mais do que escolher um rosto bonito a cada dois anos. Falta querermos mudar nós mesmos.
       Falam em educação, corrupção, saúde e tantas outras coisas vitais, porém não olham para as questões mais próximas, não há foco. Não percebem por exemplo que defender a legalização da maconha seria uma forma fantástica de combater a corrupção gerada pelo tráfico e enfraqueceria ele como nunca. Além disso no Brasil a maconha acaba servindo de porta de entrada para outras drogas, pois sua proibição faz com que ela seja vendida no mesmo lugar que a cocaína, o crack, a merla e outras substâncias ALTAMENTE nocivas, seria legal acabar com isso. Fumar um baseado de vez em quando pode também sanar a "dependência" de muita gente em relação a anti-depressivos e outros tantos "estimulantes para a vida". De quebra podemos sanar problemas de segurança advindos do tráfico e talvez até mesmo de saúde. Mas pelo que vejo preferem cobrar moralidade, e pergunto, por que "MACONHEIRO" é xingamento? O mesmo vale para "viado" e por ai vai.
         A educação é o ponto que mais me incomoda, todo mundo fala que ela tem que melhorar - até o aluno "bagunceiro", que não presta atenção na aula, só faz piada - , mas a sugestão dada é sempre aumento da carga horária, mais aulas, mais matérias, mais tempo na escola, ou seja: MAIS BUROCRACIA. Burocracia não tem nada a ver com educação, burocracia foi inventada entre os governos de língua alemã de fins da idade média com vista em incrementar sua renda (restrita a uma coleta imprecisa de impostos e guerras). Platão, Sócrates, Da Vinci, Rafael, Tomás de Aquino, Galileu e tantos sujeitos que chamamos rotineiramente de "gênios" não foram para a Escola que temos hoje em dia, isso é tão certo quanto a gravidade. Sabemos que eles estudaram, não temos dúvida sobre isso, e poucas vezes percebemos que eles desenvolviam um conhecimento que claramente abrange várias áreas do conhecimento. 
        Sugerir uma escola não obrigatória, sem matérias obrigatórias onde o aluno escolhe o que estudar parece absurdo dentro da nossa sociedade de controle. O mesmo vale para a legalização da maconha. Sigo pedindo mais parques e áreas verdes dentro das cidades, uma estrutura que incentive o uso da bicicleta para sanar problemas de saúde, não mais hospitais, postos de saúde, médicos e burocracia - marcar consulta, receita para pegar remédio, ficha cadastral para não pagar pelo remédio, etc. 
       A sociedade que ai está é a mesma que motiva a irmos para a rua, pois ela nos gerou este descontentamento, e justamente por isso me estranha que se pede um melhoramento dela, ou seja, tornar esta opressão do capital mais eficiente, não transformar, mudar e deixar de transferir nossa responsabilidade para outras pessoas, pois isso leva ao totalitarismo, e foi isso que foi feito durante a maior parte do tempo nas últimas eleições - por exemplo - ou quando falamos, "isto não é minha função", "entendo seu problema, mas não posso lhe ajudar".
         Por fim, esta mudança não vêm do canto do hino nacional, nem da bandeira criada pelo governo militar ditatorial que implementou a república lá em 1889. Isto é a sociedade que gera nosso descontentamento, não reforcem ela. Mudem-se!

