Mostrando postagens com marcador política.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador política.. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O sentido da esquerda ou, Não estou nessa pra pegar mulher


Estamos esquecendo do mais importante, as mulheres (e os homens) não são “seduzidos” pelos discursos da esquerda devido a sua malícia ou o mero conforto, essa aceitação do discurso de esquerda ocorre porque estes discursos fazem sentido. Quando é dito “que é necessário libertar seu corpo do julgo patriarcal”, a reverberação disso entre as mulheres ocorre não pelo fato de que supostamente é chique ser feminista, mas porque faz sentido ser feminista. Afinal, as mulheres (e os homens) são ainda hoje vítimas do machismo, e aceitam esse discurso “de esquerda” por fazer sentido a sua existência. Não houvesse essa pressão sobre o corpo feminino, propagandas como as do iogurte-gostoso-que-te-ajuda-a-ir-no-banheiro, não seriam direcionadas a um público tão específico de mulheres, donas de casa e mães. Se não houvesse machismo este produto talvez nem fosse necessário, pois mulheres se libertariam da pressão de serem bonitas, lindas e perfeitas vinte e quatro horas. Pode parecer exagero, mas não havendo esta pressão sobre o corpo cobrando toda essa beleza, o estomago, nosso velho coração segundo os gregos antigos, funcionaria melhor, mais livre, e quiçá um produto assim fosse dispensável, ou não teria um foco tão grande em mulheres, donas de casa e mães.
Não há sedução ou malícia alguma no discurso de esquerda, há sim algo próximo ao bom senso e a razão. E se as pessoas aceitam estes discursos (plural, pois são vários), é porque eles tem um sentido na vida dessas pessoas. Negar isso seria ignorar a autonomia e liberdade que nós seres humanos temos. E da mesma forma que o brasileiro adotou uma série de americanizações também pelo fato da cultura estadunidense ser rica e interessante, o discurso de esquerda passa pelo mesmo – a diferença é que a esquerda não é gerida por um escritório central, muito menos é financiada por ricos lobistas como ocorreu no processo de americanização do Brasil, que fique claro! O ponto chave é, o discurso de esquerda é confortável, mas não por te ajudar a “pegar mulher”, por ser mais fácil ou de maior aceitação social, mas sim por te ajudar a viver de uma forma mais livre e sensata, até porque deixar de ver a mulher como um objeto que pode ser pego e usado, pode proporcionar ao homem toda uma nova gama de experiências ótimas com ela(s), e que podem ser muito produtivas e prazerosas para ambos. Até porque um dos maiores problemas para a família hoje em dia é todo o peso de uma normatividade que não faz mais sentido.
Diferente do que parece ocorrer entre certos adeptos do discurso de direita, que mesmo sozinhos e indesejados pelo sexo oposto, não abrem mão de sua individualidade e verdade, os discursos de esquerda fazem algum sucesso entre mulheres e homens porque dizem para essas pessoas que elas não estão erradas. Não estão erradas por serem indígenas, afrodescendentes, mulheres, uma pessoa que não quer ser milionária, homossexual ou pobre, e isto é muito bom, saber que você não é errado, não é uma peça estragada dentro da rígida máquina que é a sociedade. No fim das contas, enxergar a sociedade como algo mais desenvolvido e humano do que uma máquina, onde cada pessoa tem seu lugar estático, onde o negro deve continuar segregado, o índio ignorado, a mulher oprimida, o gay como motivo de piada e violência, o pobre ao Deus dará e todos devem almejar ser um Eike Batista ou Warren Buffet senão estão errados, isso é algo muito bom e libertador sim, mas não por ser fácil, mas por fazer sentido a nossa vida.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Do socialismo: hoje

