quinta-feira, 24 de junho de 2010

Copa do Mundo (não é sobre futebol)

Algumas idéias para se fazer durante os jogos do Brasil na Copa caso você não goste de futebol, hahaha. Apenas uma idéia que ficava em minha cabeça, que para deixar de me atormentar, precisei escrever. Agora aqui deixo para a posteridade. E também um bom motivo para publicar esta foto linda da Marilyn Monroe, que tem um karma de charme inegável.
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Copa do mundo

Me ligaram e deram o sinal verde, “as quatro da tarde, entendeu?”, queriam ele morto as quatro. Ligaram cedo, acordei com o barulho do telefone. Queria dormir, mas não conseguia, toda vez que tinha que matar alguém minha cabeça ficava terrível, mas fazer o que, era só isso que eu sabia fazer. Nem sei quem me ligou, mas eles e eu sabemos como funciona. Eles depositam a grana na minha conta, eu mato o sujeito, e fica tudo bem. Se eu não fizer o serviço, eles mandam outro igual a mim ou pior, para fazer comigo o que eu não quis fazer com outro, lei da selva. Comi uma comida sem gosto no almoço. Arroz com caldo, não sei cozinhar muito bem mesmo. O arroz parecia purê de batata, mas o gosto era de arroz. Dava para sentir a meleca grudar no céu da boca, mas o gosto ainda era de arroz, arroz molhado, grudento, mas arroz.

Escolho a minha arma, pego uma beretta, ela daria conta do serviço. Uma faca, sempre é bom ter uma faca, nunca se sabe quando vai precisar dela, é como no filme do Rambo, de repente a faca aparece e corta a cabeça de alguém. Odeio o Rambo, não é daquele jeito que se briga. Não é o meu jeito pelo menos. Pego a beretta e coloco atrás na calça e a cubro com o casaco. A faca vai na cintura mesmo, a calça esconde a ponta e o casaco o cabo dela, assim eu sei onde ela está, meus inimigos não. Dou um teco antes de sair, para ficar alerta, não posso ser pego desprevenido, ainda não.

A grana nem era tão alta assim, não é pouca, mas não é muita, não gosto disso, as vezes penso que a vida de um homem deveria valer mais. O morro aqui é pobre, já foi pior, antes nem geladeira ou fogão a gás o pessoal tinha, lembro quando eu era criança, lembro da polícia, que só aparecia para incomodar, ou quando ninguém precisava mais dela. Lembro da vez que o prefeito subiu o morro para se reeleger, e conseguiu. Depois esqueceu da gente de novo. Foi indo aos poucos, agora todo mundo tem televisão, fogão a gás, geladeira, som. Eu também, não tinha nada antes, agora tenho minhas coisas, meu canto, pena que não sei cozinhar.

Depois do almoço fica todo mundo tranquilo, acho melhor para dirigir a minha moto. Terminei de pagar ela mês passado. Vejo os moleques jogando bola no campo de terra, eu joguei naquele campo de terra, agora estou aqui passando com a minha moto. Paro no primeiro caixa eletrônico que eu acho, verifico se recebi. A grana está lá, sempre é bom dar uma verificada, pois se queimar por nada, não vale a pena. Tinha a conta no banco e ainda pagava aposentadoria como autônomo, vez ou outra arranjava um emprego de carteira assinada, mas geralmente é isto mesmo o que eu faço, matar pessoas.

O sujeito morava num desses prédios legais, era mais bonito que a minha casa. Acho legal esses prédios com poucos andares, chato é que eles nunca têm elevador, daí tenho que subir de escada, e geralmente as encomendas moram no último andar, nunca no primeiro, e este não era exceção. Tinha uma bandeira do Brasil enorme numa das janelas do último andar, pelo numero do apartamento, deve ser o dele. O prédio todo tinha bandeiras, mas aquela se destacava, cobria a janela do sujeito. Ainda faltava tempo. Não ia entrar agora, pediram para as 16 horas porque tinha jogo do Brasil, copa do mundo. Eu prefiro assim, melhor perder o jogo que o couro. Era a semi final. Todo mundo ia para casa assistir o jogo, até quem não gosta de futebol. Olho a estrutura do prédio, por onde eu poderia fugir, caso preciso. Nunca precisei na verdade. O lugar tinha boas ruas, dava para ir embora por todos os lados, isso sempre era bom.