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Água da Chuva



As gotas de chuva, intensas caem no telhado. Dá para sentir o cheiro da cerâmica molhada, chove faz pouco e os cheiros são mais frescos e intensos. Fico olhando de longe a água escorrer no vidro. Pode parecer piada, mas isto é melhor que muita coisa por ai, como ler ou escrever. Prefiro olhar a chuva cair e a água escorrer do que trabalhar, não há dúvidas. Junto com essa chuva que escutamos cair no telhado dessa casa vazia, ainda com pouca mobília, um frio vem chegando. Dá pra sentir que ele passa mais fácil pelo vidro, este mesmo que ficamos vendo a água da chuva escorrer.
Vejo você na cozinha, sinto o cheiro do café daqui da sala. O frio começa a arrepiar minha pele, estou com menos roupa do que exige o clima, você, como sempre, está linda, mesmo usando esta roupa cinza, folgada, feia, continuas linda. Quero te abraçar, mas prefiro esperar mais um pouco, deixar pelo menos o café ficar pronto. Ainda em silêncio você me traz a xícara, com leite, sempre lembro de café com leite, era esse meu posto nas brincadeiras quando criança, não entendia porque um posto ruim tinha nome de coisa boa. Tu sentas do meu lado, eu me arrepio, e seguimos sem dizer palavra. Sem nos tocarmos bebemos e olhamos a chuva.
Tão logo as xícaras são depositadas do lado desse nosso colchão no chão, te envolvo as ancas com meu braço e em seguida, como que buscando uma conclusão do movimento, eu te abraço. Nos jogamos nesta mistura de colchão, cobertas e lençol. Agora junto com o barulho da chuva dá para escutar nossos beijos, nossa pele roçando uma na outra. Sinto com os lábios tua cartilagem, tua pele, teu pescoço. Você muitas vezes fica só parada, esperando meus beijos, eu abro um pouco os olhos e vejo você linda, o que só me faz querer te beijar mais e mais. Nos envolvemos por baixo das cobertas, feito crianças fazendo uma cabana. Isso faz com que o barulho da chuva pareça estar mais longe.
Começa a subir aquele calorão, que termina na cabeça, faz a gente querer explodir, é o melhor calor do mundo, ele é diferente do verão, da fogueira ou do aquecedor, é um calor que vem disso que chamamos de alma. Ele, assim como teus dedos, passeiam pelo meu corpo, que obedecendo tuas vontades vai ficando nu. Gosto do momento que meu peito encosta no teu, em que sinto teu calor e as batidas do teu coração. O meu bate forte, apressado, apaixonado. Nos abraçamos e nos apertamos forte, como se isso fosse um esforço pra nesse momento sermos um. Tua mão desce pela minha barriga, acaricia meus pelos, segura com carinho e puxa pra ti. Logo sinto tu daquela forma única e úmida. Te aperto procurando te imitar. Tu como sempre, vai ficando cada vez mais linda, especialmente quando depois de um tempo, sorrisos e suspiros escapam.
Não sei como mas sei que toda vez isso acontece, tu me derruba, eu caio, me acabo, desmonto. Fico sem forças, e ainda assim sinto vontade de te beijar, te abraçar e ficar mais algum tempo contigo. Tua pele e a minha se namoram mais um pouco enquanto ao som da chuva conversamos com os olhos, e pouco importa a pouca mobília e o colchão no chão porque não temos uma cama. Meu peito se abriu ao teu no momento em que se tocaram, peguei um pedaço de ti e tu um de mim, difícil negar isso, coisa que só os que não tem coração fazem. Cuida desse pedaço de mim, pois eu carrego um teu também.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Da alimentação