 
Foto de guerrilheiro partisan
Qual o sentido de ser socialista hoje em dia? Como disse Saramago certa vez, “sou socialista de espírito”, e ele prosseguiu afirmando que provavelmente nunca fez tanto sentido ser socialista quanto nos tempos atuais. Ser socialista não significa necessariamente integrar nenhum partido, nem é obrigatório apoiar algum regime. Ser socialista está muito mais ligado a sua inconformação com a pobreza no mundo, mesmo que o mundo tenha deixado faz muito tempo de ser um lugar pobre. Ainda existem pessoas passando fome, e não é pela falta de comida, é pelo não acesso a comida. Muitas vezes por motivos que elas não tem poder de interferir. O Brasil está entre os dez países mais ricos do mundo, e isso não é de hoje apesar de todo o alarde do sexto maior PIB mundial, continuamos morando em favelas, pegando ônibus lotado, enfrentando engarrafamentos, tendo uma dificuldade enorme para coisas simples como usar hospitais, pegar um livro na biblioteca pública, pesquisar no arquivo histórico, passear no parque, tomar um café num Café (igual Paris ou Buenos Aires), ler um livro neste Café ou parque e, o mais preocupante, ir nestes lugares de bicicleta – e não de carro e não num Shopping Center e não gastando muito dinheiro. A pergunta é: estamos mais ricos e melhorou nossa economia, mas melhorou pra quem?
Hoje, mais do que nos tempos de Saint Simon, H. G. Wells ou Fourier, a pobreza é um problema de distribuição mais do que de produção. Riqueza existe, mas ela não chega de uma maneira igualitária para todas as pessoas.
Algum sujeito já deve estar escrevendo GULAG – em caps lock – e me acusando das coisas terríveis que Stálin ou o Khmer vermelho fizeram. Não sou eles, assim como espero que o sujeito que defende o neoliberalismo não seja ou concorde com Pinochet, já que seu regime ditatorial foi um dos primeiros a adotar as premissas da escola de Chicago, nem com os militares que impuseram uma ditadura no Brasil até 1985 com o intuito de nos “salvar do comunismo” e manter capitalismo - mesmo sendo Jango tão capitalista quanto Juscelino, ambos perseguidos pela ditadura. E tão pouco com o regime nada democrático na irmã sulista da Coréia do Norte, a Coréia do Sul, que até pouco tempo adotava uma democracia nada clara ou participativa – porém apoiada pelos EUA. Da mesma forma que você não concorda com a censura na ditadura militar brasileira, eu jamais concordei com a censura na antiga URSS, assim como desprezo o monopólio da imprensa brasileira e o fato de só haver um único jornal em Cuba, controlado pelo governo. Sejamos sinceros, tanto o socialismo quanto o capitalismo já houveram e ainda ocorrem ditaduras em seu nome. Você entende que um católico não precisa concordar com a inquisição para ser católico, e nem tão pouco ele seja um oficial da inquisição ao se declarar católico, por que pensar isso então de um socialista?