As ruas já estavam vazias, o jogo já tinha começado. Dava para ouvir os televisores sincronizados, emitindo o mesmo som. Subo, degrau por degrau, até o último andar. Vou até a porta com o numero que me passaram, pego a beretta e bato na porta para ele abrir para mim. O hino já tinha acabado e a bola estava rolando. Ele abre, pergunta quem é, não respondo, empurro a porta na cara dele e dou uma coronhada no ombro. Fecho a porta rápido enquanto ele está caído no chão. O mando ficar quieto. Me falaram que ele era solteiro, mas poderia ter alguém na casa. Olho rápido por todos os cômodos, e não vejo ninguém. Ele já se levantava, o empurro para o sofá, para assistir o jogo, o mando ficar calado. Pego uma fralda e amarro sua boca, para que ele não pudesse fazer som algum. O coloco sentado para ver o jogo, mantenho a arma apontada para ele. Pego uma cadeira da sala e me sento do lado do televisor, com a arma apontada para ele. O suor escorria de sua cabeça, saia catarro de seu nariz, e sangue, mas só um pouco. Ele estava agonizado, gemendo e babando toda a fralda, tentando falar algo. Olho para ele e pergunto se está torcendo pelo Brasil. Ele faz que sim com a cabeça. Olho para aquela bandeira enorme que ele tinha na janela, era do apartamento dele mesmo. “Vou atirar em você no primeiro gol que o Brasil marcar”, ele entende no ato. Com toda a barulheira que acontece quando o Brasil faz gol, ninguém perceberia que ele levou um tiro, soltam foguetes e mais foguetes. Meu tiro seria só mais um barulho.

O Brasil jogava forte, mas a outra seleção não era brincadeira, estavam dando trabalho, vários chutes a gol dos dois lados, mas chutes imprecisos, difíceis. Mesmo assim, estava nítido que sairia gol em algum momento. O primeiro tempo já estava acabando, ele estava encharcado: suor, catarro e a saliva que deixava a fralda molhada. O sangue tinha para de escorrer já. O primeiro tempo acaba, olho para ele e disse que isso não mudava as coisas, era só mais sofrimento para ele, “é melhor torcer pro Brasil”.

O segundo tempo começa, o Brasil entra com tudo. O narrador estava animado, conforme o narrador ficava animado, ele ficava cada vez mais angustiado. Deve ser terrível mesmo. O narrador berrava a plenos pulmões, como se isso muda-se algo. O jogador entra na grande área, toca para o colega a esquerda, manda para o que estava livre no meio ele chuta e a bola entra no gol. O narrador se desespera em alegria, os jogadores correm para todos os lados, pegam a bola, correm para a câmera para comemorar o gol, é uma festa. A encomenda começa a chorar, lágrimas não param de escorrer de seus olhos, peço desculpas, sei que isso não adianta, ele preferia que eu o enchesse de porrada, podia até mesmo o queimar com ferro quente, não adiantava pedir desculpas para o que eu ia fazer. Ponho a beretta na cabeça dele, na boca. Seu corpo tremia, eu esperava apenas o primeiro foguete. Por completa sorte minha e azar dele, seu vizinho do lado solta um foguete, eu sorrio ele chora mais ainda. Atiro. O sangue jorra na parede, espero o próximo foguete, atiro de novo, e mais um na barriga. Algumas pessoas balançavam a bandeira do Brasil na janela, outras assopravam as trombetas. Tão logo tudo parou, vejo o replay na tela. Foi um gol bonito, jogada ensaiada, acho jogadas ensaiadas bonitas. Abro a porta, no corredor tem uma menininha, de menos de 8 anos, toda vestida a caráter de seleção. Ela me olha séria, percebe o cabo da minha faca, que ficou a mostra por causa da ação. Fica séria, mando um beijo para ela, um beijo deixado no ar, ela sorri e volta correndo para o seu apartamento.

Desço as escadas, pego minha moto e volto para casa. As ruas estavam vazias, passo na frente do posto policial e todos estavam do olho no jogo. O Brasil ganha e todo mundo fica feliz, quase todo mundo. Termino de ver o jogo em casa, ganhamos por 1x0, mas ganhamos, estávamos na final.

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