Edward Hopper, 1942

-->
Anos atrás o que vinha estampado em destaque junto a embalagem de produtos alimentícios eram as características nutricionais: omega 3; vitaminas A, B, C e outras letras do alfabeto, metais como ferro ou zinco, etc. Você encontrava alguma propriedade nutricional nas embalagens, sempre. Hoje o que está estampado nas embalagens é zero. Zero lactose, zero gordura trans, zero açúcar, zero alguma coisa. A primeira coisa que percebemos é que agora já não se busca suprir seu corpo com o máximo possível de propriedades nutricionais, mas sim evitar o máximo possível de “não-propriedades” - acho que aqui fica claro o quanto eu não entendo nada de nutrição e ciências afins, mas a proposta não é indicar uma alimentação saudável, e sim pensar nossa relação com algo tão cotidiano: comida.
De qualquer forma nossa alimentação é altamente industrializada, sabemos disso, está bem claro pelo menos toda vez que comemos, alguma coisa será industrializada, pelo menos o tempero. Agora outro dado interessante é que precisamos ser convencidos constantemente de que esta alimentação industrial tenha boa qualidade. Primeiro as embalagens não marcavam nada além do produto. Porém houve alguma necessidade para que em algum momento a embalagem possuísse mais do que o produto para te convencer a comprar. Ora, já se sabia que um pacote de bolacha recheada não é tão saudável quanto uma manga, dai a necessidade de camuflar o alimento vendido, indicando bem grande que ele possuía alguma, senão várias – quem sabe até mais do que a referida manga – suprindo assim alguma deficiência nutricional. Sobre isto, vale lembrar dos casos em que alguma vitamina é indicada na embalagem, mas ela não é encontrada dentro da composição dos ingredientes.
O tempo passa, e até nos convenceram de que adquiro algumas propriedades por meio de alimentos industriais. Não minto ao dizer que acredito nisto. Mas o que acontece é que sabemos que junto com as referidas propriedades nutricionais vêm também um monte de porcaria, ou simplesmente desnecessárias. Por isso agora os alimentos industriais precisam indicar não mais alguma pretensa propriedade nutricional, mas sim a ausência de elementos que fazem muito mal ao nosso corpo (quantos pacotes de gordura trans eu já não devo ter comido sem saber?). O que ocorre afinal é que sabemos muito bem da verdade, alimentos industriais não são a melhor saída para uma boa alimentação, por isso esta necessidade de nos convencerem constantemente de que ele vale a pena. De qualquer forma fico pensando em qual será a próxima saída para a produção deste regime de verdade: a de que enfiam goela abaixo alimentos péssimos, porém necessários para manutenção do capitalismo. Será que haverá explicações sociológicas entre o consumo de alimentos industriais e o modo de vida que temos hoje? Muito parecido com as embalagens, antes apenas bonitas, depois indicando algum valor nutricional e agora o oval zero. No mínimo preocupante. Não gosto de indicar caminhos, mas vejo uma ligação entre matadouros e fábricas, plantações de soja (que viram ração pra gado) e escritórios, transgênicos e a “ala cancerígena” do hospital. Gosto de saber o que entra nesse meu corpo.
_________

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Meu coração é feito uma granada

Foto de Rodney Smith

**


Estas palavras não tem sentido algum enquanto você não os der. Toda minha linguagem não significa nada enquanto você não estiver aberto para ela. Minha pele é asquerosa enquanto ela não arrepia ou aquece a tua no contato. A experiência precisa ser completa. O corpo é minha estética, por isso o uso, experimento, sabendo que o que importa é o momento. Dois segundos ou três, que me aceleram o coração, um beijo ou dois, errados, tortos feito eu. Aprofunde, afunde, deixe entrar a paixão. Amor livre é estar aberto ao amor, amor livre é amar da forma que meu amor me permite, amor livre é poder te abraçar, amor livre é a minha forma de amar. Não importa o que digam, minha autonomia e independência me ajudam, me levam muito mais longe que o medo. Medo de cair, de se jogar, desprender e até de amar. O medo me fez esquecer do amor, do carinho. Seja o de tua pele, seja o de meus amigos, seja trabalhando, carinho. Nunca se deve negar carinho. Ele como a arte são essenciais para a vida. Não faça do mais importante algo vazio, complete, encha até transbordar, sua vida precisa de arte, precisa de ar. O homem não inventa coisas por acaso ou capricho, ele inventa para sobreviver. Arte e amor são mais que mero entretenimento. Estética é mais do que tabelar e reproduzir o que é belo ou feio, estética é minha pele, o arrepio, o frio, o calor, a água do rio que toca, estética é o contato mais intimo que eu tenho com o meu corpo. Meu corpo é a última coisa que me tiram, é o fronte mais difícil e constante da minha vida. É ele que sofre e sabe melhor do que eu o que é o amor, é ele que sente como nada no mundo a arte, ele que dança, que chora, ri e se embebeda. É com ele que eu luto. Luto pela minha liberdade, pela minha estética. Meu coração é feito uma granada.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Pescador sem Mar


Queria colocar uma foto de alguma dessas vilas que existem costa a fora, na preguiça e ausência deixo um Klimt.