Outro ataque comum, que até já rendeu livro pode ser: “mas como assim, você é socialista, porém sempre estudou em colégio particular, tem uma boa casa, vive bem, não pode!”, associando o socialismo (e afins) a pobreza, a miséria, porém é justamente isto que se busca resolver, as mazelas do mundo, acabar com a pobreza, não reproduzi-la. Socialistas, diferente de monges franciscanos, em momento algum fazem voto de pobreza. Por sinal, caso você não saiba a ideia do socialismo é justamente acabar com a pobreza.
Outro ataque comum é pegar elementos pessoais, como se o sujeito é separado, ou fuma maconha. Utilizar este argumento é nada mais do que combater o lado pessoal e não a teoria em si, dizer “socialista é maconheiro” é tão relevante para o socialismo quanto, “capitalistas não dão esmolas” é para o capitalismo. É um argumento tão importante quanto saber a posição sexual favorita, que por mais que você deseje isso, não muda uma linha de qualquer escrito de Plekhanov, por mais que você insista em tentar. No máximo desvia-se o foco para coisas fúteis como o corte de cabelo, o modelo da roupa, a quantidade de água que bebe por dia...
Por mais que se tente demonstrar que experiências como a URSS deram errado, não podemos esquecer que a crise de 1929 não acabou com o ideal capitalista, nem tão pouco a crise recente conseguiu, e ninguém fala que “o capitalismo deu errado”, mas sim que ele se renovou. Assim como o capitalismo não é o mesmo do século XIX o socialismo não é o mesmo que era praticado no século passado. Da mesma forma, problemas e mais problemas continuam existindo no mundo capitalista, por mais que o discurso de “derrota do comunismo” tente esconder e propagar uma visão de paraíso na terra. E assim como o “comunismo nunca foi alcançado”, o capitalismo que temos agora pode deixar Hayek, Mises ou Smith de cabelo em pé! E é tão cheio de contradições quanto qualquer outra teoria que busque entender ou organizar a sociedade.
Outro argumento cansativo é o de que tudo isto seria apenas uma utopia. Bem, quando se pensou a primeira vez em viajar no espaço, também era uma utopia, quando se pensou em um comunicador de voz e imagem, isto também era uma utopia. A cura do câncer ainda é, a cura da AIDS também, porque só a minha utopia não vale? Já tentaram curar a AIDS mas não conseguiram, por isso vamos desistir?1
Como dito no começo, acreditar numa utopia nunca fez tanto sentido. E não temos muitos ataques contundentes contra um ideal que faz tanto sentido as nossas crenças atuais. Acreditamos que deve haver uma distribuição melhor da riqueza, que escolher o que ser da vida dependa de elementos relevantes como seu empenho e não sua condição para pagar seus estudos, que sua cor da pele ou conta bancária não sejam um pré-requisito para ser atendido no hospital, que devido ao seu trabalho você possa ter um lazer e descanso dignos, que a fome deixa de ser uma imposição para tantas pessoas, assim como a desigualdade. O mais absurdo de todos estes males é que temos tecnologia para isso, já pode ser feito, é possível, cabe agora acreditar.