***

PESCADOR SEM MAR

Era o finalzinho da tarde. O sol já começava a se mostrar laranja. Mesmo com todo o calor que fazia, Rose preparava o café para Ivo, seu esposo. Ela sabia que ele gostava de tomar uma xícara antes do dia acabar. Tão logo Ivo sente o cheiro do café coando, ele vem. Pega nacos de pão e o besunta com a margarina já posta sobre a mesa. Pela porta aberta ele conseguia olhar o mar, estava tão perto que era possível escutá-lo. Assim que Rose serve as duas xícaras de café e senta, chega Ezequiel: “Opa, tudo bem seo Ivo? Tudo bem dona Rose?”. O pescador nem se dá ao trabalho de responder, apenas olha seco. Ezequiel sabia que Ivo não gostava dele. Enquanto sua esposa abria um sorriso, o cumprimentava cordialmente e logo puxava uma cadeira convidando a visita para sentar:
  • Cheguei na hora certa, né dona Rose? Bem na horinha do café! - falava cheio de si enquanto sentava, algo que parece ser importante para um corretor de imóveis.
  • Ah, o cafezinho aqui em casa é sagrado, se não tem café no final do dia o Ivo fica que fica – responde Rose com um largo sorriso nos rosto – Não é mesmo benzinho? - fala ela dando um tapinha de leve no ombro do esposo com a clara intenção de inseri-lo na conversa.
  • Hum – é tudo que ele responde.
Apesar da conversa começar em tom trivial, todos os três sabiam o que Ezequiel queria. De tempos em tempos ele ia conversar com os dois sobre alguma proposta para compra da casa. Ivo e Rose tinham uma casa praticamente de frente para o mar numa pequena vila de pescadores chamada Araçá. Algo que se pode perceber pelos barquinhos amarrados ao longo da estreita orla. Fazia algo como uns cinco anos que a prefeitura da cidade, visando incrementar o forte potencial turístico da cidade, asfaltou a estrada que antes era de terra e colocou placas indicando o caminho para as prainhas que existiam neste trecho da costa do litoral sul. Isto veio acelerar a construção das mansões nessa região, a maior parte dos donos, gente de fora, “forasteiro” como gostava de dizer seo Ivo nas vezes que conversava sobre isso com alguém que simpatizava:
  • Fala logo – disse Ivo quase num sussurro. Ezequiel aprendeu rápido que perder tempo não era bom e logo desembuchou.
  • Eu estive conversando com um sujeito de São Paulo, bem, ele acabou de passar o verão por aqui, perto do carnaval, e viu a sua casa e a do lado. O que ele veio falar comigo foi o seguinte seo Ivo: a do lado, a casa do César tá a venda, tem a plaquinha da minha corretora e tudo mais, como o senhor bem sabe, mas o que ele visualizou pra realizar o sonho dele, como ele me disse, é que ele precisava da sua casa também. Dai ele foi lá no meu escritório, conversou comigo e explicou toda a situação. Ele ficou muito, mas muito interessado mesmo...
  • não – cortou secamente Ivo. Ezequiel já havia conversado outra vez, apesar da quantia em dinheiro ser maior agora que na primeira, o corretor já sabia que não adiantava só falar de dinheiro, também sabia que precisaria usar-se de Rose para convencer o pescador teimoso e regrado que era Ivo.
  • Bem, não vou mentir para o senhor, sei que não é uma decisão fácil, independente do valor a ser pago, lhe dou toda razão neste quesito, toda. Por isso eu vou deixar aqui o contrato para o senhor ler, sei que o seu filho entende bem dessas coisas, assim o senhor pode analisar com calma, conversar com sua família a respeito disso tudo, e eu venho daqui uma semana conversar com vocês mais uma vez, tudo bem seo Ivo? - concluiu ele estendendo a mão para o pescador. Com uma clara falta de vontade Ivo aperta a mão de Ezequiel com a ponta dos dedos, “parece que eu estou segurando uma cobra com a mão”, pensou ele.
Esperto como era, Ezequiel entendeu bem a situação que se apresentava. Terminou de tomar a xícara de café que a matriarca lhe oferecera, fez uma expressão de agrado ao terminar o café, cumprimentou dona Rose e foi embora dando um simples abano por entre a porta.
Como se nada tivesse ocorrido, Rose começava a arrumar a cozinha, preparando para a janta:
  • simpático esse rapaz não? - falava ela de soslaio querendo puxar conversa.
  • Nem tanto, é um interesseiro isso sim - retrucava ele querendo encerrar a conversa. Ocorre uma pausa e ela segue fazendo aqueles comentários típicos de mulher:
  • Fiquei sabendo que a Júlia e o Roberto venderam a casa deles agorinha em janeiro. Parece que em março eles se mudam. Ganharam uma nota preta! Conversei com a Júlia ontem e ela me contou do apartamento novo que eles compraram ali perto do ginásio municipal. Ela vai fazer tudo novo, cozinha nova, banheiro novo com aqueles pias modernas, disse que não quer levar nada do que tem nessa casa aqui, que vai entregar a casa com tudo dentro.
  • Hum – responde Ivo daquele jeito bronco típico dos homens.
  • E parece que vão poder até comprar um carro novo – arrematou Rose enquanto enxugava um prato e seus olhos brilhavam. Ivo olhou o mar pela janela e soltou:
  • Você já ouviu falar em condomínio ou IPVA? - Ela não disse nada. Terminou a louça, sentou na mesa e começou a folhar os papéis deixados sobre a mesa. De forma um pouco rude ele pergunta:
  • O que tu quer ver ai?
  • Nada, só dar uma olhada, até porque metade da casa é minha, direito garantido por lei, então pelo menos metade das coisas e da casa são minhas.
  • Não vais pegar nem um terço do contrato não sabendo ler.
Irritada Rose deixa os papéis na mesa e começa a mexer nos armários e geladeira, nervosa, buscando afazeres da cozinha. Ivo logo percebe que ela estava magoada. Pega os papéis, passa o olho rapidamente pelas páginas, arregala o olho onde estava escrito o valor, olha mais um pouco e deposita a papelada novamente sobre a mesa. Caminha calmamente até Rose, que estava visivelmente irritada. Deposita suas mãos marcadas pelo sol e água salgada nas ancas dela, lhe dá um beijo suave no pescoço e diz calmamente:
  • Dessa vez um vou pensar mais no assunto tá? Eu estive vendo e a grana é mais alta, quem sabe vale a pena, mas isso eu tenho que pensar.
  • Tá bom – responde ela baixinho. Ele dá mais um beijo nas costas dela, aperta as ancas mais forte e fala em tom brincalhão:
  • Em últimos casos tu pode vender a tua metade e eu fico aqui sozinho com os peixes. - Ela ri um pouquinho, se vira, envolve seus braços no pescoço dele e lhe dá um beijo, deixando claro que era isso o que queria ouvir. Ele dá um tapa na bunda dela e vai terminar de preparar seu equipamento de pesca para o outro dia.
§