1Cabe ilustrar aqui que acredito que a cura para muitas doenças poderiam ser possíveis, porém acabam não chamando a atenção da indústria farmacêutica.

sábado, 9 de novembro de 2013

Ubuntu-Linux e o uso de Softwares livres (uma visão política)


Fazem quase dois anos que utilizo Ubuntu-Linux em meu PC. Quando comecei a cogitar de forma séria migrar para o Linux várias pessoas diziam que eu iria me arrepender. Mesmo assim, outras pessoas não me diziam isso e que a melhor forma de saber algo era tentando e experimentando (se arriscando). Acabei escolhendo a aventura e testei o Ubuntu e o Linux Mint, me decidi pelo primeiro – do qual sigo usando. Minha conclusão hoje, quase dois anos depois é a de que eu não me arrependo em nada, pelo contrário, defendo o uso do Linux e pretendo nunca mais usar Windows num computador meu.
Fazia muito tempo que ouvia falar sobre o tal do Linux, vez por outra aquele pinguinzinho aparecia em algum lugar para provocar. Algumas lendas acompanhavam os boatos sobre o Linux: “não trava”, “não pega vírus”, é mais rápido”, “linha de comando”. Porém o que me seduziu de vez para o mundo do software livre foi quando comprei um computador e ele veio com Windows 7 Starter junto. Ora, a primeira coisa que você quer fazer quando tem um PC (Personal Computer) é personalizá-lo não é mesmo? Porém a versão mais leve e barata do Win7 não permite ao usuário modificar coisas básicas como sua aparência. Existem programas e gambiarras para quebrar este bloqueio todo, verdade, mas minha experiência diz que esses programas e gambiarras que prometem maravilhas só estragam e travam mais ainda seu computador.
 O que ocorreu é que eu utilizava o software mais comum entre os computadores1, havia pago por isso (é preciso uma licença), não fui consultado a respeito do software que haveria no meu PC na hora de realizar a compra (pô, não é pessoal?), isso sem falar em toda uma série de restrições a um produto que é meu (desde o hardware até o software). Pode parecer exagero, mas isto só deixou claro para mim como as relações de exploração capitalista funcionam. Mesmo que a Canonical (empresa desenvolvedora do Ubuntu) seja também capitalista, e não há dúvidas sobre isso, ela me permite uma liberdade muito maior em relação ao meu computador pessoal.
Ocorreu que poucos meses depois do teste inicial, aboli de vez o uso do Windows e qualquer programa da Microsoft em meu computador e minha vida segue feliz da vida com o Ubuntu-Linux. Admito que é ótimo não se preocupar com vírus e desfragmentação de disco, além disso existem programas equivalentes, livres e gratuitos para tudo que eu preciso no meu computador (navegar na internet, ouvir música, assistir vídeos, editar textos), alguns até melhores do que os pagos da Microsoft, a exemplo do VLC e comparação com o Windows Media Player. Os bugs não são recorrentes2 e há quase dois anos não dependo de assistência técnica. Quando necessário eu mesmo formato ou corrijo qualquer problema no meu PC, já que a maioria deles são simples e a comunidade Ubuntu bem atuante.
Linux é bem mais “faça você mesmo”, o único empecilho para as pessoas (acomodadas), já que nada mais do que a vontade de aprender resolva.
Mesmo que uma série de possibilidades colocadas aqui (desde não pagar pelo Software até você realizar a manutenção do seu computador) sejam também possíveis no Windows, vejo no Linux uma abertura bem maior e sincera para isso, até porque a ideia do Linux é justamente esta. Por exemplo, há uma tendência comum da Microsoft em vender primeiro uma “versão de teste” e depois lançar a “versão definitiva”. Por exemplo, quando lançaram o primeiro Windows, ele era apenas um programa para o DOS, fizeram assim para não ficar pra trás na concorrência, ou seja, seus lucros ficaram acima da qualidade do produto vendido. Depois tivemos o Win98, que até pouco tempo atrás era a base do Windows, tendo várias versões “de teste” até chegarem no XP (alguém lembra do WinMillenium?). O WinXP era baita bala, um Win98 moderninho, adaptado para os anos 2000, mas não demorou muito lançam o Vista, que nada mais foi do que uma bomba de testes para o Win7 – que traz algumas mudanças conceituais importantes, que já vinham sendo utilizadas no Mac e Linux haviam alguns anos. Agora com o Win8, temos a chegada de uma nova interface para o usuário e novamente um produto experimental. O curioso é que a Microsoft garante muito de seu mercado pelo seu fator conservador, são sempre os últimos a se adaptarem as mudanças e creio que isto faça com que produzam softwares tão “confortáveis” de utilizar.
  O que quero colocar afinal, é que existe um lado político (mesmo que não seja o mais importante) no uso de seu PC. Ele ocorre pelo que você faz com ele, seja baixar músicas ignorando as atuais leis de direitos autorais3, escrevendo textos para um blogue que ninguém lê, ou utilizando softwares livres. A política está muito além dos partidos – creio que os partidos são a menor parte da política – está muito mais nas tuas ações do que no teu posicionamento4. É a velha história do cara que vai na passeata contra a corrupção e depois compra produtos falsificados, ou defender o liberalismo e estudar numa universidade pública. Quando se faz algo, você desenvolve relações, as relações é que geram o jogo político, independente da esfera. E este motivo acaba sendo o principal que me leva a utilizar softwares livres ao máximo possível.

 
1Parece que 90% dos computadores utilizam alguma plataforma Windows, por isso a maior parcela dos vírus são para Windows, o que favorece para os boatos de que Linux e Mac não tem vírus.
2Apesar de que nos últimos anos a Microsoft conseguiu corrigir uma série de erros históricos do Windows.
3É importante colocar que boa parte das discussões a respeito do download de músicas na internet se baseiam numa reescrita das leis de direito autoral atuais, não um simples desprezo pelo direito autoral.
4Mesmo que teu posicionamento determine em muito as tuas ações.