O sol já começava a pintar o mar. Assim cedo Ivo adentrava a água, sozinho. Já trabalhou com um ajudante e depois com seu filho que agora mora na cidade e trabalha para prefeitura. Até chegou a tentar alguém para lhe ajudar, mas era difícil alguém que já sabia e Ivo não tinha mais muita paciência, por isso preferia ir sozinho pro mar, apesar da aflição de Rose. Ele lembrava de quando era novo e precisava tomar o mar com seu pai. Acordavam cedo, mais do que havia se habituado a acordar agora. Hoje ele olha do seu barquinho para vila e rememora como era antes. Não mais que duas vendas, a escolinha e o trapiche. Agora existem uns cinco mercados, duas lojas de roupas e quatro lojas de quinquilharias que lotam de turistas no verão. Venda? Essa palavra parece já nem existir mais. A escola? Um ônibus vem buscar as crianças agora para estudarem numa escola “mais moderna” no centro. O trapiche ainda está lá, agora é de concreto e tem boa iluminação. Ali do lado, como que uma peça de decoração fica o barco que agora faz passeios turísticos. Antes quase todo mundo vivia da pesca, agora quase metade do pessoal tirava sustendo nos poucos meses de temporada, “trabalho menos e ganho mais”, dizia Timóteo que era o dono do barco de passeio. Ivo achou curioso que conforme se afastava da vila, percebia que ela se afastava cada vez mais do jeito que ela era outrora.
Quando voltou do mar seu filho estava esperando na cozinha. Apesar de Rose estar ali também, o silêncio era reinante. Da mesma forma que Ivo entra na cozinha, Rose some pela casinha pequenita. Caminha ofegante até o filtro de barro e enche um copo com água:
  • Tudo certo pai? - Pergunta seu filho.
  • Sim sim, vai tudo bem.
  • E pegou muito peixe hoje?
  • Peixe já não tento mais desde que você foi morar na cidade, os barcos grandes e os forasteiros pegam tudo que é peixe agora, não sobra muita coisa, você sabe disso.
  • É, sua ideia dos mariscos foi muito boa, não vou dizer que não. - seu pai consente com a cabeça como se quisesse dizer, “eu sei”, ocorre uma breve pausa e seu filho retoma a conversa – Fiquei sabendo agorinha conversando com a mãe que o Ezequiel veio até aqui ontem, parece que tem alguém bem interessado pela casa – Mesmo não tendo estudado muito Ivo nunca foi bobo, sabia que sua esposa já havia conversado com o filho. No minimo cedinho enquanto ele estava no mar, e que eles planejavam tudo nos aproximadamente quinze minutos em que lhe esperava. Além do mais, seu filho não ia até a vila do Araçá por qualquer motivo, “não gosto daqui”, dizia ele toda vez que conversava sobre o lugar. Sabendo de antemão o que o filho queria, ele mostra o papel onde estava escrito o valor, seu filho tem a mesma reação que a do pai quando viu o valor: arregala o olho.
  • Já pensou nisso pai? Com um valor desses nem precisa pensar pra dar resposta alguma!
Sem dizer palavra ele coloca a mão no ombro do seu filho e o chama com um movimento nos dedos. Atravessam a rua, marcam seus pés na areia. O pescador começa a colocar seu barco na água com inigualável habilidade, pede para o filho entrar dentro, o empurra para dentro do mar parecendo ignorar as ondas e começa a remar. Algumas pessoas olham a curiosa cena de um pescador e um sujeito de roupa social no mesmo barco. Ivo rema até uma distância razoável da costa, mas não muito longe. Recolhe os remos e senta-se ao lado de seu filho, olhando o vilarejo:
  • Tu lembra como era isso aqui quando a gente era mais novo?
  • Um pouco não muito.
  • Faz esforço seu preguiçoso – ele aperta os olhos, põe a mão sobre a cabeça e começa a falar:
  • Lembro, mas não muito, tá tudo muito diferente, parece que daqui a pouco não vai mais ser assim, cinco ou dez anos e a cara da vila será toda outra.
  • Tu lembra do Felipe? Sempre brincavas com o filho dele.
  • Sim, lembro sim pai, porque o que que tem?
  • Ele vendeu a casa dele faz uns cinco ou quatro anos, foi morar na cidade. Ganhou uma grana preta, comprou uma casa toda nova, roupas novas e até mesmo um carro. Desde que ele tinha ido embora nunca tinha mais visto ele, mas faz umas cinco semanas eu vi o Felipe quando fui pra cidade. Agora ele está um pouco mal do dinheiro, não consegue emprego e quando consegue não suporta ficar no emprego. Vocês da cidade chamam a gente de vagabundo e burro, mas não entendem que a gente não sabe ficar parado feito vocês. Riem da nossa pele seca do sal do mar, mas ficam o dia todo trancados no ar condicionado, mal percebem o quanto isso seca os olhos e incomoda o pulmão. Adoram vir pra cá olhar a natureza porque fogem do concreto, mas quem concretou o mato onde se vive foram vocês mesmos. É bom que agora não tem mais poeira em casa, mas por causa do asfalto veio mais gente e agora a praia é cheia de lixo. Não bastasse foram comprando as casas de gente como o Felipe ou Roberto, destroem a casa deles e fazem outra. Agora na areia da praia é cheio de caco de tijolo, cimento e azulejo por causa das obras. Só não constroem a casa em cima da areia porque ela é mole. Eu não gosto disso meu filho, isso me desagrada a alma, parece que vocês querem matar a gente, não suportam o jeito que vivemos. E quando não querem matar, ignoram, como se a gente fosse nada.
  • Mas pai – ele enxuga o suor da testa – as coisas mudam, as pessoas mudam, a evolução está ai. Além do mais olha quanta coisa dá pra fazer com esse dinheiro! Se tu quiser dá pra começar um negócio, comprar uma casa nova, um apartamento desses que tem agora no centro. Tu precisa deixar de ser tão conservador.
  • Tu não entende. Minha dor não é a mudança, é o fim de algo tão bonito, não vês que foi nessa vila que constituí minha vida e tu parte da tua? Não te dói perceber que no terreno onde tinha o abacateiro em que brincavas agora tem uma mansão? O Felipe deixava a gente entrar no terreno dele, pegar abacate, tu e teus amigos brincavam lá a tarde inteira. Agora o muro é tão alto que nem daqui eu consigo ver o que tem naquela casa. Além do mais, que sei eu fazer que não viver do mar? Acho também que eu ficaria mal se morasse numa casa sem terra. Uma vez fiquei uma semana no centro de Florianópolis, foi então que eu percebi que não tinha barulho do mar, mas de carro, dormi mal uma semana inteira, a primeira coisa que eu fiz quando voltei foi dormir. Além do mais, tu viu como está o Felipe? Feito peixe fora d'água.
Em silêncio os dois contemplavam o vilarejo. Era cômico a combinação de barcos de pesca e lanchas, casinhas coloridas e desbotadas dos pescadores como que perdidas entre as mansões:
  • Mas tu viu a quantia? Vais negar esse dinheiro todo?
Ivo dá um forte abraço em seu filho envolvendo-lhe o ombro com as mãos. Volta para o remo e os dois voltam em silêncio para casa. Ao chegar dona Rose estava terminando de colocar a mesa. O silêncio dos dois lhe parecia confirmar tanto que estava decidido vender a casa que ela nem percebeu a cara de tristeza estampada na face deles. Comeram em silêncio, os dois com cara fechada e a mãe com sorriso de orelha a orelha.

§

Sexta-feira era o dia do bar. De maneira metódica não bebia a semana inteira ou nos domingos, um pouco sábado, mas a pinga de sexta-feira era sagrada. Conversava com seus amigos pescadores, fizeram chacota com Timóteo porque agora tocava o negócio do passeio turístico, andava “feito um gigolô”, disse Ivo. Riam, pois diziam que andava mais emperequetado que uma quenga. Geralmente Ivo voltava até a meia-noite, mas dona Rose já começava a ficar preocupada porque ele não voltava. Impaciente como estava, assim que deu uma hora da manhã foi até o boteco em que ele habitualmente ia; já estava fechado. Caminhou mais um pouco e foi no seguinte, mesma coisa; fechado. Roendo as unhas caminhou atentamente pela rua da vila esperando ouvir algum barulho de seu marido, que tinha por hábito fazer estardalhaço quando bebia. Rodou e rodou mas não o encontrou. Olhou o trapiche, um barco acabava de chegar carregado de peixe, imaginou que ele estaria lá, conhecia todo mundo e sempre lhe pediam algum palpite. Perguntou e nada. Desistiu conforme voltava para casa. Preparou-se para dormir, janela aberta e ventilador ligado, mas o sono não vinha.
Apesar da aflição a sonolência que começava a lha acometer às três da manhã passada não lhe permitiu escutar Ivo chegar. Ouviu “Rose, Rose meu amor” e deu um pulo. “Rose xuxuzinho”, ecoava em alto tom a voz torta do pescador. Ao chegar na cozinha Ivo já estava sentado, terminando um cigarro, algo que não tinha hábito. Tocando suavemente a coxa convidava sua esposa para sentar em seu colo. Ainda assustada por não entender nada, ela senta. Recebe os habituais beijinhos nas costas, o que lhe acalma, mesmo não gostando do bafo da cachaça. Ele pega nela da maneira habitual de quando bebia e começa a disparar:
  • Lembra da capelinha que ficava a uns trezentos metros daqui?
  • Sim, lembro sim, sempre ia rezar lá com minha mãe. Foi lá que nos conhecemos.
  • Isso mesmo, quando te vi quietinha fingindo rezar teu terço enquanto me olhava de soslaio, me apaixonei. Foi assim que comecei a ir sempre que podia lá na esperança de te ver.
  • Parece que deu certo – responde ela sorrindo.
  • Passei hoje ali na frente, não tem mais a capelinha. Tinha esquecido que aos pouquinhos foram parando de ir nela, que ninguém mais cuidava dela. Agora tem uma igreja de crente. Sabia disso, da igreja e da capelinha, mas só hoje eu me dei conta que esse lugar tão importante já nem existe mais.
  • Talvez por isso, porque foi devagarinho, aos pouquinhos como tu disse, dai a gente não se dá conta.
O silêncio se fez na cozinha. Com um gesto ele dá a entender que era para Rose pegar a papelada que Ezequiel tinha entregado. Pegou uma caneta, botou os óculos que praticamente nunca usava e com sua mão tremula assinou seu nome e rubricou cada uma das páginas. Soltou a caneta com desdém e Rose recebeu um forte beijo. Assim que ela abriu os olhos percebeu que lágrimas escorriam dos olhos de Ivo. Sua cara estava vermelha. Ele fez com a mão para que ela não visse a cena. Ela conhecendo bem o marido, faz um carinho na cabeça e sobe para o quarto. Fingia dormir quando ele entrou coisa de meia hora depois. A abraçou e dormiram até tarde.
No sábado e no domingo os dois passearam por toda a redondeza. Fazia tanto tempo que não faziam isso que pareciam estar desbravando a vila onde nasceram novamente. Segunda bem cedo, enquanto tomavam o café Ivo joga pesadamente os papéis sobre a mesa:
  • Vá você, porque eu não consigo. Assinei meu atestado de óbito.
  • Não diga isso homem!
  • Quando demolirem a casa para construir uma mansão, na qual eu nunca poderei entrar, tendo um dono que nunca vi, demolirão mais do que o tijolo.
No caminho para a cidade Rose compreendeu tudo que seu marido disse, até porque ele chorava. No caminho percebeu que muita coisa havia acabado, não mudado, mas acabado. Junto com as casas e as pessoas, toda uma vila começava a ser enterrada, e o dolorido era o esquecimento e desprezo por um passado que um dia fora tão belo, “insensíveis”, pensou ela, “e ainda oferecem uma quantia de dinheiro que homem algum pode negar”. Junto com cada tijolo, a lembrança só restava na memória.